Corvo do Silêncio
"Onde o mundo grita, o Corvo do Silêncio escreve, e no som das palavras, a alma desperta."
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Textos

Dia – 24 – Cheiro De Terra Molhada

O Silêncio da Varanda Quando Até o Campo Segura a Respiração

 

Dia 24 de julho de 2025

Aqui na fazenda de Pedro, conhecida por todos como Três Tombos Só, é comum amanhecer o dia ouvindo músicas antigas. Vó sempre diz que elas trazem sorte e fazem o dia começar mais feliz. Pode até ser que exista verdade nesse mito do campo, e hoje, confesso, não tenho dúvida, porque parece que só a música tem coragem de quebrar o silêncio que paira sobre nós.

 

Estou na varanda, sentado na cadeira de madeira gasta pelo tempo, olhando para o sol que anuncia a transição do final do inverno para o início do verão. O céu ainda guarda traços do frio, com nuvens brancas que se arrastam preguiçosas, mas o calor já desponta firme, riscando o horizonte com tons dourados. O vento sopra mais quente, trazendo o cheiro da terra ainda úmida da chuva da noite anterior.

 

Na sala, atrás de onde estou, o rádio soa uma voz que parece vir do passado. Toca Zezé Di Camargo e Luciano, na minha opinião, numa das melhores fases deles, quando cantavam com o coração, a primeira versão do álbum de 1996. A música preenche os espaços vazios da casa e a letra diz assim:

 

“Qualquer palavra nessa hora pode tornar-se um pesadelo, qualquer deslize que aconteça...”

A canção parece falar do que não ousamos dizer. O silêncio aqui reina, não porque faltem histórias, mas porque todos evitam falar sobre Tião. Talvez por medo daquilo que não se sabe, talvez pela dor de não poder fazer nada para ajudá-lo. Talvez apenas por respeito. Hoje, pouco importa o motivo: o silêncio é o que resta.

 

A única criatura que parece ignorar essa dor é o bode Chico. Daqui mesmo consigo vê-lo aprontando mais uma das suas, dessa vez tenta tirar o porco do galinheiro. É como se Chico realmente acreditasse ser uma galinha, se não está na sombra da mangueira, está dentro do galinheiro, disputando espaço com o porco, que adora o lugar pela lama fresca acumulada da chuva. E assim segue Chico, indiferente aos dramas humanos, lembrando-nos que a vida insiste em ser vida.

 

Espero Jonas. Apesar do braço ainda machucado, ele nunca perde o ânimo para o trabalho. Íamos para o terreno onde antes pensava se plantar uvas, mas o plano mudou, agora será milho-verde, mais prático para o início do verão, rápido de crescer e útil para todos na fazenda.

 

— Mano. Chamou Marina, surgindo na varanda com uma garrafa de café e uns pedaços de bolo ainda quentes. — Pra você e Jonas. Disse, mas sua voz carregava uma tristeza que não combinava com o cheiro doce que vinha da bandeja.

 

Era nítida a falta que Tião fazia. Se as vacas mugiram, eu não escutei. Até Pé de Cedro, o cavalo de Tião, parecia perdido. Ele tinha o costume de vir cedo bater o casco no assoalho da varanda, acordando Tião de propósito. Tião ria e dizia:

 

— Morar no campo e dormir num quarto chique não é viver o campo. E por isso, apesar de ter um quarto confortável, ele preferia dormir na varanda, ouvindo o vento e sentindo o cheiro da madrugada. Para mim, esse costume acabou virando também meu relógio de acordar. Hoje, porém, o Pé de Cedro não veio. Nem o som de Tião se levantando cedo para lidar com as vacas. E isso doeu.

 

Vó continua deitada, abatida. A preocupação maior de Marina é com a saúde dela. Tanto que já mandou chamar Maria, que mora na cidade, para vir ajudar. Matheus e o irmão gêmeo de vó estão agora no curral, separando o gado que será vacinado.

 

E eu sigo aqui, preso nesse silêncio que grita mais do que qualquer palavra ou tentativa de pronuncia-la. Dona Loudes está ao lado da cama de vó, quieta, segurando suas mãos. Não há o que dizer. Às vezes o silêncio é também uma forma de amor.

 

Finalizo este dia acreditando, como vó sempre disse, que a música pode trazer sorte. Quem sabe, junto dela, venham também as notícias que tanto esperamos sobre Tião quando Pedro chegar à noite.

 

Me dói ver Dona Loudes em silêncio, como se carregasse dentro dela algo que só Tião poderia ouvir. Mas acredito que o campo guarda seus mistérios e, quando menos esperamos, ele nos devolve aquilo que achamos perdido.

 

E, como Tião mesmo gostava de dizer, repetindo sempre em suas prosas de viola:

 

“Quem acredita no mistério do campo, nunca se perde, porque a sorte mora escondida na fé de quem espera.”

 

Capítulo – 23 – 24 – Capítulo 25

 

Corvo do Silêncio
Enviado por Corvo do Silêncio em 24/08/2025
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