A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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A Caixa de Paris 7

 

  Gabinete Presidencial,

 

  A porta do gabinete presidencial se abriu com a leve batida de unhas esmaltadas contra o latão da maçaneta. — Senhor presidente, o senhor Gérard Valroux. Anunciou Madeleine, com sua voz suave e controlada, típica de quem passou décadas entre telefonemas e homens poderosos. Usava seus cabelos presos num rabo de cavalo baixo e alinhado, e o som de seus saltos sumiu logo ao fechar a porta.

 

  Gérard entrou com uma postura sóbria, trajando um terno escuro, impecável. Seus cabelos grisalhos estavam penteados para trás, os olhos atentos varreram a sala com familiaridade. — Senhor presidente, quanto tempo não nos vemos. Disse ele com um leve sorriso nostálgico, ao estender a mão.

 

  O presidente Maurice Lemaitre se levantou de trás da mesa. O rosto, vincado pelo tempo e decisões difíceis, se suavizou por um momento. Ambos trocaram um aperto de mãos firme, marcado por lembranças mistas.

 

  — Sente-se, Gérard. Disse Maurice Lemaitre, apontando para uma das poltronas estofadas em couro junto à mesa de reuniões.

 

  Enquanto caminhava até o bar embutido em uma estante de carvalho, o presidente retirou uma garrafa de Armagnac Hors d'Âge e duas taças de cristal. Serviu lentamente, com a precisão de um ritual silencioso. O perfume adocicado da bebida preencheu o ambiente.

 

  — Gérard, sei que no passado fui injusto com você... e com o BCIS. Não peço que compreenda. Disse o presidente, a voz embargada por um peso antigo.

 

  Gérard o interrompeu, com firmeza, mas sem hostilidade:

 

  — Senhor presidente, como Senador, o senhor fez o que acreditava ser certo.

 

  — Acreditei, sim, mas no fundo, só fui mais um político. Tomei decisões para agradar à opinião pública. E ao custo disso, dissolvi a única agência capaz de lidar com situações como a que temos agora. Lamentou Maurice Lemaitre, voltando à sua cadeira com um copo na mão.

 

  — Aquele tempo passou. Hoje o senhor é a autoridade máxima deste país. Disse Gérard, tentando manter o profissionalismo, embora seus olhos refletissem mágoas contidas.

 

  — Sim, Gérard. Eu sou. Respondeu o presidente secamente, e lhe entregou um envelope lacrado. — Mas não o abra ainda.

 

  — Peço que fique. Em minutos, cinco dos meus ministros estarão aqui para uma reunião de crise sobre a tal caixa da Place du Palais-Royal.

 

  — Claro, senhor. Eu estava acompanhando a cobertura quando recebi a ligação de sua conselheira. Disse Gérard, contendo algo que visivelmente queria dizer, mas guardou para depois.

 

  — Esse é o segundo motivo de eu ter te chamado. Completou o presidente, olhando o relógio.

 

  No instante seguinte, a porta dupla do gabinete se abriu. No instante seguinte, a porta dupla do gabinete se abriu. Entraram os ministros da Defesa, Interior, Ciência e Tecnologia, Justiça e Relações Exteriores. Todos com pastas em mãos, semblantes tensos e gravatas afrouxadas. Gérard foi convidado a sentar-se à esquerda do presidente, em posição de destaque, mas com clara distinção do círculo oficial.

 

  A Senhorita Bernier da datilografia, ainda com dedos sujos de fita carbono e papel vegetal ao lado da Remington eletrônica, fechou a porta e saiu em silêncio, deixando a reunião selada em confidencialidade.

 

  Place du Palais-Royal – 20h00

 

  Os postes de luz começavam a brilhar com uma tonalidade âmbar, iluminando a névoa leve que se misturava ao fim de um dia abafado. A praça estava cheia, mas a multidão parecia exausta, contida apenas pelo esforço hercúleo da Brigada Criminelle.

 

  Entre cordões de isolamento improvisados, três agentes especializados da DGSI se aproximavam cautelosamente do objeto lançado pela caixa. Usavam trajes de proteção aluminizados, luvas triplas e máscaras com visor polarizado. Um deles carregava um braço mecânico portátil; outro, um medidor de radiação acoplado a um analisador químico.

 

  — Tome cuidado, capitão. Alertou o comandante Alain Berthier, condecorado veterano da DGSI.

 

  — Não sabemos o que mais essa caixa pode fazer.

 

 

  Um agente novato murmurou, tentando aliviar a tensão:

 

  — Talvez ela toque uma música, senhor...

 

  O comandante congelou e virou-se com raiva contida.

 

  — Qual seu nome, agente?

 

  — É... é... gaguejou o jovem.

 

  Berthier se aproximou, segurando-o pela gola do traje.

 

  — Se quer fazer piada, está no lugar errado. Aqui, vidas estão em risco. Siga o protocolo e cale a boca. Estamos entendidos?

 

  — S-sim, senhor! Respondeu o rapaz, engolindo seco.

 

  Berthier deu um passo atrás e estendeu a mão para a agente ao seu lado.

 

  — Viguier, me passe o espectrômetro.

 

  A agente Camille Viguier, com olhar fixo na caixa, obedeceu. Mas antes de entregá-lo, apontou com o queixo:

 

  — Senhor... veja.

 

  Todos pararam. A caixa começava a emitir uma fumaça branca, densa, diferente da roxa liberada horas antes. O som era sutil, como vapor saindo de uma chaleira.

 

  — Recuem dois metros. Ordenou Berthier imediatamente, erguendo o braço.

 

  Do objeto no chão ali próximo a caixa, uma pequena portinha se abriu, revelando umas luzes piscantes. Um cronômetro. Os dígitos vermelhos começaram a brilhar contra a bruma branca da fumava que subia da caixa.

 

  00:02

 

Um som agudo. Clic.

 

A contagem regressiva começou.

 

No bar Le Vieux Zinc, 11º arrondissement – 20h01

 

  O bar de bairro, com azulejos lascados nas paredes e uma jukebox desligada no canto, estava cheio de vozes que misturavam vinho barato e nervosismo. Atrás do balcão, o garçom Gabriel Thibault puxava cigarros Gauloises enquanto olhava a TV Philips no alto da parede.

 

  Quando a câmera da TF1 focou no cronômetro aceso, todos emudeceram. Uma mulher deixou cair a taça, estilhaçando o silêncio. A lente mostrava os dois minutos pulsando em vermelho contra o metal enigmático do objeto ali no chão próximo a caixa.

 

  Do lado de fora, a noite em Paris deixava de ser apenas misteriosa. Tornava-se algo infinitamente mais perigoso.

 

  Delacroix Industrie Chimique – Subnível Técnico

 

  Num dos corredores de acesso restrito, iluminado por lâmpadas fluorescentes que tremeluziram uma vez, um funcionário de camisa social amarrotada discou um número internacional em um telefone com cifragem.

 

  — Tudo certo. O acordo com o governo foi fechado. Ligo assim que o carregamento estiver pronto para sair. Horário e rota serão confirmados.

 

  Ele desligou. Mas sua expressão era tudo, menos tranquilidade.

 

  No reflexo da janela, sua própria silhueta parecia lhe observar de volta, com um misto de dúvida e medo.

 

Capítulo 6 - 7 - Capítulo 8

 

 

 

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Enviado por A Sales em 19/10/2025
Alterado em 20/10/2025
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Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

Há palavras que nunca foram ditas,
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Este livro é um mergulho no espaço entre as vozes,
nas pausas, nos gestos interrompidos,
e nas emoções que o silêncio guarda.