Antes quero apenas mencionar que está história tem como única finalidade homenagear aos citados e a aniversariante, nada além.
Conheça o Castelo de Erivas e sejam bem vindos a este mundo criado pela poetisa A Morcega.

No coração de Portugal do século XVI, entre vales cobertos por pinhais, colinas de pedra e vinhedos adormecidos pelo inverno, erguia-se uma terra onde o silêncio da noite parecia guardar Lembranças antigas e segredos que seus mestres jamais poderia saber.
Era uma noite bela. As estrelas cintilavam como pequenas brasas espalhadas pelo firmamento, enquanto a lua derramava seu brilho prateado sobre os telhados de ardósia e as muralhas das propriedades senhoriais. Do solar onde residia, o Marquês A Sales contemplava o luar, observando os poucos morcegos que riscavam o céu em voos silenciosos. O frio aumentava a cada instante, anunciando que a madrugada traria consigo a primeira neve.
— Senhor Marquês.
A voz respeitosa do mordomo chefe, Dom Lourenço de Vilar, interrompeu-lhe o devaneio.
— Chegou uma mensagem lacrada, vinda diretamente do palácio da Condessa A Morcega. Foi escrita de próprio punho por Sua Senhoria, segundo informou o escudeiro que a entregou.
O mordomo estendeu o pergaminho selado com cera negra. Gravado nela, destacava-se o brasão da Casa do Conde e da Condessa: um majestoso morcego de asas abertas envolvendo uma lua crescente, enquanto seis pequenos morcegos circundavam o escudo como sentinelas da noite.
O Marquês rompeu o selo com cuidado.
— Como está aquele assunto com Sir Aldren de Montargis, do Condado de Valdria? Há alguma notícia favorável ao pedido que solicitei meses atrás para este dia?
— Sim, senhor. Respondeu o mordomo com discreta satisfação. — Tudo será devidamente entregue no local e na hora que Vossa Senhoria determinou.
Um leve sorriso surgiu no rosto do Marquês.
— Excelente.
Seu olhar voltou-se para a janela, como se pudesse enxergar um futuro reservado apenas aos homens pacientes.
A residência do Marquês A Sales era um imponente solar fortificado, construído em sólida pedra granítica. Altas torres protegiam o edifício principal, enquanto tapeçarias flamengas ornamentavam os salões aquecidos por grandes lareiras. Longas mesas de carvalho exibiam castiçais de prata, baús entalhados guardavam relíquias familiares e enormes estantes reuniam mapas, tratados e manuscritos vindos dos mais diversos reinos. Nos estábulos repousavam cavalos lusitanos cuidadosamente preparados, e carruagens adornadas com brasões aguardavam silenciosamente a próxima viagem.
Enquanto isso, no Castelo de Erivas, tudo era organizado nos mínimos detalhes. Nenhum adorno poderia faltar; cada salão precisava refletir a grandeza da casa anfitriã. A Condessa A Morcega percorria corredores, galerias e escadarias distribuindo ordens aos criados.
— Ei, você aí! Cuidado com esse lustre veneziano! Mais à esquerda... isso! E você... tudo perfeito na cozinha? Não falta absolutamente nada?
— Sim, Senhora Condessa — respondeu um criado, curvando-se antes de retornar apressadamente para conferir novamente cada panela, travessa e barril de vinho.
Os empregados mais antigos conheciam bem o temperamento da senhora. Entre sussurros pelos corredores, alimentavam uma antiga lenda de que o humor da Condessa dependia de sua misteriosa cota diária de sangue.
Naturalmente, não passava de um mito criado pelos veteranos da casa para manter os novatos atentos, disciplinados e absolutamente fiéis aos seus senhores.
O castelo da Condessa era uma verdadeira joia da arquitetura senhorial. Suas muralhas erguiam-se sobre um afloramento rochoso, cercadas por jardins geométricos, ciprestes e roseirais agora adormecidos pelo inverno. No interior, enormes vitrais coloridos filtravam a luz da lua, projetando sombras azuladas sobre o piso de mármore. Escadarias em espiral conduziam às torres, onde sacadas ofereciam vista para bosques escuros. Lustres de ferro forjado sustentavam centenas de velas, enquanto tapeçarias representando criaturas noturnas cobriam as paredes.
O perfume de cera, madeira antiga e ervas aromáticas misturava-se ao calor constante das grandes lareiras.
— Calma, minha Condessa — disse o Conde Morcego, um homem de pele muito clara, coberta por inúmeras tatuagens, entre elas um enorme escorpião que parecia mover-se conforme com seus movimentos a cada gesto. — Assim ficará sem forças antes mesmo de o baile começar.
Com delicadeza, tomou-lhe a mão e conduziu-a até a ampla sacada do andar superior, de onde ambos contemplaram a noite iluminada.
Se alguém pudesse atravessar os séculos observando aquela cena, talvez dissesse que o Conde Morcego era o mesmo homem que, em tempos esquecidos, derrotara Capricórnio e seus signos rebeldes. Mas, por ora, tais histórias permaneceriam apenas como murmúrios levados pelo vento. Naquela noite, sua atenção voltava-se inteiramente para o grande baile e, sobretudo, para aquele que muitos acreditavam ser o futuro salvador do mundo.
Longe dali, muito longe dali, um outro convidado preparava sua cartola.
Continua...
