A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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A Caixa de Paris 4

 

A vinheta sonora da TF1 se começa com a imagem ao vivo da Place du Palais-Royal. A câmera aberta mostra a praça parcialmente isolada por grades móveis e cercada por uma multidão contida apenas por fitas amarelas da polícia. O céu está fechado, com nuvens espessas de outono. A fumaça roxa, que pela manhã surpreendeu os franceses, parece agora adormecida.

 

A voz firme de Étienne Marchal, o principal repórter de rua da emissora, entra no ar direto do local:

 

— Ao vivo agora com vocês para entendermos, ou tentarmos entender, tudo o que envolve essa misteriosa caixa colocada no coração de Paris. O que ela representa? Quem a colocou aqui? E mais importante: as autoridades realmente não sabem do que se trata ou preferem, como em 1970, no caso dos monges mortos no Musée de Cluny, manter tudo em silêncio, esperando que a poeira baixe?

 

Do estúdio, o âncora Arnaud Vallois, de gravata vinho e óculos finos, interrompe:

 

— Marchal, além da Brigade Criminelle, que podemos ver nas imagens aí atrás de você, há alguma outra força no local, alguma unidade especializada que possa explicar ou ao menos iniciar uma linha real de investigação sobre essas mortes?

 

Marchal faz menção de responder, mas algo no fundo da imagem começa a mudar. A multidão próxima ao cordão de isolamento começa a gritar. Uma agitação nervosa se espalha entre os curiosos. O cinegrafista balança a câmera ao tentar ajustar o foco.

 

— Atenção! Está acontecendo de novo... Está acontecendo de novo! A caixa... a caixa voltou a emitir a mesma fumaça roxa, fina, que vimos nas primeiras horas desta manhã.

 

A imagem aproxima-se da caixa, agora cercada novamente por aquela névoa púrpura e cintilante. Algumas pessoas correm para trás, outras simplesmente congelam. Policiais da Brigada Criminelle erguem os braços e tentam conter a multidão, gritando para recuarem.

 

— Senhores e senhoras, há pânico aqui na praça. Muitos correm sem saber o que está acontecendo. A fumaça não tem cheiro, mas parece ondular como se tivesse vida. Alguns oficiais estão com máscaras improvisadas, outros mantêm distância, tentando conter os populares. Reforços ainda não chegaram. O clima aqui é de inquietação total.

 

Sede do Governo, Hôtel de Matignon – 12h07

 

Na elegante sede do Primeiro-Ministro, o Hôtel de Matignon, construído no século XVIII, o ambiente era qualquer coisa, menos protocolar. Tapetes vermelhos, cortinas pesadas, móveis em carvalho e bronze. Os corredores, geralmente silenciosos, estavam agora cheios de passos apressados. Um auxiliar informava em voz alta: “Ordre présidentiel, réunion d’urgence immédiate.

 

Do outro lado de uma sala reservada, o Presidente Maurice Lemaitre, homem rígido, de cabelos brancos e bigode fino, disca diretamente do telefone com fio marrom, instalado sobre sua mesa de carvalho antigo. Seu rosto exibia cansaço, mas também irritação contida.

 

— Fabienne, preciso que encontre o comandante Gérard Valroux, último diretor do extinto BCIS. Diga que que peço que venha com a máxima urgência até mim.

 

Fabienne Lacroix, sua conselheira de segurança nacional, entra na sala já segurando uma pasta preta. Era uma mulher em torno dos 50 anos, cabelos presos num rabo de cavalo baixo e alinhado, vestida com sobriedade em um tailleur cinza escuro. Tinha olhos frios e postura militar.

 

— Monsieur le Président... compreendo.

 

Os cinco gabinetes mobilizados para a reunião eram:

 

Ministério do Interior. Responsável pela segurança pública, polícia e administração territorial.

Ministério da Defesa. Cuida das Forças Armadas e de questões militares e estratégicas.

Ministério das Relações Exteriores. Lida com diplomacia, embaixadas e política internacional.

Ministério da Justiça. Supervisiona tribunais, promotorias e a legislação.

Ministério da Ciência e Tecnologia. Trata de pesquisas científicas, inovação, armas tecnológicas e políticas de desenvolvimento tecnológico.

