Durante o dia, caminho com os pés bem plantados no chão. Vejo pessoas apressadas, escuto ruídos de motores, portas se abrindo, vozes que se cruzam sem realmente se ouvir. Para muitos, isso é apenas rotina. Para mim, é mais intenso. Por causa da misofonia, uma condição neurossensorial que provoca reações fortes a determinados sons, alguns ruídos não são apenas incômodos, mas atravessam meu equilíbrio. Sons repetitivos, mastigações, estalos, barulhos inesperados podem causar irritação, ansiedade e um cansaço que não se explica facilmente. Ainda assim, estou ali, no meio de tudo.
É nesse mundo claro, visível e concreto que observo com atenção. Talvez por buscar abrigo no silêncio, aprendi a enxergar mais. Anoto mentalmente gestos simples, silêncios disfarçados, pequenas dores escondidas em sorrisos educados. Enquanto o som me desafia, a observação me sustenta. Transformo o excesso de ruído em atenção concentrada. Onde há barulho, procuro significado.
Durante o dia, sou Antonio Sales. Sou aquele que olha, guarda e atravessa o cotidiano como alguém recolhendo sementes no campo para plantá-las novamente e ver um novo ciclo nascer. Trabalho, estudo, vou ao cinema, leio muito, até livros ruins, apenas pelo fato de serem livros. Gosto de filmes, de desenhos. Nunca toquei profissionalmente, mas já participei criando bases para músicas e, de vez em quando, ainda arranho meu teclado. Como qualquer ser humano, tenho acertos e erros. Tenho dias bons e dias difíceis. E assim sigo, equilibrando minha necessidade de silêncio com a realidade sonora do mundo.
Viver assim é caminhar entre dois espaços que coexistem dentro de mim. Um é externo, cheio de movimento, compromissos e sons. O outro é interno, mais reservado, onde organizo pensamentos e encontro descanso. Não é o mundo que se divide; sou eu que aprendo a transitar entre essas dimensões.
Quando o sol se põe, algo muda. Não é uma transformação brusca, mas um retorno. A noite não apaga as coisas, ela revela. Os sons diminuem, a cidade desacelera, e o silêncio começa a ocupar o espaço que durante o dia foi tomado pelo ruído. Para alguém com misofonia (eu), essa mudança é quase terapêutica. O corpo relaxa. A mente respira.
É nesse momento que escrevo. À noite, não deixo de ser Antonio, mas me aproximo mais da minha essência silenciosa. A escuridão alonga os pensamentos, aprofunda as perguntas e dá espaço às memórias. Recolho o que vi durante o dia, os momentos de inspiração que o barulho não me deixa escrever no seu todo como o olhar perdido no ônibus, a conversa interrompida, a saudade que não era minha, mas que reconheci no outro, e transformo tudo em palavras. Algumas delas sou grato por vocês lerem.
Escrever se tornou um refúgio. Este espaço é meu santuário pessoal, onde os sentimentos se organizam e ganham forma. Cada verso é uma extensão do meu pensar. Aqui, o barulho não domina, ele é filtrado, compreendido e transformado. Este lugar não é apenas um espaço de escrita. É a passagem entre o mundo externo e o mundo interno que habito.
A música também ocupa um papel importante nessa travessia. Especialmente as românticas, que me transportam ao passado. Elas têm o poder de dobrar o tempo. Quando escuto certas canções, memórias voltam com força, momentos simples, encontros, despedidas, emoções que permanecem vivas. A música me conecta com aquilo que fui e com aquilo que ainda sou. Mesmo sensível aos sons, encontro na música escolhida com cuidado uma ponte segura para revisitar lembranças.
Quando não estou viajando pelo passado através da música, é nos desenhos que encontro outra forma de expressão. Eles me permitem criar algo concreto, uma imagem que represente ideias e emoções que nem sempre as palavras conseguem alcançar. Desenhar é silenciar o mundo por alguns instantes. É transformar sentimentos em traços. São pausas necessárias, como respirações entre um texto e outro.
Mas é na escrita que realmente me permito olhar para frente. Cada palavra é uma pequena ponte para o futuro. Durante o dia, observo o mundo como ele é. À noite, escrevo o mundo como ele poderia ser. Não penso em grandes promessas ou feitos extraordinários. Penso em pequenas possibilidades, as minhas, as suas, a possibilidade de paz, de compreensão, de silêncio interior em meio ao caos.
Andar entre esses dois mundos não é um dom extraordinário. É um exercício diário. Exige atenção durante o dia, para suportar o que me desafia. Exige coragem à noite, para transformar vivências em palavras. Não escrevo para explicar tudo. Escrevo para iluminar o suficiente, para que alguém reconheça algo de si mesmo nas linhas que deixo.
Quando amanhece, volto a ser apenas alguém caminhando entre pessoas, enfrentando sons, cumprindo tarefas. Mas levo comigo o que escrevi. E quando a noite retorna, encontro novamente esse espaço de quietude. Entre luz e sombra, entre ruído e silêncio, sigo escrevendo. Porque é nesse atravessar constante que reconheço quem sou.
Há quem viva no intervalo entre o espelho e a sombra, não sabe quem é, e treme diante de quem poderia se tornar. O medo não está no vazio, mas na revelação. Descobrir-se exige coragem para abandonar versões seguras de si mesmo.
A Sales
SEJAM TODOS BEM VINDOS