"E... Eles chegaram com suas
sabedorias tiradas
de teias de aranhas
que se desfaz ao toque
ou ao pingo da água..."
Corvo do Silêncio

Num sertão de tantas brigas,
vi o povo se rasgar,
cada um com sua rima,
sem querer mais escutar.
Um jurava por um mito,
outro, em Lula, ia jurar.
Vi bandeiras nas janelas,
e famílias se apartar,
uns chamavam de ladrão,
outros, de militar.
Mas nenhum via o espelho,
pra poder se questionar.
Eu, sem cor, nem lado fixo,
quis apenas investigar,
fui nas fontes, fui nas provas,
sem vontade de julgar.
Nem herói, nem vil no mundo,
só o erro a se estudar.
Pesquisei sobre o barbudo,
lá das fábricas do ABC,
onde o pobre o carregava
com esperança de vencer.
E aprendi que sua história
não é fácil de entender.
Teve o sonho e o sindicato,
teve o povo a se unir,
mas também teve sentença,
e o cárcere a dividir.
Uns gritavam: “É injustiça!”,
outros: “Fez por merecer!”.
O tríplex e o tal sítio,
muita manchete gerou,
vi juiz virando ídolo,
depois réu, se revelou.
E o que era só processo,
virou arma e se quebrou.
Quando a morte da esposa
lhe chegou pra derrubar,
vi no homem o silêncio
de quem tenta respirar.
Nem o ódio de um país
pôde ali lhe condenar.
E mais tarde, entre os abraços
de uma nova devoção,
surgiu Janja, a companheira,
com a força e proteção.
Do exílio à presidência,
ele voltou pra nação.
Falou de amor e justiça,
de refazer o Brasil,
de quem veio da pobreza,
e venceu sem ser gentil.
Mas nas sombras, o passado
segue vivo, sutil.
Do outro lado do palco,
vi surgir o capitão,
com discurso e com bandeira,
invocando a salvação.
“Deus acima de todos!”,
Murmurava a multidão.
Falou duro, falou grosso,
disse o que o povo quis,
fez da raiva sua arma,
e o medo, seu petiz.
Pra uns era o novo guia,
pra outros, um aprendiz.
Na pandemia, a descrença,
fez mil mortos se perder,
enquanto o riso nas lives
fazia o povo sofrer.
E o país entre covas,
sem saber o que fazer.
Falou mal da vacina,
deixou o caos transbordar,
mas também trouxe soldados
pra rua marchar.
Quem temia o autoritarismo,
começou a duvidar.
Veio o oito de janeiro,
triste cena pra lembrar,
o Congresso em ruínas,
a vergonha no ar.
E o Brasil foi pro mundo
sem saber se ia voltar.
Sobre as joias e pendrives,
a imprensa foi mostrar,
e o silêncio do ex-chefe
não quis se explicar.
Mas na fé dos seus fiéis,
ninguém quis desconfiar.
“Não entreguei a faixa,
mas entrego o coração”,
disse um dia o capitão,
com a Bíblia e a mão.
Mas o gesto parecia
mais orgulho que emoção.
Falou mal do ex-juiz,
que um dia o fez reinar,
“Traidor”, disse na raiva,
“me quis condenar”.
E o círculo se fecha,
onde tudo vai girar.
Vi famílias divididas,
irmão contra irmão,
pai negando o próprio filho,
por causa de eleição.
E o país, sem equilíbrio,
afundando em confusão.
Uns chamavam de comunista,
quem falava em refletir,
outros viam fascista
quem ousava discutir.
E o diálogo sumia,
como água a se extinguir.
Vi o povo nas estradas,
sem destino, sem abrigo,
rezando pra pneu,
achando estar com o amigo.
E o capitão lá distante,
nem sonhava estar contigo.
Os que ficaram nos quartéis,
sob o sol, chuva e trovão,
esperando setenta e duas horas
por um gesto ou salvação,
ouviram o vento dizer:
“O mito não voltará, não.”
