A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Castelo de Erivas (Homenagem) Parte - 16

 

— Senhores. Senhoras, todos aqui presentes...

Falou o Duque Felipe Félix, aproximando-se da Condessa A Morcega.

O salão permanecia em respeitoso silêncio. A música havia cessado, e até o crepitar das velas parecia ter diminuído diante da solenidade daquele instante.

— Não há muito o que dizer, porque tais palavras são insuficientes...

As palavras do Duque foram interrompidas pela figura do Marquês A Sales, que descia lentamente a escada que dava acesso ao salão.

Todos os olhos se voltaram para ele.

 

Momentos antes, ainda na sacada, o Marquês e a Calculista haviam chegado à mesma conclusão.

Não havia mais tempo.

Mais uma olhada nos mapas, os cálculos e as cartas astrais. A jovem Calculista percorrera os números mais uma vez, confrontando-os com a posição das estrelas, o movimento das nuvens e os sinais que vinham sendo observados desde o início da noite.

Por fim, levantara os olhos. O Marquês compreendera. O momento poderia acontecer a qualquer instante. Ele fechou lentamente o último mapa.

— Então chegou a hora.

 

A voz do Marquês A Sales fez-se ouvir pelo salão antes mesmo que ele alcançasse o último degrau.

 

Era uma voz firme, grave e perfeitamente projetada, capaz de impor silêncio sem que precisasse elevar-se em excesso.

Havia nela algo diferente naquela noite. Não era somente a autoridade de um Marquês. Era a segurança de alguém que conhecia coisas que a maioria dos presentes sequer imaginava existirem.

Como homem acostumado a transitar entre mundos, suas palavras pareciam carregar consigo uma espécie de autoridade que ultrapassava as paredes de pedra do Castelo de Erivas.

— Senhores...

 

O sussurro que ainda restava morreu imediatamente.

Nobres, cavaleiros, damas, camponeses, artesãos, pescadores, mercadores e criados voltaram-se para ele.

 

Alguns demonstravam admiração. Outros, certa inquietação.

Havia algo na expressão do Marquês que não combinava com uma simples homenagem.

Até mesmo aqueles que não compreendiam o que estava acontecendo perceberam que o Marquês cuidadosamente construída carregava naquele instante uma preocupação verdadeira.

Ele caminhou pelo salão. Passou entre os convidados. Nenhum deles ousou interrompê-lo. Quando alcançou o centro, dirigiu primeiro o olhar para Erivas, a Guardiã.

Permitiu-se um breve momento de admiração a todo naquela noite.

Aquela mulher ainda carregava uma força incrível apesar do enorme desgaste provocado pelos encantamentos daquela noite.

 

O Marquês inclinou respeitosamente a cabeça.

— Guardiã... Havia respeito sincero em sua voz. Mas também preocupação. Seu olhar permaneceu por alguns instantes sobre ela.

Então pensou: “Temo que o tempo seja suficiente para ela recuperar todo o seu poder místico.”

O Marquês voltou-se para a Condessa A Morcega.

Todos aguardavam.

A Condessa permanecia no centro do salão, ainda vestindo o extraordinário traje que surgira diante dos olhos de todos. A pulseira de obsidiana continuava em seu pulso direito, embora agora emitisse apenas um discreto brilho.

 

Ao seu redor, os convidados permaneciam imóveis. Alguns nobres olhavam para o Marquês com desconfiança. As pessoas vindas das vilas observavam em absoluto silêncio.

O Conde Morcego mantinha-se atento. O Duque Felipe Félix permanecia próximo. A Poetisa dos Astros, o Mestre das Interações e os demais convidados de honra acompanhavam cada palavra.

Na sacada superior, a Calculista permanecia junto aos quatro companheiros observando o salão e aguardando para também entender o real motivo de estar ali.

Ele então se dirigiu à Condessa.

 

— Nobre Condessa, sabeis da admiração que tenho por vossa história, de vossa capacidade e de vosso reconhecimento profundo para com os amigos.

Fez uma breve pausa.

— Também não é segredo que não admitis, em todo o Condado do Recanto, pessoas que falam daquilo que não é seu, que não faz sentido e não sentimento, que não dizem nada da realidade do momento vivido.

A Condessa continuava olhando para ele.

O Marquês continuou:

— Todo este esplendor aqui no castelo...

Ergueu discretamente a mão.

 

— A ilusão em todo o castelo. Seu olhar percorreu as paredes, os vitrais, as tapeçarias e os candelabros. — A vossa ida para vossa residência quando desejáveis permanecer aqui.

A Condessa começava a entender de suas leves desconfianças de todo o que estava ocorrendo diante de seus olhos.

— A pulseira de obsidiana, sobre a qual estivestes em dúvida se usaríeis... Olhou diretamente para o pulso dela. — E que agora está convosco.

A Condessa tocou instintivamente a joia.

 

Um pequeno murmúrio percorreu os presentes.

O Marquês parou. Observou todos no salão. Então voltou a falar.

— Nobre Condessa...

Sua voz agora carregava maior solenidade.

— Quando lestes a carta enviada pelo Duque Felipe Félix, na qual vos era relatada esta homenagem destinada à Guardiã...

Fez uma pausa.

— Eu Erivas.

O olhar da Condessa voltou-se para a Guardiã.

O Marquês continuou:

 

— Encontrei-a naquele lugar onde as Guardiãs buscam silêncio, meditação e paz, afastadas do ruído dos homens e das inquietações do mundo.

— Ali combinamos toda a mudança que vossos contemplaram mais que seu coração não entendeu.

— A grande homenageada nesta noite, seria vós. Retrato-me, é vós.

A Condessa permaneceu imóvel. Parecia incapaz de responder. O salão inteiro aguardava.

— Toda esta noite foi preparada para vós.

Aquelas palavras provocaram uma onda de murmúrios.

A Condessa olhou ao redor.

 

Finalmente começou a lembrar os momentos em que as mudanças ocorreram. Ela para o Conde Morcego e para Anna, que estar próxima a ele.

A decoração do castelo. A pulseira. As carruagens. Os convidados. A nau. As apresentações.

Tudo.

Tudo havia para lhe trazer até este momento.

O Marquês, porém, não sorria. Sua expressão havia mudado.

— Mas... Fez uma pausa.

 

Olhou novamente para Erivas. A Guardiã permanecia de pé com enorme esforço. Mais seu rosto já não demostrava a mesma franqueza de antes. As mãos mantinham-se discretamente apoiadas sobre o bastão que carregava. A força que ainda sustentava seu corpo parecia cada vez maior.

 

O Marquês sabia que ela havia ultrapassado os próprios limites. E temia que não conseguisse recuperar suas forças místicas a tempo. Mais o tempo parecia estar colaborando.

Voltou os olhos para a Condessa A Morcega.

 

— Mas as palavras que usarei agora... Parou. Por alguns segundos, parecia procurar a maneira correta de dizê-las. — ...não são as que realmente gostaria de dizei-las.

O salão tornou-se novamente silencioso. Lá fora, o vento percorreu as muralhas. As águas do Atlântico chocaram-se contra as pedras do pequeno porto.

E, muito acima do Castelo de Erivas, a Constelação de Leão permanecia cada vez mais definida e mais próxima do castelo.

 

O Marquês respirou profundamente.

Sabia que a homenagem havia chegado ao seu verdadeiro momento. Mas também sabia que aquilo que estava prestes a dizer poderia mudar completamente o destino daquela noite.

 

Mamãe... Mamãe, acorde, o que vai ter para o café hoje?

A Sales
Enviado por A Sales em 10/08/2026
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