
O vento frio cortava as árvores no alto da colina, onde um grupo de mulheres de pé se alinhava, com olhos fixos no horizonte distante. Elas usavam mantos negros e capuzes, suas feições quase invisíveis na escuridão. No centro delas, Lythra, uma jovem bruxa com longos cabelos de ébano e olhos como brasas, segurava um cajado, sentindo o poder antigo pulsando sob a terra. Aquela noite seria o início de uma rebelião há muito esperada.
A sociedade nunca entendeu o que somos, irmãs, Lythra começou, sua voz carregada de raiva e determinação. Sempre temeram o que não podiam controlar, e nos julgaram como monstros. Mas somos mais fortes do que eles jamais imaginaram.
Ao redor dela, as outras bruxas murmuraram palavras de concordância. Elas haviam passado anos escondidas, sobrevivendo aos caçadores de bruxas, às fogueiras e às falsas acusações que lhes custaram tantas vidas. Cada uma delas tinha uma história de dor e perda, marcas deixadas por uma sociedade que as via como aberrações.
Esta noite, continuou Lythra, apertando o cajado com mais força, eles aprenderão o verdadeiro poder da magia que tentaram destruir.
Uma das bruxas, Morgalyn Umbrafell, deu um passo à frente. Seus olhos violetas brilharam à luz da lua. Estamos prontas para fazer o que for necessário, Lythra. Eles não merecem a misericórdia que pediram enquanto nos queimavam.
Lythra assentiu. Morgalyn Umbrafell era sua aliada mais leal, uma mulher com uma sede de vingança que espelhava a própria raiva de Lythra. As memórias da mãe de Morgalyn Umbrafell, queimada em praça pública, ainda a assombravam. Ela estava pronta para lutar por justiça.
Mas não era só justiça o que aquelas bruxas buscavam. Era uma revanche total. Os homens que governavam aquelas terras haviam abusado de seu poder por tempo demais. Decretaram leis que reprimiam a liberdade, condenaram as mulheres que ousaram desafiar a descrença dos homens, e silenciaram qualquer sinal de rebeldia com brutalidade.
Lythra ergueu o cajado e traçou um símbolo no ar, suas mãos movendo-se com uma precisão perfeita. A magia se manifestou em torno delas, um círculo de chamas etéreas que rodopiavam ao redor do grupo. Estamos ligadas agora, disse ela, sentindo a energia das irmãs fluindo para dentro dela. Juntas, somos inquebráveis.
As bruxas ergueram as mãos, repetindo as palavras antigas que Lythra sussurrava. Elas estavam invocando as forças elementais que habitavam a terra e o céu, um poder adormecido, mas incontrolável. O fogo dançava em seus pés, e as árvores ao redor começaram a se curvar sob o peso da magia que se acumulava.
O que faremos primeiro? perguntou Faelyn, a mais jovem do grupo, seus olhos brilhando de expectativa. Ela havia acabado de completar seus ritos de passagem como bruxa, mas sua fúria contra a sociedade já ardia intensamente. Seus pais foram mortos pelos soldados do rei, e ela escapou por pouco de ser queimada junto com eles.
Nós vamos para a cidade, Lythra declarou, seus olhos sombrios e cheios de propósito. Vamos tomar o que é nosso. Eles acharam que poderiam nos enterrar, mas apenas plantaram a semente da nossa revolta.
Enquanto as bruxas se preparavam para partir, uma figura emergiu da escuridão. Era Kael, um homem que Lythra conhecia bem. Ele era o líder dos rebeldes humanos, aqueles que também sofriam nas mãos dos tiranos, mas nunca souberam do poder das bruxas que viviam entre eles.
Vocês estão prontas? Kael perguntou, a voz grave cortando o silêncio. Seus olhos encontraram os de Lythra, e por um breve momento, o tempo pareceu parar. O ar entre eles estava carregado com uma tensão antiga, um elo que nem mesmo o tempo havia conseguido quebrar. Estamos, respondeu Lythra, com frieza, afastando qualquer sentimento de dúvida. Ela havia amado Kael uma vez, mas esse amor havia se transformado em desconfiança. Ele era humano, e os humanos já haviam mostrado seu desprezo por ela e suas irmãs.
Kael, no entanto, não havia vindo para lutar contra elas. Estamos com vocês, disse ele, quebrando a distância entre eles. Os homens que nos governam merecem cair, e vocês são as únicas que podem começar a mudança.
