
A Bailadeira dançava lindamente.
Cada movimento seu era imitado pelas moças que não faziam parte da nobreza e, para surpresa de alguns, por alguma Lady ali presente. A beleza dos gestos, a precisão dos passos e a delicadeza com que manejava os véus não indicavam, aos olhos daqueles que a contemplavam, sua verdadeira natureza.
A Bailadeira, conhecida por suas danças incomuns, fora encontrada pela Condessa A Morcega quando esta visitara uma feira onde se negociavam especiarias vindas da França, sedas, perfumes, tecidos e outras mercadorias trazidas por mercadores estrangeiros.
A Condessa a viu apresentar-se entre tendas e barracas, acompanhada por músicos modestos.
Não demorou a compreender que havia naquela jovem algo extraordinário. Seu antigo proprietário exigiu uma quantia considerável pela liberdade de seus serviços.
A Condessa pagou-lhe vinte ducados de ouro, soma suficientemente elevada para impressionar até mesmo um mercador experiente.
Mas, desde aquele dia, a Bailadeira jamais fora tratada como propriedade. Na residência senhorial da Condessa A Morcega, era recebida e tratada como igual.
Sentava-se à mesa com os demais quando desejava, era alimentada como os nobres e, sobretudo, recebia da Condessa o tratamento que esta julgava devido a qualquer pessoa que lhe demonstrasse lealdade.
Sua dança continuava. Os véus acompanhavam seus braços. Os pés deslizavam pelo piso do salão.
As jovens das vilas tentavam reproduzir os mesmos movimentos, algumas rindo discretamente quando erravam os passos.
Até mesmo uma ou outra Lady abandonara por instantes a postura rígida esperada de uma dama da nobreza e tentava acompanhar a coreografia.
A Condessa A Morcega observava tudo com satisfação.
Em outro lugar do castelo, o Marquês A Sales conversava com a camponesa que mudara a história de um reino inteiro apenas com sua arte para a guerra e seu dom natural para os cálculos.
Junto a ela estavam quatro outros guerreiros, duas mulheres e dois homens.
Os cinco permaneciam atentos. A camponesa falava pouco. Seus olhos percorriam o salão superior e depois se voltavam para o mar, como se calculasse distâncias invisíveis entre as muralhas, a estrada, o porto e as torres do castelo.
O Marquês sabia que sua presença naquela noite não era casual.
Nada naquela noite era casual.
Findou a apresentação da Bailadeira. Junto com a cantora Juli Lima, ambas receberam de todos ali presentes uma grande salva de palmas.
A música cessou. Os últimos movimentos dos véus desapareceram.
E foi nesse momento que, para surpresa da Condessa A Morcega, a Guardiã começou a falar.
Erivas encontrava-se no centro do salão ao lado da Condessa. Seu rosto revelava o cansaço. Mesmo assim, manteve-se firme.
— Nobres... e valorosos cavaleiros aqui presentes...
Sua voz saiu baixa. Ela precisou interromper a própria fala para recuperar o fôlego.
Alguns convidados se entreolharam.
A Guardiã prosseguiu.
— E todos os outros convidados também, aqui presentes...
Novamente parou. Respirou lentamente. O castelo pareceu prender a respiração.
Todos aguardavam as palavras que eram esperadas por toda a noite pela Condessa Morcega para revelar quem seria o grande homenageado daquela noite.
No alto de uma das galerias, o Marquês A Sales acompanhava tudo. Não tirava os olhos de seu relógio portátil, uma pequena peça de bolso de mecanismo delicado, protegida por uma caixa de metal trabalhado e presa por uma corrente ao interior de seu gibão.
A cada poucos instantes, tocava discretamente o relógio com os dedos.
Não apenas controlava as horas. Junto a camponesa, calculava o momento.
A Guardiã voltou os olhos para a Condessa.
— Esta mulher, por todos conhecida como a Condessa A Morcega, não é só conhecida pelo seu prestígio de Condessa...
Erivas precisou parar novamente. A respiração tornava-se cada vez mais difícil.
Mas continuou.
— Fato real de minhas palavras está aqui, em todo este salão...
Fez um pequeno gesto.
— São vocês.
O olhar da Guardiã percorreu aqueles que, em circunstâncias comuns, jamais teriam permissão para atravessar as portas de um grande salão da nobreza.
Camponeses. Artesãos. Mercadores. Criados. Jovens das aldeias. Mulheres que trabalhavam nos mercados. Homens vindos das pequenas propriedades das redondezas.
Pessoas que, naquela noite, ocupavam as mesmas mesas, bebiam das mesmas taças e eram recebidas pela anfitriã com a mesma dignidade concedida aos nobres.
Erivas continuou, quase sem força:
— Mas ela fez questão de mandar buscá-los para estar aqui hoje... para participar com a mesma grandeza dos demais... sentar na mesma mesa dos demais...
Precisou novamente interromper a fala. O silêncio tornou-se absoluto.
— Por isto... por outros fatos... é que estamos aqui presentes.
A voz quase desaparecia ao final de cada frase. Ainda assim, ninguém desviava o olhar. Todos escutavam.
Até mesmo aqueles que jamais haviam recebido uma palavra de uma Guardiã de tão elevada posição compreendiam a importância daquele momento.
Anna estava ao lado de sua senhora. Mas já havia cumprido sua missão.
Horas antes, avisara a todos os convidados de honra que, quando a Guardiã chegasse ao momento de revelar a verdadeira homenageada, chamaria um nome.
Aquele nome diria algo para a Condessa.
Cinco dias antes daquela grande noite, todos os nobres convidados haviam recebido do Marquês A Sales uma recomendação escrita em papel de linho fino, dobrado cuidadosamente e fechado com lacre de cera.
A mensagem dizia:
“Nobres amigos, de hoje a cinco dias, a Condessa A Morcega realizará no Castelo de Erivas um grande baile para homenagear a própria Erivas.
Peço a cada um que prepare uma homenagem, mas não para Erivas, a Guardiã, e sim para a própria Condessa A Morcega.
Pois no mesmo dia é também o grande dia do seu nome.”
Com meus cumprimentos e agradecimento,
Marquês A Sales
Erivas ergueu lentamente o rosto. Por alguns segundos, permaneceu em silêncio. Então pronunciou o primeiro nome.
— Duque Felipe Félix.
O nome percorreu o salão. O Duque, que permanecia em sua mesa, ergueu-se.
Todos os olhares se voltaram para ele.
Lá fora o céu estava completamente diferente. Não havia mais a tranquilidade de algumas horas antes. As nuvens pareciam deslocar-se em sentidos contrários, como se forças invisíveis empurrassem o firmamento.
A Constelação de Leão, que anteriormente surgia apenas parcialmente, parecia agora ter ganhado vida. Seus pontos luminosos estavam mais definidos. Mais intensos.
Na sacada superior, olhos acostumados à escuridão e ao movimento das estrelas contemplavam algo que começava a se formar muito além das estrelas.
O mar permanecia escuro. As águas batiam contra as rochas do castelo. O vento percorreu as torres.
Por um instante, pareceu que o próprio céu pressentia que algo não esperado se aproximava. Como se uma força desconhecida estivesse procurando uma passagem. Como se alguma coisa, do outro lado do véu que separava os mundos, estivesse procurando rasgá-lo.
E, enquanto todos dentro do Castelo de Erivas aguardavam as palavras do Duque Felipe Félix, acima deles a Constelação de Leão parecia estar ganhando outra forma.
Continua...