
— Senhores. Senhoras, todos aqui presentes...
Falou o Duque Felipe Félix, aproximando-se da Condessa A Morcega.
O salão permanecia em respeitoso silêncio. A música havia cessado, e até o crepitar das velas parecia ter diminuído diante da solenidade daquele instante.
— Não há muito o que dizer, porque tais palavras são insuficientes...
As palavras do Duque foram interrompidas pela figura do Marquês A Sales, que descia lentamente a escada que dava acesso ao salão.
Todos os olhos se voltaram para ele.
Momentos antes, ainda na sacada, o Marquês e a Calculista haviam chegado à mesma conclusão.
Não havia mais tempo.
Mais uma olhada nos mapas, os cálculos e as cartas astrais. A jovem Calculista percorrera os números mais uma vez, confrontando-os com a posição das estrelas, o movimento das nuvens e os sinais que vinham sendo observados desde o início da noite.
Por fim, levantara os olhos. O Marquês compreendera. O momento poderia acontecer a qualquer instante. Ele fechou lentamente o último mapa.
— Então chegou a hora.
A voz do Marquês A Sales fez-se ouvir pelo salão antes mesmo que ele alcançasse o último degrau.
Era uma voz firme, grave e perfeitamente projetada, capaz de impor silêncio sem que precisasse elevar-se em excesso.
Havia nela algo diferente naquela noite. Não era somente a autoridade de um Marquês. Era a segurança de alguém que conhecia coisas que a maioria dos presentes sequer imaginava existirem.
Como homem acostumado a transitar entre mundos, suas palavras pareciam carregar consigo uma espécie de autoridade que ultrapassava as paredes de pedra do Castelo de Erivas.
— Senhores...
O sussurro que ainda restava morreu imediatamente.
Nobres, cavaleiros, damas, camponeses, artesãos, pescadores, mercadores e criados voltaram-se para ele.
Alguns demonstravam admiração. Outros, certa inquietação.
Havia algo na expressão do Marquês que não combinava com uma simples homenagem.
Até mesmo aqueles que não compreendiam o que estava acontecendo perceberam que o Marquês cuidadosamente construída carregava naquele instante uma preocupação verdadeira.
Ele caminhou pelo salão. Passou entre os convidados. Nenhum deles ousou interrompê-lo. Quando alcançou o centro, dirigiu primeiro o olhar para Erivas, a Guardiã.
Permitiu-se um breve momento de admiração a todo naquela noite.
Aquela mulher ainda carregava uma força incrível apesar do enorme desgaste provocado pelos encantamentos daquela noite.
O Marquês inclinou respeitosamente a cabeça.
— Guardiã... Havia respeito sincero em sua voz. Mas também preocupação. Seu olhar permaneceu por alguns instantes sobre ela.
Então pensou: “Temo que o tempo seja suficiente para ela recuperar todo o seu poder místico.”
O Marquês voltou-se para a Condessa A Morcega.
Todos aguardavam.
A Condessa permanecia no centro do salão, ainda vestindo o extraordinário traje que surgira diante dos olhos de todos. A pulseira de obsidiana continuava em seu pulso direito, embora agora emitisse apenas um discreto brilho.
Ao seu redor, os convidados permaneciam imóveis. Alguns nobres olhavam para o Marquês com desconfiança. As pessoas vindas das vilas observavam em absoluto silêncio.
O Conde Morcego mantinha-se atento. O Duque Felipe Félix permanecia próximo. A Poetisa dos Astros, o Mestre das Interações e os demais convidados de honra acompanhavam cada palavra.
Na sacada superior, a Calculista permanecia junto aos quatro companheiros observando o salão e aguardando para também entender o real motivo de estar ali.
Ele então se dirigiu à Condessa.
— Nobre Condessa, sabeis da admiração que tenho por vossa história, de vossa capacidade e de vosso reconhecimento profundo para com os amigos.
Fez uma breve pausa.
— Também não é segredo que não admitis, em todo o Condado do Recanto, pessoas que falam daquilo que não é seu, que não faz sentido e não sentimento, que não dizem nada da realidade do momento vivido.
A Condessa continuava olhando para ele.
O Marquês continuou:
— Todo este esplendor aqui no castelo...
Ergueu discretamente a mão.
— A ilusão em todo o castelo. Seu olhar percorreu as paredes, os vitrais, as tapeçarias e os candelabros. — A vossa ida para vossa residência quando desejáveis permanecer aqui.
A Condessa começava a entender de suas leves desconfianças de todo o que estava ocorrendo diante de seus olhos.
— A pulseira de obsidiana, sobre a qual estivestes em dúvida se usaríeis... Olhou diretamente para o pulso dela. — E que agora está convosco.
A Condessa tocou instintivamente a joia.
Um pequeno murmúrio percorreu os presentes.
O Marquês parou. Observou todos no salão. Então voltou a falar.
— Nobre Condessa...
Sua voz agora carregava maior solenidade.
— Quando lestes a carta enviada pelo Duque Felipe Félix, na qual vos era relatada esta homenagem destinada à Guardiã...
Fez uma pausa.
— Eu Erivas.
O olhar da Condessa voltou-se para a Guardiã.
O Marquês continuou:
— Encontrei-a naquele lugar onde as Guardiãs buscam silêncio, meditação e paz, afastadas do ruído dos homens e das inquietações do mundo.
— Ali combinamos toda a mudança que vossos contemplaram mais que seu coração não entendeu.
— A grande homenageada nesta noite, seria vós. Retrato-me, é vós.
A Condessa permaneceu imóvel. Parecia incapaz de responder. O salão inteiro aguardava.
— Toda esta noite foi preparada para vós.
Aquelas palavras provocaram uma onda de murmúrios.
A Condessa olhou ao redor.
Finalmente começou a lembrar os momentos em que as mudanças ocorreram. Ela para o Conde Morcego e para Anna, que estar próxima a ele.
A decoração do castelo. A pulseira. As carruagens. Os convidados. A nau. As apresentações.
Tudo.
Tudo havia para lhe trazer até este momento.
O Marquês, porém, não sorria. Sua expressão havia mudado.
— Mas... Fez uma pausa.
Olhou novamente para Erivas. A Guardiã permanecia de pé com enorme esforço. Mais seu rosto já não demostrava a mesma franqueza de antes. As mãos mantinham-se discretamente apoiadas sobre o bastão que carregava. A força que ainda sustentava seu corpo parecia cada vez maior.
O Marquês sabia que ela havia ultrapassado os próprios limites. E temia que não conseguisse recuperar suas forças místicas a tempo. Mais o tempo parecia estar colaborando.
Voltou os olhos para a Condessa A Morcega.
— Mas as palavras que usarei agora... Parou. Por alguns segundos, parecia procurar a maneira correta de dizê-las. — ...não são as que realmente gostaria de dizei-las.
O salão tornou-se novamente silencioso. Lá fora, o vento percorreu as muralhas. As águas do Atlântico chocaram-se contra as pedras do pequeno porto.
E, muito acima do Castelo de Erivas, a Constelação de Leão permanecia cada vez mais definida e mais próxima do castelo.
O Marquês respirou profundamente.
Sabia que a homenagem havia chegado ao seu verdadeiro momento. Mas também sabia que aquilo que estava prestes a dizer poderia mudar completamente o destino daquela noite.
Mamãe... Mamãe, acorde, o que vai ter para o café hoje?