— Senhor presidente. Gérard começou, com a voz ainda baixa, tentando formular uma última pergunta antes de sair da sala.
Mas o presidente levantou a mão de forma tranquila, interrompendo-o sem parecer ríspido. Seus olhos fixaram um envelope marrom sobre a mesa de carvalho polido.
— Pegue-o. Disse, com um gesto quase cerimonial.
Gérard hesitou por um segundo, depois caminhou em silêncio até a mesa e tomou o envelope. O peso do papel era leve, mas o conteúdo carregava décadas. Com cuidado, abriu. Dentro, um ofício oficial com o brasão da República e uma assinatura já envelhecida pelo tempo, mas agora renovada com tinta fresca e determinação. O documento o nomeava Diretor Geral do BCIS, Bureau Central de Inteligência e Segurança, o mesmo órgão que fora dissolvido em 1972, por iniciativa do próprio presidente quando este ainda era senador, sob alegações de "inutilidade estatal e risco autoritário".
O impacto em Gérard foi visível. Seus dedos tremeram discretamente. A cicatriz do passado reabria-se de forma inesperada, mas não dolorosa, antes, com a dignidade da justiça. Os olhos marejaram sem que nenhuma lágrima caísse.
— Estou corrigindo um erro, meu velho amigo. Disse o presidente, virando-se para ele com um olhar sóbrio, firme e quase fraterno.
Gérard tentou articular uma resposta. Uma palavra. Qualquer uma. Mas foi interrompido novamente.
— Veja. Disse o presidente, apontando para a tela da televisão, onde o cronômetro do objeto no chão próximo a caixa enigmática marcava agora: 09 horas, 01 minutos e 34 segundos. O tempo corria, não apenas nas máquinas, mas no peito de cada homem e mulher na cidade de Paris.
Silêncio.
Gérard assentiu devagar.
— Obrigado, senhor presidente.
O presidente deu um passo em sua direção, com firmeza, mas sem pressa.
— A Ministra Éloïse Lambert está autorizada a lhe conceder todo o recurso que você precisar. Assim como o pessoal. Tudo. Fez uma breve pausa, como se soubesse o que viria a seguir.
Gérard então ajeitou o paletó, ergueu levemente o queixo e, com um leve sorriso:
— Se o senhor não se importa... eu já tenho o meu pessoal.
O presidente apenas acenou com a cabeça. Era o suficiente. Palavras seriam redundantes.
— Você agora é o diretor. Reafirmou ele, com convicção solene.
Gérard saiu da sala com o ofício em mãos, sem olhar para trás.
O presidente ficou ali por um tempo, em silêncio. Caminhou até a ampla janela de vidro blindado de seu gabinete no Palácio do Eliseu. A cidade luz começava a piscar em seus tons dourados e azulados sob o céu noturno. Lá fora, Paris seguia viva, sem saber o que ameaçava seu coração oculto.
Naquele momento, ele sentiu que uma parte de sua biografia, tantas vezes revisitada com peso, havia sido enfim redimida. O erro fora corrigido. A confiança havia sido restaurada. O homem certo estava no lugar certo.
Então, o telefone da sala tocou.
Um leve sorriso surgiu em seu rosto. Lançou um olhar rápido para o relógio 20h55 da noite.
— Pensei que Madeleine já tivesse ido embora... Falou para si mesmo, antes de atender.
20h56 da noite em Paris
09h 46m 45s para zera o cronômetro
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Capítulo 9 - 10 - Fim da primeira fase
