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-----> Contos No Japão o Fim <-----

A Tempestade Após o Florescer

 

  A chuva começou no início da tarde, caindo pesada sobre a cidade como se o céu estivesse tentando lavar o peso das emoções deixadas pelo festival de hanami. As cerejeiras, que antes estavam em pleno florescer, agora tinham pétalas espalhadas pelo chão molhado, uma lembrança efêmera de algo belo, mas passageiro.

  Aiko observava a chuva da varanda de sua casa, os braços cruzados ao redor do corpo, como se tentasse proteger-se não apenas do frio, mas também das incertezas que a consumiam. O yukata azul-claro do festival fora substituído por roupas mais simples, e seus cabelos, ainda levemente bagunçados, denunciavam a noite mal dormida.

  Ela precisava de respostas, mas as respostas não vinham. Cada lembrança da noite anterior surgia como um mosaico fragmentado: os olhos de Hiroshi brilhando de emoção, a postura rígida de Kazuo, as palavras que ela não conseguia esquecer.

 

O Silêncio de Aiko

 

  Incerta sobre como seguir em frente, Aiko decidiu caminhar. Ela pegou um guarda-chuva e saiu em direção ao templo Kiyomizu-dera, como se a familiaridade do lugar pudesse ajudá-la a organizar seus pensamentos.

  A caminhada era silenciosa, interrompida apenas pelo som das gotas de chuva batendo no guarda-chuva e pelos passos contra as pedras molhadas. O templo estava quase vazio, envolto em uma névoa que parecia emoldurar a solidão de Aiko.

Ela parou diante da sacada, olhando para a vista enevoada de Kyoto.
  — Por que tudo tinha que mudar? — murmurou para si mesma, sentindo uma lágrima escorrer, misturando-se com a umidade do seu rosto.

 

Hiroshi: O Peso da Decisão

 

  Hiroshi, por sua vez, estava no pequeno dojo onde costumava praticar kendo. Ele precisava de algo para focar, algo para aliviar a confusão que sentia. O barulho da chuva no telhado do dojo ecoava em sua mente como uma melodia distante.

  Com a espada de madeira nas mãos, ele repetia os movimentos básicos, cada golpe carregado de frustração.
  — Como fui tão estúpido? — resmungou, interrompendo o exercício e apoiando a espada no chão.

  Os olhos dele estavam fixos em um ponto no vazio. A lembrança de sua confissão a Aiko, do olhar dela, continuava a atormentá-lo. Ele sabia que o que sentia por ela era real, mas também sabia que talvez tivesse arruinado tudo ao colocá-la nessa posição.

  Hiroshi se sentou no chão, a espada de madeira ao lado, e fechou os olhos, tentando encontrar calma no turbilhão de pensamentos.
  — Talvez seja tarde demais... — sussurrou, a voz quase inaudível.

 

Kazuo: A Luta Interna

 

  Kazuo estava em casa, sentado à mesa com uma xícara de chá intocada diante dele. O ambiente ao seu redor era organizado, mas a tempestade dentro dele estava longe de ser controlada.

  — Eu não deveria ter ficado em silêncio — disse a si mesmo, passando as mãos pelo cabelo. — Mas o que mais eu poderia fazer?

  Ele relembrou o olhar de Aiko e a intensidade com que Hiroshi havia falado. Era estranho pensar que o amigo que ele sempre conhecera como equilibrado e contido tinha tanta paixão escondida.

  Kazuo sentiu uma mistura de culpa e ressentimento. Ele se perguntava se deveria ter tomado uma atitude, se deveria ter deixado mais claro o que sentia por Aiko antes que tudo chegasse a esse ponto. Mas agora parecia tarde demais para desfazer o que já fora dito e feito.

  Ele levantou-se abruptamente, incapaz de suportar mais o silêncio. Pegou um casaco e saiu, deixando a xícara de chá esfriando sobre a mesa.

 

Encontros à Parte

 

  Enquanto a noite caía sobre a cidade, o destino parecia conspirar para aproximá-los, ainda que de forma indireta. Hiroshi, em busca de ar fresco, seguiu sem rumo até um pequeno santuário. Lá, encontrou Kazuo, parado diante de uma estátua de pedra, olhando fixamente para ela como se buscasse respostas.

  Hiroshi hesitou antes de se aproximar. A chuva havia diminuído para uma garoa leve, mas ainda havia um peso no ar.

  — Kazuo — chamou, a voz baixa, mas firme.

  Kazuo virou-se lentamente, seu rosto indecifrável sob a luz fraca das lanternas.
  — O que você está fazendo aqui?

  — Procurando... algo — respondeu Hiroshi, sem saber exatamente o que dizer.

  Eles ficaram em silêncio, o som da água gotejando das árvores ao redor preenchendo o espaço entre eles.

  — Não podemos continuar assim — disse Hiroshi finalmente. — Essa tensão entre nós... não é o que Aiko quer.

  Kazuo cruzou os braços, os olhos fixos em Hiroshi.
  — E o que você sugere? Que simplesmente finjamos que nada aconteceu?

 — Não — respondeu Hiroshi, a voz firme. — Mas talvez possamos colocar nossos sentimentos de lado por ela, pelo menos até ela decidir o que quer.

  Kazuo ponderou as palavras, seu olhar suavizando ligeiramente. Ele sabia que Hiroshi estava certo, mas admitir isso não era fácil.

  — Por ela, então — disse finalmente, estendendo a mão.

  Hiroshi hesitou, mas aceitou o gesto. Era um começo, embora frágil.

 

Aiko: Sob a Névoa do Templo

 

  No templo, Aiko ainda estava diante da sacada, observando as luzes da cidade começarem a acender sob a névoa. Ela sentia que algo havia mudado, mas não sabia o quê.

  A decisão que ela precisava tomar parecia impossível, mas sabia que não poderia evitá-la para sempre. Fechando os olhos, ela fez uma prece silenciosa, pedindo força para enfrentar o que viria.

 E, enquanto a noite envolvia Kyoto, as cerejeiras, agora despidas de suas flores, permaneciam como testemunhas silenciosas das promessas e conflitos que uniam e dividiam os três amigos.

 

Fim...

A Sales
Enviado por A Sales em 24/12/2024
Alterado em 15/02/2025
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