
Este poema foi escrito no décimo dia
que meu pai deu entrada no leito. Cinco meses
depois ele faleceu.
Este e outros poemas, sonetos, cartas para
Deus que escreveu num momento
em que já não sabia qual sentimento
realmente eu tinha. Se o de não poder fazer nada,
ou o de saber que estava sendo feito
tudo que era possível fazer...
Mais ver ló deitado dia após dia acreditando
que no dia seguinte eu o veria andando,
era só a esperança de um filho.
Hoje, exatamente neste dia, faz dois anos
que partiu rumo a Deus que ele sempre rogou
em suas orações.
Nos falamos poucos, mais me ensinou muito.
Agradeço meu pai.
Dez dias se foram,
como se o tempo tivesse parado,
como se cada segundo
fosse um grão de areia
em uma ampulheta quebrada.
Meu pai, antes forte,
agora é um corpo silencioso,
enquanto nós, filhos,
esperamos por uma resposta
que parece nunca vir.
A noite chegou com o frio,
e ele, sem palavras,
tentou nos dizer algo
que não conseguimos entender.
Levá-lo ao hospital
foi um ato de desespero,
uma tentativa de lutar
contra o invisível,
contra o desconhecido.
No décimo dia,
a esperança ainda respira,
frágil, mas presente,
e eu me pego orando,
procurando por um túnel,
por uma luz
que mim guiasse na escuridão.
E então,
como um milagre,
o boletim médico traz
um vislumbre de melhora,
uma esperança para a vida
em meio ao caos.
Agora, na sala de espera,
onde os sonhos se misturam
com as preces,
eu vejo a luz da aurora,
um prenúncio de dias melhores.
Que as máquinas parem de piscar,
que o frio seja levado pelo vento,
e que meu pai,
de volta à sua cadeira na varanda,
possa sentir o calor do sol
em sua pele uma vez mais.