Lythra estudou-o por um momento, considerando suas palavras. Embora Kael tivesse resistido às injustiças do reino, ele ainda era parte do mundo que desprezava as bruxas. Não confio em você, Kael, disse ela, com a voz cortante. Você é como eles, um homem que busca poder sem entender o preço.
Não estou aqui pelo poder, respondeu ele, dando um passo à frente. Estou aqui porque entendo a dor de perder tudo para um regime corrupto. Vocês não estão sozinhas nessa luta.
Lythra olhou para suas irmãs, sentindo a dúvida surgindo. Mas Morgalyn Umbrafell, sempre a primeira a falar, interrompeu seus pensamentos. Ele pode ser útil. Mas se nos trair, queimaremos sua alma junto com a deles.
Kael não se intimidou. Estou preparado para morrer por essa causa.
Lythra sabia que havia verdade nas palavras dele. Então venha conosco, disse finalmente. Mas lembre-se, Kael, você está andando entre lobos agora.
A marcha para a cidade começou com uma aura de força e vingança. O caminho era escuro, iluminado apenas pela lua crescente e pelo brilho do fogo que as bruxas carregavam em suas almas. Elas caminhavam lado a lado, com Kael e seus homens à frente, todos unidos pela promessa de derrubar os tiranos que destruíram tantas vidas.
Ao chegarem aos portões da cidade, as bruxas pararam, e Lythra ergueu o cajado mais uma vez. As palavras que ela murmurou eram antigas, uma linguagem que poucos além delas entendiam. A terra tremeu sob seus pés, e os portões de ferro, que haviam mantido tantos presos, começaram a se desfazer em pó.
Os guardas correram, mas já era tarde. As bruxas atravessaram os portões sem oposição, e dentro da cidade, o caos se espalhou rapidamente. As chamas que haviam conjurado dançavam pelos edifícios, derrubando torres e muros com a força de sua magia. O som de gritos e passos soava por toda parte.
No meio do caos, Lythra encontrou o rei. Ele estava em seu palácio, cercado por seus soldados, mas o medo em seus olhos era claro. Ele havia subestimado o poder das bruxas, acreditando que poderia controlá-las, como sempre havia feito com seus inimigos.
Você nunca entendeu, disse Lythra, aproximando-se dele. Nunca percebeu que não somos suas escravas, nem seu inimigo silencioso. Somos a força que você não pode destruir.
O rei tentou falar, mas suas palavras foram abafadas pelo rugido das chamas ao redor. Lythra ergueu o cajado e, com um simples movimento, lançou um feitiço que selou o destino dele. Ele foi consumido pelas chamas, um símbolo do antigo regime sendo varrido pelas forças que ele havia oprimido.
As bruxas tomaram o controle da cidade naquela noite. Suas magias recriaram o lugar, derrubando as antigas instituições e levantando algo novo, algo que as respeitasse e temesse ao mesmo tempo. Não haveria mais caça às bruxas, nem fogueiras, nem julgamentos injustos. O fogo de sua rebelião ardia em cada esquina.
Kael se aproximou de Lythra enquanto a cidade caía ao redor deles. O que acontecerá agora? perguntou ele, observando as chamas que consumiam os restos do palácio.
Agora, disse Lythra, com uma leve tristeza em sua voz, o mundo verá que as filhas da magia não serão mais subjugadas. E aqueles que ousarem tentar... aprenderão o verdadeiro significado de vingança.
O sol começou a nascer no horizonte, tingindo o céu de vermelho. As bruxas haviam vencido, mas a jornada para um novo mundo estava apenas começando. Lythra olhou para suas irmãs, sabendo que, apesar de sua vitória, o fogo que queimava em seus corações nunca se apagaria completamente.

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Corvo do Silêncio
Bruxas. Para alguns, mulheres pactuadas com o demônio, capazes de enfeitiçar almas e trazer desgraça. Para outros, apenas sábias, conhecedoras dos mistérios da terra, dos ciclos da lua e dos segredos das ervas. Seu crime? Saber demais, viver à margem das regras que aprisionavam as mulheres comuns. Eram temidas não por sua maldade, mas por sua liberdade. Assim, foram perseguidas, julgadas e queimadas, não por feitiçaria, mas por ousarem existir fora do controle dos homens. Quem, afinal, eram os verdadeiros carrascos?
