A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Castelo de Erivas (Homenagem) Parte - 14

 

Ainda tentando absorver toda aquela mudança repentina e, ao mesmo tempo, maravilhada pela beleza do vestido que agora parecia ter sido criado pelas próprias mãos da noite, a Condessa A Morcega não podia ignorar a presença do Conde Morcego.

 

Ele pousara diante dela com elegância, mas seus olhos experientes perceberam imediatamente aquilo que os demais não seriam capazes de notar.

 

Sua amiga, Guardiã demostrava está sem sua total magia.

O esforço de manter as ilusões cobrava seu preço.

 

Ao redor do grande salão, os convidados permaneciam imóveis. Com exceção daqueles que já conheciam parte do que estava para acontecer, todos contemplavam, entre o fascínio e o receio, a figura do Conde Morcego.

 

Mesmo aqueles que sabiam da existência de antigos dons jamais haviam presenciado algo semelhante. Para muitos, era um momento de profunda admiração. Para outros, despertava um temor difícil de esconder.

 

Algumas damas aproximavam-se discretamente umas das outras.

— Santa misericórdia... — Então era verdade...

Um velho cavaleiro apertou involuntariamente o punho da espada. Sem intenção de desembainhá-la. Apenas por reflexo.

 

Outros permaneciam absolutamente encantados. Os homens simples vindos das vilas olhavam para o Conde como quem presencia um milagre.

Nem todos, entretanto, reagiam da mesma maneira.

Dois jovens nobres trocaram discretamente algumas palavras.

— Fantasia muito bem construída...

O outro sorriu com certo desdém. — Sem dúvida alguma.

Mas um terceiro, mais velho, mantinha os olhos fixos nas enormes asas.

 

Conhecia o suficiente da corte para compreender que nenhum artífice seria capaz de criar algo tão perfeito.

Em silêncio, começou a imaginar como relataria ao Rei que o respeitado Conde Morcego, homem protegido pela própria Coroa, talvez fosse realmente aquilo que tantos julgavam impossível.

Enquanto isso, a Condessa tomou a única atitude que lhe pareceu sensata.

Aproximou-se lentamente. Em voz baixa, falou apenas para o Conde.

 

— Meu querido... recolhei vossas asas. Não desejo que esta noite seja lembrada pelo medo.

O Conde apenas inclinou respeitosamente a cabeça.

As grandes asas recolheram-se lentamente, desaparecendo sob o elaborado traje negro, como se jamais houvessem existido.

A Condessa voltou imediatamente sua atenção para Erivas.

A Guardiã encontrava-se visivelmente abatida. Seu semblante perdera parte do brilho habitual.

— Erivas... Falou aproximando-se.

— Minha nobre amiga... não vos pareceis bem.

Erivas tentou sorrir.

 

Antes que pudesse responder, o Conde explicou serenamente.

— Foi ela quem sustentou todas as ilusões esta noite.

A Condessa voltou o olhar para ele. Como falasse é impossível.

O Conde prosseguiu.

 

— Enquanto todos contemplavam o baile, Erivas manteve ocultas todas as ornamentações que preparastes para este castelo.

A Condessa permaneceu em silêncio.

— Também preservou minha aparência para que eu pudesse sobrevoar o castelo sem ser reconhecido.

 

Ela lembrou que quase o atacou.

— E foi ela quem sustentou a ilusão das chamas sobre a nau do Conde Lucas, para que ele pudesse ser conduzido até a homenagem preparada em honra de seu dia.

A Condessa olhou novamente para Erivas.

Compreendeu, enfim, o tamanho do sacrifício realizado pela amiga.

Erivas voltou-se discretamente para o Conde.

 

— Procurai a Marquesa Juli Lima...

Respirou profundamente antes de continuar.

O Conde fez uma breve reverência.

Antes, porém, respondeu à Condessa.

— Está tudo bem.

Depois apontou discretamente para os convidados.

— Olhai para eles.

