23 de julho de 2025
O amanhecer no campo tem sua própria liturgia, ainda mais depois de uma noite de chuva branda. O vento trazia o cheiro fresco da terra molhada, aquele aroma adocicado de agreste que nenhum perfume da cidade consegue imitar. O chão, ainda úmido, brilhava em pequenos reflexos da claridade que atravessava o céu encoberto, como se cada gota deixada pela chuva guardasse um pedaço da manhã. Ou de uma noticia que não deveria ser dada.
O canto dos galos se misturava ao arrulho das rolinhas. Das copas das árvores ainda pingavam pequenas gotas, caindo no terreiro em compassos lentos, como se o tempo também tivesse desacelerado. O ar estava frio, suave, e ao respirar parecia que a alma se lavava junto.
O campo, em dias assim, parecia feito para a contemplação. A bruma fina subia dos pastos, escondendo e revelando aos poucos as cercas e os troncos velhos, até que o sol, tímido, tentava abrir passagem entre as nuvens. Era uma pintura viva, moldada pela mão invisível de Deus.
Na cidade, em um dia chuvoso, a pressa cobre tudo. O trânsito engarrafa, buzinas soam, e as pessoas, com guarda-chuvas apressados, correm para se proteger daquilo que aqui, no campo, é bênção. Lá, a chuva é incômoda, aqui, é vida, fartura, promessa de verde.
Também é presságio e aviso de que o que dar também pode tirar.
O entardecer no curral
O dia correu sereno, embalado pelo cheiro úmido do mato e pelo ritmo manso da vida no campo. E quando a tarde começou a cair, veio uma das cenas mais belas que os olhos podem guardar. O gado voltando do pasto.
De longe, via-se a poeira leve se levantando, misturada ao ar frio do fim da tarde. As vacas vinham em fila, caminhando vagarosas, algumas mugindo baixinho, como se conversassem entre si. Os bezerros corriam de um lado para outro, brincando, até se aproximarem do curral. O sol, enfim, rompia as nuvens e lançava uma luz dourada, que se espalhava sobre o campo úmido, refletindo nas poças d’água, colorindo de cobre e laranja cada folha de capim.
No curral, o ranger do portão de madeira se misturava ao som dos cascos batendo no chão encharcado. Era o campo em sua plenitude, mostrando que até o trabalho mais duro guarda poesia. Ou esconde um enredo tenebroso.
Na cidade, o entardecer é feito de prédios que engolem o sol e ruas que não descansam. A luz se perde em semáforos, fachadas e vidros de carros. Aqui, não. Aqui, o sol se despe diante de todos, sem pressa, e o campo se veste de ouro para marcar o fim do dia. Ou para anunciar um novo momento que ninguém gostaria de vive-lo.
A volta e o silêncio
Quando a tardezinha chegou, ouvi os primeiros sons na estrada: vozes, passos, o ranger da porteira. Vieram vó, Pedro, Jonas e Matheus. A alegria do reencontro que tantas vezes me aqueceu parecia menor agora, abafada por um peso que pairava no ar.
Olhei um por um, e percebi que Tião não vinha. Meu coração apertou. Bastou esse detalhe, somado ao semblante abatido de cada um, para que a esperança vacilasse.
Vó, sempre tão forte, vinha apoiada no braço de Pedro. Seus olhos estavam vermelhos, o rosto cansado. Pedro a levou direto para o quarto, ajudando-a a se deitar. Jonas e Matheus ficaram em silêncio, como se as palavras não coubessem naquela hora.
Eu respeitei o silêncio. O campo ensina isso também: há momentos em que não se fala, apenas se sente.
Depois de deixar vó descansando, Pedro voltou até a varanda, onde eu estava sentado, olhando para o horizonte que ainda guardava os últimos fios de luz. O vento da noite começava a soprar, trazendo consigo o frescor da terra que, horas antes, mais precisamente pela manhã, havia recebido chuva.
Ele se sentou ao meu lado, demorou alguns segundos respirando fundo e, com voz grave e baixa, me falou:
— Ele não está nada bem.
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