 

De volta à Place du Palais-Royal – 12h14

 

Marchal está novamente em foco. A fumaça persiste ao redor da caixa, embora sem se espalhar como antes. Os dois corpos continuam estendidos no chão, agora cobertos por lençóis brancos. Apenas os pés de Julie Bertrand, , com um sapato virado, estão visíveis.

 

— A Brigada consegue, mais uma vez, conter a multidão. Apesar do pânico, muitos ainda insistem em permanecer próximos, como se esperassem por algum tipo de revelação. Permanecem ali, mesmo sem compreenderem o que está diante de nós. Dois jovens mortos, uma caixa desconhecida, uma fumaça que desafia explicações. O cinegrafista se vira bruscamente para a direita, seguindo a instrução de Marchal:

 

— Mostre, Laurent! Isso. Olhem ali, finalmente deixaram de apagar fogueiras e vieram para ajudar.

Um caminhão vermelho da Sapeurs-Pompiers de Paris chega, com quatro bombeiros descendo rapidamente, usando roupas protetoras e carregando maletas de contenção de riscos químicos.

 

— Você perguntava, Arnaud Vallois, se havia outra força além da Brigada Criminelle. Pois veja com seus próprios olhos. Além da Brigada, temos agora apenas os bombeiros de Paris, nenhum outro departamento especializado, nenhuma presença do exército, nenhum perito em simbologia ou materiais históricos.

 

O repórter respira fundo e conclui:

 

— Fontes extraoficiais dentro do Hôtel de Matignon informam que o presidente convocou uma reunião de emergência. Mas... se tratando desse governo atual, e digo isso com todo respeito jornalístico, não podemos ter certeza se algo realmente será feito. Retorno com você no estúdio.

 

No estúdio da TF1 – 12h17

 

Arnaud Vallois ajusta seus papéis e olha diretamente para a câmera.

 

— Marchal ao vivo direto da Place du Palais-Royal. Agradecemos suas informações. Em instantes, mais imagens ao vivo. E enquanto o franco oscila e se desvaloriza frente ao dólar, com a cotação chegando a 6,4 francos por dólar, a pergunta permanece: o que é essa caixa?

 

Em toda Paris, rádios e televisores mantêm-se sintonizados nos acontecimentos. No programa matinal da rádio AM “Voix Matinale”, da Radio Parisienne, o locutor Jean-Paul Mireille recebia dezenas de ligações ao vivo.

 

— Eu avisei, senhor Jean-Paul! Eu vi luzes no céu na semana passada! Ninguém acredita, mas são os ETs!” Disse uma ouvinte exaltada.

 

— C’est la fin du monde... foi profetizado. Está nas escrituras!” Afirmou outra com voz embargada.

Jean-Paul respondia com calma e humor:

 

— Queridos ouvintes, estamos todos atentos. Mas vamos respirar, manter a razão e continuar acompanhando os fatos... vocês sabem que todas as manhãs estou aqui com vocês, nas ondas da Radio Parisienne AM 909, com o seu companheiro de sempre: Jean-Paul Mireille, em ‘Café & Curiosités’.”

 

Num bar do 11º arrondissement – 12h25

 

No bairro operário do 11º, no pequeno bar Le Vieux Zinc, decorado com toalhas xadrez e pôsteres desbotados de filmes de Jean-Paul Belmondo, o ambiente era uma mistura de desinteresse e tensão. Uma antiga televisão Thomson black & white exibia as imagens da praça. O som estava baixo, mas os olhos de alguns clientes estavam grudados na tela.

 

— Bah... mais une histoire pour faire peur,” disse um homem bebendo pastis.

 

— Olha a fumaça de novo... isso aí não é normal, respondeu outro, com o jornal ainda nas mãos, como se procurasse uma explicação nos horóscopos.

 

A imagem da TF1 mostrava agora um plano aberto, com a lente focando na caixa que ainda soltava fumaça. O símbolo da estrela de cinco pontas brilhava tenuemente sob a luz natural da tarde que se anunciava sobre Paris.

 

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Enviado por A Sales em 17/10/2025
Alterado em 18/10/2025
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