
O Conde Morcego e a Condessa A Morcega permaneciam lado a lado na ampla sacada do Castelo de Erivas. Dali contemplavam os bosques escurecidos pela noite, enquanto a lua derramava sua luz sobre os caminhos de pedra que serpenteavam até os portões da fortaleza. O vento frio fazia dançar as bandeiras da Casa de Erivas, e as chamas das tochas tremeluziam ao longo das muralhas.
O silêncio foi interrompido por passos discretos.
— Senhor... Senhora Condessa... Anunciou a criada de confiança e governanta da casa, Dona Anna de Alencastre, fazendo uma reverência. — As vossas vestes acabam de chegar à residência senhorial. Devo ir buscá-las para Vossa Senhoria?
— Não. Respondeu prontamente o Conde Morcego.
A Condessa voltou-se para ele com expressão de surpresa.
— Sim. Você, Dona Beatriz, pode ir buscá-las...
Antes mesmo que pudesse concluir a ordem, o Conde tornou a falar com firmeza, embora sem perder a serenidade.
— Dona Beatriz, prepare nossa carruagem. Nós mesmos iremos para casa e retornaremos a tempo de receber a convidada de honra.
A governanta permaneceu imóvel durante um breve instante. Seus olhos alternavam discretamente entre os dois senhores, receosa de contrariar qualquer um deles. Acostumada aos caprichos da Condessa, mas conhecendo igualmente a autoridade tranquila do Conde, limitou-se a inclinar a cabeça.
— Como ordenais, meu senhor.
Enquanto desciam lentamente pela escadaria principal do castelo, a Condessa aproximou-se da governanta.
— Dona Beatriz... você tem certeza de que ela não sabe de absolutamente nada?
— Sim, Senhora. Tudo foi exatamente como me ordenastes. Fiz e disse somente aquilo que Vossa Senhoria determinou.
A Condessa sorriu discretamente.
— Muito bem.
Então voltou-se para o marido.
— E então, meu nobre Conde, iremos para casa. Preciso ver como estão os pequeninos.
O Conde respondeu envolvendo-a num afetuoso abraço.
— Eles certamente já aguardam por nós.
Os dois seguiram pelo grande pátio interno, acompanhados de perto por Dona Beatriz. Criados cruzavam apressados levando tapeçarias, barris de vinho, candelabros de bronze e enormes cestos de frutas destinados ao banquete.
Foi então que a voz firme da Condessa soou por todo o pátio do salão.
— Aonde pensa que vai com essas cestas?
Um jovem serviçal estacou imediatamente. Tremendo, percebeu que caminhava justamente para o lado oposto da cozinha principal.
— Eu... eu...
A Condessa cruzou lentamente os braços.
— Você servirá para saciar minha cota de sangue hoje. Tragam-no até mim!
O pobre homem empalideceu de tal maneira que parecia prestes a desmaiar. O cesto escapou-lhe das mãos, espalhando maçãs, peras e uvas pelo chão de pedra. Alguns criados arregalaram os olhos e, sem trocar palavra alguma, aceleraram ainda mais seus afazeres, desaparecendo pelos corredores laterais como se desejassem tornar-se invisíveis.
Durante alguns segundos, reinou absoluto silêncio.
Então o Conde Morcego levou uma das mãos ao peito e explodiu numa gargalhada tão espontânea que mal conseguia permanecer de pé. Seu riso soou pelas muralhas do castelo.
Ao ver a cena, Dona Beatriz não conseguiu conter-se e também começou a rir, cobrindo a boca com as mãos para manter a compostura.
Ainda trêmulo, o serviçal permanecia imóvel, convencido de que aquele seria seu último dia.
Foi a governanta quem, recuperando o fôlego, aproximou-se dele.
— Ande, homem... leve essas cestas por ali. Hoje a Condessa terá muito mais sangue... digo... muito mais baile à sua disposição.
O homem recolheu rapidamente as frutas espalhadas e desapareceu quase correndo, sob o olhar divertido de todos que ainda ousavam permanecer por perto.
O Conde enxugou discretamente uma lágrima provocada pelo excesso de riso.
— Eles realmente acreditam que você bebe sangue.
A Condessa abriu um sorriso satisfeito.
— E eu adoro isso.
Pouco depois, os três embarcaram na elegante carruagem negra ornamentada com o brasão do morcego alado, enquanto os cocheiros conduziam os cavalos pelos caminhos iluminados apenas pelas lanternas presas aos varais.
Muito distante dali outro convidado preparava-se para a memorável noite.
Ele permanecia diante do armário de chapéus de sua residência, um robusto móvel de nogueira conhecido como guarda-chapéus senhorial, onde repousavam cartolas, chapéus emplumados, barretes de veludo e elegantes peças vindas de diversos reinos.
Jamais uma escolha lhe parecera tão difícil.
Afinal, não era qualquer pessoa que seria homenageada no baile do Castelo de Erivas pela Condessa A Morcega.
"Essa mulher sabe como dar uma festa... Impressionar é exatamente o que devo fazer", pensava enquanto observava as peças cuidadosamente alinhadas.
— Aquele, meu senhor.
A voz feminina surgiu atrás dele.
Ao voltar-se, encontrou sua fiel camareira apontando para um magnífico chapéu de feltro negro, adornado por uma longa pluma prateada que descrevia uma elegante curva semelhante à asa aberta de um morcego em pleno voo. Na base da copa havia um delicado bordado em fios de prata formando discretas luas crescentes, numa homenagem refinada à senhora da celebração.
Como num passe de mágica, toda dúvida desapareceu.
— O que seria de mim sem seu olhar atento?
A mulher sorriu e aproximou-se trazendo outra peça cuidadosamente dobrada.
— E, para completar, o senhor usará esta indumentária.
Entregou-lhe uma fantasia confeccionada em veludo negro e vinho, ricamente bordada com fios dourados, acompanhada por uma longa capa de cetim forrada em seda escarlate, destinada a tornar sua presença inesquecível entre os nobres convidados.
Enquanto isso, o Marquês A Sales caminhava lentamente por sua biblioteca, acompanhado de seu fiel mordomo, Dom Lourenço de Vilar.
O velho criado, incapaz de conter sua curiosidade, finalmente perguntou:
— Senhor Marquês... eu realmente não compreendo como Vossa Senhoria conseguiu convencer a todos, inclusive a homenageada do baile, a Rainha Erivas, a Guardiã, a transformar tudo aquilo que a Condessa A Morcega já havia preparado e alterar completamente toda a ornamentação da casa.
Continua...
