
O salão estava mergulhado em escuridão, iluminado apenas por velas cujas chamas oscilavam sob a respiração de forças antigas. Em torno de uma grande mesa de pedra, sete figuras encapuzadas estavam reunidas. Elas eram as Matriarcas do Conclave das Sombras, bruxas de poder imensurável, cujo domínio sobre a magia transcendia gerações. E naquela noite, seus olhares ardiam com um propósito que poderia mudar o destino de todo o reino.
Chegou a hora de tomarmos o que nos pertence por direito, declarou Lyria, a líder do Conclave, sua voz soando como trovão. Ela ergueu a mão, e um mapa mágico flutuou diante das outras. Por séculos, fomos renegadas às sombras, temidas e perseguidas. Mas agora, tomaremos o poder que nos foi negado.
As outras bruxas se entreolharam, algumas hesitantes. Isso será visto como um ato de guerra, advertiu Nyx, a mais velha das Matriarcas, seus olhos cinzentos brilhando com preocupação. Os reis e os senhores da terra não aceitarão uma mudança tão radical. Haverá sangue.
Já houve sangue demais, respondeu Lyria, com amargura. Quantas de nós foram queimadas, quantas vilas destruídas, quantos inocentes sacrificados por pura ignorância e medo? Não podemos mais nos esconder enquanto o mundo nos caça como se fôssemos bestas selvagens.
A sala caiu em um silêncio pesado. Todas sentiam o peso das palavras de Lyria. Desde a fundação do Conclave, há séculos, as bruxas se escondiam, reunindo poder e sabedoria, esperando o momento certo para agir. Mas aquele momento parecia sempre estar fora de alcance, uma promessa distante que nunca se concretizava.
E agora, Lyria? perguntou Morgath, a bruxa do leste, cuja voz soava como uma lâmina cortante. Qual é o seu plano? Como podemos nos erguer contra um mundo inteiro sem sermos destruídas?
Lyria estendeu a mão sobre a mesa, e uma esfera de cristal começou a brilhar. Dentro dela, as imagens de cidades e reinos surgiram, banhadas em sombras e luz. Conhecemos os segredos que sustentam o poder dos reis. Sabemos onde estão os nexos de energia que alimentam seus tronos. Vamos cortar essas fontes e fazer com que sintam nossa força. Então, eles não terão escolha a não ser nos reconhecer como iguais.
E se resistirem? questionou Seraphine Vesperthorn, a mais jovem das Matriarcas, cuja magia era capaz de moldar a própria realidade. “Se optarem pela guerra em vez da paz?
Então conhecerão o verdadeiro poder das bruxas, disse Lyria, com uma frieza que enviou um arrepio pela sala. Chegamos a este ponto para não sermos mais questionadas. Ou eles aceitam, ou os faremos aceitar.
As outras bruxas assentiram, uma a uma, reconhecendo que aquele era o momento de romper com séculos de opressão. O pacto foi selado, e com um movimento, Lyria dispersou a reunião. Cada Matriarca voltou para seu território, levando consigo a decisão tomada naquela noite.
Dias depois, os efeitos do Conclave começaram a ser sentidos. No reino de Arvallen, o castelo do rei foi tomado por uma neblina negra que engolia a luz do sol, congelando o tempo e aprisionando todos em um pesadelo eterno. No Sul, as minas de Mithar, fonte de riqueza e poder, foram seladas por raízes encantadas que nenhum metal ou fogo conseguia quebrar.
Os reinos se viram impotentes diante de forças que não podiam compreender ou combater. Os senhores da guerra enviaram exércitos para enfrentar as bruxas, mas os soldados se perderam em florestas que pareciam não ter fim, suas mentes corroídas por visões de horrores invisíveis.
Desesperados, os reis convocaram um conselho. Não podemos permitir que essas criaturas governem sobre nós! bradou o rei Aldar, de Eldoria. Elas devem ser exterminadas!
E como, exatamente, pretende fazer isso? questionou a rainha Elissa, do reino de Ilyria. Nossos magos não conseguem sequer se aproximar das áreas dominadas. Elas possuem um poder que não podemos enfrentar com espadas e lanças.
Então devemos negociar, sugeriu Lorde Vaelis, um nobre influente. Se reconhecermos o direito delas de existir, talvez possamos alcançar um acordo.
As palavras de Vaelis causaram um alvoroço no conselho. Reconhecer as bruxas? Dar-lhes direitos? Para muitos ali, isso era inconcebível. Mas, diante da força que não podiam enfrentar, as opções eram poucas.