E o Brasil virou chacota
lá na mídia estrangeira,
com o povo ajoelhado
numa fé tão verdadeira,
mas que o mundo viu insana,
como dor disfarce inteira.
“Patriotários”, diziam,
“patriota sem noção”,
mas ninguém via a ferida
que nascia da paixão.
Pois quem crê, mesmo errado,
carrega o coração.
De um lado, o carismático,
do outro, o militar,
um com verbo e esperança,
outro, com medo no olhar.
Ambos homens de poder,
ambos prontos pra mandar.
E eu, que ando pelas ruas,
vejo o povo sem saber,
quem mentiu, quem se omitiu,
quem merece renascer.
O país virou espelho,
sem ninguém pra se rever.
Pesquisei cada manchete,
cada ato e confissão,
as verdades se misturam
com mentiras da nação.
E o juízo do povo
vem mais do coração.
Vi a fé e a loucura
serem quase a mesma flor,
no jardim da política,
regada a dor e rancor.
E o Brasil, nessa mistura,
confundiu medo e amor.
Nem o santo é tão puro,
nem o réu, tão vil,
cada um traz seu pecado,
sua parte infantil.
E o Brasil segue o drama,
do herói e do febril.
Vi artista se calando,
vi soldado a se indignar,
padre e pastor divididos,
sem saber como orar.
E a verdade, em silêncio,
preferiu não se mostrar.
Fui buscar nas leis escritas
o que o povo quer ouvir,
mas a lei é fria e muda,
não ensina a redimir.
E a justiça, às vezes cega,
finge não querer sentir.
Quem viu fome e viu poder,
viu também a confusão,
de um país que se renova
na dor e traição.
Entre fé e revolta,
se molda uma nação.
Lula ergueu o verbo forte,
falou do povo e da dor,
Bolsonaro, entre insultos,
invocava o Criador.
E o Brasil, nesse embate,
se esqueceu do amor.
Hoje vejo nas esquinas
quem não sabe o que pensar,
quem votou por desespero
ou só pra se vingar.
E a urna é só espelho
de quem quer se enganar.
O dinheiro, o poder,
a mentira, o discurso,
fazem santos de demônios,
e demônios do percurso.
O país segue o ciclo,
no eterno retrocurso.
Mas ainda há quem pense,
quem pare pra refletir,
quem procure a verdade
sem partido pra seguir.
E talvez nesse silêncio
possa o Brasil emergir.
Quem observa, compreende
que o ódio não constrói,
que a raiva alimentada
aos poucos nos destrói.
E a pátria que se divide,
no final, se corrói.
Eu não sigo nenhum deles,
nem o verbo, nem o grito,
quero ver um povo livre,
sem herói, sem mito.
Pois Brasil não é pessoa,
é destino infinito.
Se o futuro ainda é bruma,
não é tarde pra aprender,
que o poder que redime
está em compreender.
Nem Lula, nem Bolsonaro,
sozinhos vão resolver.
E se fosse pra escolher,
entre dois pra confundir,
não seria o messias
nem o líder do sorrir.
O que quero é o Brasil
sem precisar se dividir.
Se fosse pra me escolher um lado,
entre um bêbado e um louvor,
uma criança sorriria
do que bebe sem pudor,
mas jamais entenderia
quem faz de joia o amor.

"O ser pensante mais inteligente
que nunca existiu em
nossa era... Eu, desconheço.
Mais conheço
muitos que dizem ter
conhecido este ser"
Desconhecido
Cordel das Três Vozes e Um Brasil
Cordel do Lula Voz do Filho do Sertão
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Assim a série de dez cordéis termina.
Breve três edições especiais tão logo conclua
as pesquisas e assistas todos os vídeos
para prosear o que conta os fatos, e não que eu
acho que precisa ser dito.
São estes:
Quem é Rosângela da Silva "Janja"
Quem é Michelle de Paula Firmo Reinaldo "Michelle"
Política ou Político?