A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Textos

A Redenção de Moisés

O Príncipe do Nilo

Criado pelo inimigo

As águas do Nilo corriam lentas, refletindo o brilho dourado do sol do Egito, enquanto bandos de aves cortavam os céus em direção às margens férteis. Era a vida que brotava do rio que sustentava uma civilização inteira. Contudo, sob a beleza daquela terra poderosa, havia um gemido profundo: o clamor dos filhos de Israel, reduzidos à escravidão, curvados sob o peso dos tijolos e do chicote.

Era um tempo em que o Faraó, temendo o crescimento do povo hebreu, decretara morte sobre cada menino nascido das mulheres israelitas. Uma ordem fria, cruel, sustentada pelo medo de perder seu domínio. Foi nesse cenário de lágrimas e desespero que nasceu um menino destinado a mudar o destino de seu povo.

A mãe, Joquebede, ao vê-lo pela primeira vez, sentiu que havia algo de diferente naquela criança. Seus olhos não apenas choravam como os de qualquer recém-nascido, era como se já buscassem compreender o mundo. A cada noite, enquanto o pequeno dormia em silêncio, ela se perguntava quanto tempo ainda conseguiria escondê-lo dos soldados egípcios. Três meses se passaram como um suspiro, e a casa simples já não conseguia guardar o segredo.

Com mãos trêmulas e coração rasgado, Joquebede teceu uma pequena cesta (para os mais eruditos, arca) de juncos, colada com betume para que flutuasse sobre as águas do Nilo. Dentro dela, colocou seu filho, não porque iria abandona ló, mas com a confiança de que Deus o cuidaria. Ao soltar a pequena cesta (arca) no rio, seus olhos se encheram de lágrimas e orações silenciosas. Ali estava não apenas um menino, mas a esperança de um povo sofrido.

E foi nas mesmas águas que sustentavam o Egito que o improvável aconteceu. A filha do Faraó, descendo para banhar-se, avistou a cesta (arca) e ordenou que fosse trazida. Ao abrir, encontrou o bebê que chorava, e o coração da princesa se encheu de compaixão. “Este é um dos filhos dos hebreus”, disse ela. E contra toda a lógica humana, decidiu criá-lo como seu filho.

O menino recebeu o nome de Moisés, “porquê das águas o tirei”. Assim, aquele que deveria ser morto pelo decreto do rei, foi preservado e levado para dentro do palácio, para crescer entre colunas de mármore, tapeçarias bordadas em ouro e o som dos hinos ao deus Rá.

Moisés cresceu como príncipe. Seu corpo foi adornado com roupas de linho fino, seus ouvidos acostumados ao som da música egípcia, seus olhos educados pela escrita hieroglífica e pela ciência dos sacerdotes. Aprendeu a língua do império, os segredos da matemática, da astronomia e da guerra. Nasceu hebreu, mas foi moldado como egípcio.

O palácio era esplendoroso, jardins irrigados com canais do Nilo, estátuas gigantescas de pedra guardando os portais, salões iluminados por tochas que refletiam sobre paredes pintadas com cenas de vitórias militares. O cheiro de incenso queimado em honra aos deuses permeava o ar, enquanto escravos andavam apressados para servir aos nobres.

Mas, em meio a tanto esplendor, Moisés carregava um peso silencioso. Ele sabia que não era egípcio como os outros. O sangue que corria em suas veias o ligava àquele povo humilhado, que gemia nas fornalhas e nos campos de trabalho. E ainda que sua boca falasse o idioma dos faraós, seu coração pulsava com lembranças guardadas no fundo da alma, histórias cochichadas em sua infância, quando Joquebede, antes de entregá-lo à filha do faraó, o havia amamentado e contado sobre o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Um dia, já adulto, Moisés caminhava entre os hebreus. Seu olhar percorria os corpos curvados, os rostos marcados pelo sol e pelo sofrimento. Então viu um egípcio açoitar com crueldade um hebreu indefeso. Algo dentro dele queimou como fogo. O príncipe, acostumado ao comando, não suportou a cena. Aproximou-se, olhou em volta, e, tomado por ira, matou o egípcio, escondendo o corpo na areia.

Naquela noite, o palácio lhe pareceu sufocante. Moisés não conseguiu dormir. O sangue derramado pesava sobre sua consciência. No dia seguinte, voltou a andar entre os hebreus e viu dois deles discutindo. Tentou intervir como pacificador, mas um deles o confrontou, “Quem te pôs como príncipe e juiz sobre nós? Queres matar-me como mataste o egípcio?”

O coração de Moisés gelou. Seu segredo não era mais segredo. O som daquelas palavras se espalharia como vento. Logo, o palácio saberia. Logo, o Faraó saberia.

E assim, o príncipe do Egito se tornou fugitivo. Deixou para trás os salões de ouro, a segurança das muralhas e as águas do Nilo. Seus pés o levaram para o deserto, uma terra árida, de sol impiedoso e vento que soprava como lâminas de fogo.

Ali, sozinho, sem o luxo do palácio e sem a companhia do povo que tentara defender, Moisés experimentou o peso do vazio. Foi no silêncio das dunas que ele começou a descobrir quem realmente era.

Encontrou abrigo em Midiã, onde foi acolhido por Jetro, sacerdote da terra. Casou-se com Zípora, uma mulher simples, e tornou-se pastor. Das mãos que seguraram cetros no Egito, agora pendia o cajado de madeira; dos olhos acostumados ao brilho das joias, agora apenas a vastidão da areia e o balido das ovelhas.

O palácio parecia um sonho distante. O homem que fora príncipe agora era estrangeiro, pastor de rebanho, esquecido pelo mundo. Mas era ali, longe das multidões e dos altares egípcios, que Deus começava a moldar o libertador.

Reflexão para os dias de hoje

A história de Moisés já no seu início nos ensina que os maiores propósitos podem nascer dos cenários mais improváveis. Um menino condenado à morte se torna príncipe. Um príncipe fugitivo se torna pastor. Um pastor se torna libertador.

Quantas vezes também nos sentimos deslocados? Talvez vivendo em palácios que não são nossos, cercados de coisas que não nos preenchem, tentando encontrar identidade em meio a dois mundos. Moisés nos mostra que a identidade verdadeira não está nas roupas que vestimos, nem nos títulos que carregamos, mas naquilo que Deus sonhou para nós desde o princípio.

Assim como Joquebede soltou a arca no Nilo, às vezes precisamos aprender a entregar no rio da fé aquilo que não conseguimos controlar. E como a filha de Faraó, pessoas improváveis podem ser usadas por Deus para cumprir propósitos maiores.

A fuga de Moisés também nos fala sobre nossos erros. Ele matou um homem, agiu impetuosamente, e precisou fugir. Mas mesmo em seus erros, Deus não desistiu dele. Quantos de nós carregamos culpas do passado? Quantos acreditam que por causa de um erro não há mais futuro? Moisés prova que o deserto pode ser um lugar de recomeço, e que mesmo quando somos esquecidos pelo mundo, Deus ainda está escrevendo nossa história.

Este primeiro capítulo da vida de Moisés nos lembra que a redenção começa quando aceitamos que não somos definidos pelo nosso passado, mas pelo propósito eterno de Deus.

 

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Enviado por A Sales em 06/09/2025
Alterado em 06/09/2025
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Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

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