O conselho finalmente decidiu enviar um emissário ao Conclave. O escolhido foi Vaelis, cuja mente sagaz e postura diplomática pareciam a melhor chance de evitar um conflito maior. Com uma pequena comitiva, ele partiu para a Floresta das Sombras, onde Lyria e as Matriarcas o esperavam.
Quando Vaelis chegou ao local marcado, a neblina densa parecia engolir cada som, cada movimento. Ele desceu de seu cavalo, sentindo o peso de olhares invisíveis. Venho em paz, anunciou, sua voz firme, mas cautelosa.
Uma figura surgiu entre as árvores, o rosto oculto sob um capuz escuro. Era Lyria. Você é corajoso, nobre Vaelis, disse ela, aproximando-se com a elegância de uma pantera. Mas coragem pode ser o primeiro passo para a ruína.
Não vim para ameaçar, respondeu ele. Vim porque reconheço que este conflito só trará destruição para todos nós. Os reinos querem paz, e acredito que o Conclave também a deseja.
Queremos mais do que paz, Lyria replicou, sua voz firme. Queremos reconhecimento. Não somos bestas, não somos monstros. Somos iguais, e exigimos ser tratadas como tal.
Vaelis respirou fundo. A tensão no ar era palpável. Eu entendo. Mas o que exatamente isso significa? O que o Conclave deseja?
Queremos um lugar no conselho de cada reino, Lyria declarou, cada palavra carregada de poder. Queremos voz nas decisões que afetam o mundo que ajudamos a construir. E queremos que todos os crimes cometidos contra nossas irmãs sejam reconhecidos, que as fogueiras sejam lembradas como atos de ignorância, não de justiça.
Vaelis se manteve em silêncio, ponderando as exigências. Sabia que isso seria difícil de aceitar para os reis, mas também sabia que recusar significaria guerra. Posso levar suas condições aos reinos, disse finalmente. Mas precisarei de algo em troca, uma garantia de que vocês não atacarão enquanto as negociações ocorrerem.
Lyria o observou, como se pudesse ver através de sua alma. Você terá sua trégua, ela disse. Mas saiba que nossa paciência tem limites. Se os reis tentarem nos enganar, se qualquer dano recair sobre uma só de nós, não haverá mais negociações.
Vaelis assentiu, sentindo o peso da responsabilidade sobre seus ombros. Farei o possível para que não chegue a isso.
As semanas seguintes foram marcadas por negociações intensas. Vaelis fi e voltou várias vezes, enfrentando a resistência dos reis e a desconfiança das bruxas. Mas aos poucos, um acordo começou a tomar forma.
Finalmente, em uma manhã de primavera, foi organizado um encontro oficial entre os reis e as Matriarcas do Conclave. O local escolhido foi o antigo templo de Elunara, um espaço sagrado que há muito era neutro em tempos de conflito. Lyria e suas irmãs chegaram primeiro, suas presenças majestosas contrastando com a arquitetura desgastada pelo tempo.
Os reis chegaram em seguida, seus semblantes marcados pela cautela. Havia uma tensão palpável no ar, mas também um estranho senso de expectativa. Quando todos se reuniram ao redor da grande mesa de pedra, o silêncio dominou o espaço.
Estamos aqui hoje para selar um novo pacto, começou Lyria, sua voz reverberando pelo templo. Um pacto que determinará o futuro deste mundo. Não somos inimigas, a menos que vocês nos forcem a ser.
O rei Aldar, sempre impetuoso, foi o primeiro a falar. Nós reconhecemos que as bruxas têm poder e influência. Mas como podemos ter certeza de que vocês não usarão esse poder contra nós?
Não queremos governar, respondeu Lyria, serenamente. Queremos apenas o direito de viver, de participar, de sermos ouvidas. Se formos tratadas com respeito, responderemos com respeito.
Vaelis interveio, sua voz soando como um fio de esperança. Se conseguirmos estabelecer essa confiança mútua, todos ganharemos. Este pode ser o início de uma era onde a magia e o reino mortal caminham lado a lado.
Após horas de discussões e ajustes, o acordo foi finalmente selado. As bruxas teriam uma cadeira nos conselhos de cada reino, onde poderiam influenciar as decisões políticas e sociais. Em troca, elas concordaram em não interferir diretamente nos assuntos governamentais sem consulta prévia.
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Corvo do Silêncio
Bruxas são seres demoníacos ou apenas mulheres que ousaram conhecer a cura quando os homens só conheceram a lâmina? Seu saber foi seu fardo, e sua voz, seu julgamento.