Para muitos, tudo isto não passa de elaboradas fantasias.

Parte desta grande celebração.

Peço licença. E saiu.

 

No centro do salão permaneceram apenas as duas.

A Condessa. E a Guardiã.

Durante alguns instantes nenhuma delas pronunciou palavra.

Limitavam-se a olhar uma para a outra. Como se ambas compreendessem exatamente o pensamento da outra.

 

Então, ao mesmo instante, falaram juntas.

— Então apresentarei a grande homenageada.

— Então só resta apresentar a grande homenageada.

 

As duas interromperam a fala. Olharam-se novamente. Sorriram.

Naquele exato instante, os primeiros acordes da música começaram a preencher o grande salão.

 

Durante toda a noite, a Condessa A Morcega não havia visto o Marquês.

Em seu íntimo, imaginava apenas uma possibilidade.

"Certamente fará uma entrada extravagante..."

Talvez realmente fosse extravagante.

Não necessariamente sua entrada.

Mas a notícia que carregava consigo.

 

O lugar onde o Marquês realmente deveria estar era o próprio Castelo de Erivas.

Assim que chegou, dirigiu-se imediatamente ao encontro do Corvo do Silêncio.

Falou-lhe discretamente sobre os sinais observados no céu.

Sobre a formação das pedras. Sobre aquilo que começava a temer.

Os dois permaneceram alguns instantes observando o salão do alto de uma galeria.

 

Dali podiam ver perfeitamente a Guardiã.

— Receio que não haverá tempo para que ela recupere as forças.

O Corvo apenas ouviu.

Depois seus olhos encontraram a Condessa A Morcega.

Vestindo exatamente o mesmo traje descrito na trigésima terceira página do antigo livro preservado pela Ordem.

 

O Marquês falou.

— Todos estão aqui.

O Corvo compreendeu imediatamente.

Sabia exatamente ao que ele se referia.

Então respondeu.

 

— Aquilo que tantos consideravam apenas um mito... pode tornar-se hoje o verdadeiro princípio de tudo.

O Marquês assentiu.

— Avisai Anna.

Tenho de falar com os guerreiros. E com a Calculista.

 

O Corvo partiu imediatamente. No caminho, encontrou o Conde Lucas. Depois o Duque Felipe Félix. A Poetisa dos Astros.

Todos seguiram silenciosamente atrás dele até uma antiga ala construída acima do grande salão, cuja varanda oferecia ampla vista para o Atlântico.

Enquanto isso, no salão principal, a Odalisca regressava.

Seu novo traje era ainda mais refinado.

 

Tecidos de seda negra e dourada envolviam delicadamente o corpo, presos por um cinturão de finíssima filigrana. Véus transparentes acompanhavam cada movimento dos braços, enquanto pequenas moedas de ouro antigo e cristais escuros cintilavam sob a luz das velas.

Descalça, percorria lentamente o centro do salão. Seus movimentos eram suaves. Circulares. Elegantes. Ora lembravam as ondas do mar. Ora o voo silencioso de um morcego sob a lua.

 

Cada gesto parecia dialogar com a melodia executada pela Marquesa Juli Lima.

Aquela composição fora solicitada exclusivamente pelo Marquês A Sales.

Nenhuma outra serviria para o momento que se aproximava.

Sem que a Condessa A Morcega percebesse, Erivas voltou discretamente o olhar para a cantora.

Fez apenas um pequeno aceno.

 

A Marquesa compreendeu imediatamente.

Erivas respirou profundamente.

Então sua voz elevou-se por todo o seu castelo.

— Senhoras... Fez uma breve pausa. — Senhores... A música silenciou.

Ela continuou.

 

— Nobres... e valorosos cavaleiros aqui presentes...

E todo o castelo pareceu prender a respiração, aguardando as palavras que dariam início ao momento mais aguardado daquela inesquecível noite.

 

Continua...

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Enviado por A Sales em 07/08/2026
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