Gabinete Presidencial
O relógio de parede ressoou discretamente, marcando o início da noite em Paris. O gabinete presidencial permanecia em meia penumbra, iluminado apenas pelo brilho cálido do lustre central e por um abajur aceso sobre a escrivaninha de carvalho. Atrás da mesa, o Presidente Maurice Lemaitre observava os dossiês sobre a “Caixa de Paris”, recém-chegados de diversas agências de inteligência. Nada concreto, apenas suspeitas, códigos indecifráveis e uma crescente pressão da mídia nacional.
A porta dupla se abriu com a solenidade de um ritual. Cinco figuras atravessaram o salão em silêncio: os ministros da Defesa, do Interior, da Ciência e Tecnologia, da Justiça e das Relações Exteriores.
— Senhores, disse o presidente, com voz firme, estamos diante de um evento no mínimo curioso mais que já deixou dois mortos. A população está inquieta. Essa Tv sensacionalista ataca o governo. Quero propostas objetivas. E rápidas.
O Ministro da Defesa foi o primeiro a falar.
General Pierre Duchêne, homem de postura rígida e olhar de aço, avançou com seu dossiê de couro escuro.
— Senhor presidente, proponho o bloqueio total da praça em um raio de três quilômetros. Tropas de elite e drones de vigilância devem assumir o perímetro. Estaremos autorizados a evacuar prédios vizinhos e, se necessário, desativar a caixa por meios não convencionais. Acredito que se trata de tecnologia estrangeira. Talvez soviética. Sugiro ação imediata, antes que o objeto se torne uma ameaça real.
O presidente fez uma anotação breve. Gérard anotou algo em sua ficha e ergueu os olhos, atento à segurança tática. — Uma abordagem direta e segura, mas talvez precipitada.
Comentou o presidente, sem assumir posição. — Próximo.
Em seguida, levantou-se o Ministro do Interior, Claude Bresson. Seu terno bege contrastava com o ambiente escuro.
— Senhor presidente, o bloqueio militar apenas aumentará o pânico. Proponho infiltrar agentes disfarçados entre os civis, controlar a imprensa com comunicados vagos e impedir filmagens. Enquanto isso, nossa equipe de especialistas civis irá estudar a caixa no local. A chave aqui é: contenção psicológica. A cidade não pode colapsar por medo.
O presidente cruzou os braços, pensativo. — Controle da informação, então. Murmurou o presidente, mais para si. Gérard fez nova anotação, com o cenho franzido.
A próxima foi a Ministra da Ciência e Tecnologia, Dra. Éloïse Lambert. Jovem para o cargo, mas com fama de brilhante, aproximou-se com expressão determinada.
— Presidente Maurice, é evidente que a caixa não responde a nenhum padrão tecnológico conhecido. Não há mecanismos, sensores, nem entradas visíveis. Isso não é uma bomba. Proponho a construção de uma câmara selada ao redor dela, com monitoramento por instrumentos de ponta e análise espectral constante. Precisamos de tempo para decifrar o material e o propósito. Evitemos interpretações precipitadas.
O presidente a olhou longamente. Gérard ergueu uma sobrancelha pela primeira vez, então escreveu algo com destaque.
Como a senhora ministra sugeri que façamos esta câmara? Perguntou o presidente. Senhor. Já entrei em contato com uma empresa e é sim, senhor, possível faze-lo num prazo muito curto de tempo. O presidente agradeceu com um aceno enquanto chamava o próximo ministro. Gérard fitou a ministra como se visse até o momento a melhor proposta.
O Ministro da Justiça, Bertrand Vauclain, ajeitou os óculos enquanto caminhava até a frente. Seu tom era legalista, quase impessoal.
— Senhor presidente, estamos numa zona jurídica obscura. Se a caixa for uma mensagem, ou uma instalação simbólica, qualquer intervenção poderá ser classificada como violação de tratados internacionais, sobretudo se for obra de artistas ou ativistas. Meu plano é buscar cooperação com a Corte Europeia e abrir diálogo com os 27 consulados próximos ao local. A legalidade de nossos atos determinará nossa resposta global.
Gérard desta vez nem anotou. Apenas franziu os lábios, pensativo.
— Não me fale em tribunais, Bertrand, cortou o presidente. — Preciso de ação, não doutrina.
Por fim, o Ministro das Relações Exteriores, Jacques Mounier, aproximou-se, ajustando a gravata azul-marinho.
— Senhor presidente, meu plano é convocar uma coletiva internacional. Convidar especialistas da ONU, enviar uma delegação à embaixada soviética e estabelecer diálogo com Washington e Berlim. Se essa caixa for parte de algo maior, uma mensagem, um alerta, ou um teste, não podemos enfrentá-la sozinhos. A França deve liderar a resposta diplomática, não a esconder.
O silêncio tomou a sala.
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