Sede do Governo, Salão Ministerial
O presidente repousou o telefone sobre a base com um leve estalo e cruzou as mãos à frente do corpo, satisfeito. O brilho discreto em seu olhar não passou despercebido pelos presentes. De pé à cabeceira da longa mesa de madeira escura, ele observava seus ministros, que já ocupavam seus lugares, e então falou com a firmeza costumeira:
— Muito bem, estão todos aqui.
Uma jovem de óculos redondos e armação metálica, vestida com uma saia abaixo dos joelhos e um suéter vinho, começou a datilografar com agilidade numa máquina Olivetti Lettera 32, posicionada à ponta da mesa. O som das teclas preenchia os intervalos entre os silêncios formais.
— Acredito que todos já sabem o motivo desta reunião. Prosseguiu o presidente. — Então não percamos mais tempo. Já são seis horas da tarde e até agora a imprensa de toda Paris... — De toda a França, senhor. Corrigiu o vice-presidente, ajeitando o paletó.
— Sim... Confirmou o presidente com um leve aceno. — E principalmente essa imprensa que nos faz oposição em tudo. Essa tal de “TF1” vem nos criticando desde que essa caixa apareceu na praça.
O ambiente era imponente, lustres de cristal pendiam sobre a mesa ovalada, e cortinas bordô cobriam parte das janelas altas voltadas para os jardins internos do Palácio do Eliseu. Um quadro de Charles de Gaulle parecia observar a cena de cima, impassível. Os cinco ministros, Do Interior. Da Defesa, Das Relações Exteriores, Da Justiça, Da Ciência e Tecnologia. Ouviam atentos. À esquerda, a secretária de taquigrafia alternava entre o papel e o som grave das teclas.
— Quero um plano de ação claro e executável sobre minha mesa até oito horas. Concluiu o presidente com a voz carregada de decisão.
Imediatamente, os ministros recolheram seus documentos e saíram rumo aos respectivos gabinetes.
O presidente esticou a mão até o telefone preto com fio espiralado e discou calmamente. — Madeleine, Peça que entre Gérard Valroux, por favor. Disse ele antes de pousar o fone no gancho. — Senhorita Bernier nos deixe a sós.
A jovem assentiu em silêncio, recolheu os papéis da máquina e deixou a sala sem levantar os olhos.
Delacroix Industrie Chimique
Enquanto confirmava por telefone que o filho estava bem, Henri Delacroix retornava à reunião com seus executivos, no luxuoso décimo andar do edifício da Delacroix Industrie Chimique, uma das maiores fornecedoras de tecnologia militar e química da França.
— Então está tudo certo. O presidente parecia genuinamente satisfeito com nossa proposta. Disse Henri, sorrindo ao remover a rolha de um Champagne Dom Pérignon Vintage 1975, recém-trazido de Reims.
— Antes de desligar, chegou até a me convidar para uma partida de polo no Bois de Boulogne no próximo sábado. Comentou com ar de vitória.
— Agora, senhores, preparem tudo para a entrega. Acrescentou, levantando a taça com um gesto sutil.
A conversa girava em torno de um novo contrato com o governo envolvendo compostos defensivos para uso em guerras biológicas, algo que colocaria a Delacroix no centro da segurança nacional nas próximas décadas.
A sala era decorada com tapeçarias clássicas, estantes de madeira de lei e um globo terrestre com mapas antigos. Três homens de terno e uma mulher de trança lateral embutida, sua assistente pessoal, tomavam nota enquanto Henri brindava, de costas para a vista dourada de Paris ao entardecer.
Place du Palais-Royal – 18h55
O céu começava a ganhar tons de chumbo. Um vento morno soprava pelas árvores alinhadas da praça, onde os bancos de ferro permaneciam praticamente vazios. As lojas ao redor já haviam fechado, mas um aglomerado de curiosos ainda resistia atrás das grades improvisadas, mantidos à distância por agentes da Brigada Criminelle, que organizavam a contenção com fardas escuras e boinas.
A caixa, imóvel ao centro da praça desde a manhã, mantinha-se silenciosa, embora agora envolta por marcas no chão e um leve traço de fuligem roxa, já desvanecida.
— Exatamente quinze para as sete da noite. Dizia Thierry Moreau, repórter da TF1, em transmissão ao vivo. — E apenas por volta das duas da tarde os corpos dos dois jovens foram removidos.
O repórter checou suas anotações e continuou:
— Como foi mostrado por Marchal, nosso correspondente, no momento exato em que aquele objeto foi expelido pela caixa, ele aponta, também cessou a fumaça violeta que a envolvia desde cedo.
O cinegrafista ajustou o foco no objeto retangular, quase metálico, que permanecia sobre o calçamento.
Nesse instante, a câmera capturou uma movimentação súbita.
— Acompanhem comigo... Três agentes se aproximam da caixa neste momento. Eles estão portando trajes anti-radiação, além de maletas seladas. Provavelmente equipamentos da Direction Générale de la Sécurité Intérieure (DGSI), especializados nesse tipo de contenção. Thierry ajustou a gravata, percebendo a tensão do momento, e anunciou o retorno ao estúdio, justamente quando os agentes começavam a cercar o artefato.
Bar Le Vieux Zinc, 11º arrondissement
Enquanto Paris prendia a respiração, no número 102 da Rue de la Roquette, o bar Le Vieux Zinc mantinha sua habitual clientela indiferente à histeria televisiva.
Era um lugar de azulejos bege manchados pelo tempo, balcão de zinco, e bancos fixos de madeira. O cheiro de cigarro pairava no ar. Um rádio tocava Serge Gainsbourg suavemente, enquanto a pequena televisão no canto do bar, apoiada sobre uma pilha de revistas, transmitia as notícias da TF1.
Poucos prestavam atenção.
Um velho jogador de dominó sorriu ao ver a imagem da caixa na tela e disse ao parceiro:
— Mais uma dessas histórias pra assustar os trouxas...
Na mesa ao fundo, uma jovem com boina preta e sobretudo observava tudo em silêncio, as mãos segurando um copo de absinto já diluído. Os olhos, porém, fixos na TV.
Lá fora, a noite de Paris se assentava entre luzes amarelas e murmúrios contidos.
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