A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Castelo de Erivas (Homenagem) Parte 13

Quando a Condessa A Morcega retornou ao Castelo de Erivas, recolheu cuidadosamente suas grandes asas por entre as elaboradas vestes, ocultando-as sob o refinado traje negro que usava naquela noite. Em seguida, atravessou silenciosamente a mesma janela que havia pra ver do se tratava o grande clarão que tirou todos do salão.

 

Assim que seus pés tocaram novamente o piso de pedra polida, permaneceu imóvel. A visão diante de seus olhos fez com que esquecesse, por alguns instantes, até mesmo de respirar.

O salão já não guardava qualquer lembrança daquele ambiente sombrio que, lhe parecera abandonado pelo tempo.

 

Tudo resplandecia.

 

As altas colunas de granito estavam revestidas por longas tapeçarias negras e vinho profundo, ricamente bordadas com luas crescentes, delicados morcegos heráldicos, antigas runas esculpidas em fios de ouro envelhecido e discretos ramos de hera que serpenteavam entre os tecidos.

 

Grandes lustres de ferro forjado sustentavam centenas de velas, cuja luz dourada dançava sobre os vitrais góticos, colorindo o salão com reflexos rubros, azulados e prateados.

 

Ao longo das paredes, esculturas cuidadosamente trabalhadas alternavam, luas, flores noturnas e símbolos pertencentes à antiga Ordem da qual a Condessa fizera parte em sua juventude.

 

Próximo ao centro do salão, sobre um elegante pedestal de mármore branco iluminado por delicadas lamparinas, erguia-se uma primorosa representação da Vênus de Médeci, ladeada por dois grandes castiçais ornamentados com rosas negras e lírios brancos.

 

O teto era cruzado por vigas de carvalho entalhadas com antigas inscrições rúnicas, enquanto longos estandartes pendiam das galerias superiores, conferindo ao ambiente a imponência dos grandes salões da nobreza portuguesa.

 

Cada detalhe parecia celebrar exatamente aquilo que a Condessa sempre amara.

O gótico. O mistério. A elegância. E principalmente a noite.

 

Ela caminhou lentamente. Passava a mão sobre uma tapeçaria. Observava um candelabro. Sorria discretamente ao reconhecer antigos símbolos de sua Ordem.

 

Não compreendia como tudo ali mudará tão misteriosamente. Mas admirava.

 

Ao redor, todos aguardavam o grande momento anunciado pela própria Condessa durante as apresentações.

 

Para alguns poucos convidados de fora do círculo mais íntimo de convidados, toda aquela magnífica ornamentação parecia destinada a homenagear Sua Majestade, o Rei de Portugal.

 

Entretanto, os amigos mais próximos conheciam a verdade. Sabiam exatamente quem seria a verdadeira homenageada daquela noite.

 

Enquanto a Condessa caminhava maravilhada pelo salão, os convidados observavam discretamente sua reação.

 

— Vede. Falava uma dama da corte. — Ela contempla tudo como se também fosse a primeira vez.

— Porque realmente é. — respondeu baixinho a Poetisa dos Astros. Conhecida Duquesa Suzete Palitos muito ilustre e respeitada em seu condado por seus escritos entre eles o poema “Dispa-me” escrito a pedido de uma nobre dama para declamar nos teatros onde participava.

O Duque Felipe Félix sorriu.

— Há homenagens que somente alcançam o coração quando surpreendem quem as merece.

O Mestre das Interações permaneceu em silêncio. Seu olhar dizia mais que qualquer verso.

 

A Madre Superiora continuava procurando por Élise. Percorria calmamente o salão. Até aproximar-se das cinco figuras que haviam entrado pouco antes, acompanhadas por Dom Lourenço de Vilar.

Parou diante daquela que, pela postura serena e pela ausência do tradicional capuz, claramente parecia liderar o pequeno grupo.

 

A mulher possuía semblante tranquilo. Os cabelos caíam ordenadamente sobre os ombros. Seu porte transmitia a precisão de alguém acostumado a encontrar ordem mesmo onde outros enxergavam apenas acaso.

 

A Madre inclinou respeitosamente a cabeça.

 

— Perdoai-me, senhora. Não teríeis visto uma jovem freira neste salão?

A mulher respondeu com voz calma.

 

— Creio que Vossa Reverência procura a jovem trajando um hábito religioso.

A Madre assentiu.

 

— Vi-a passar há poucos instantes pelo portal principal pelo qual entramos.

A Madre voltou discretamente o olhar para a entrada do castelo.

Pensou em segui-la. Entretanto, a noite já avançava. Decidiu permanecer em no castelo, alimentando a esperança de reencontrá-la ao romper da manhã.

 

Ainda completamente encantada, a Condessa continuava caminhando entre os convidados.

Foi então que algo inesperado aconteceu. A pulseira de obsidiana entregue por sua governanta horas antes começou novamente a emitir um suave brilho.

Não era o mesmo de antes.

 

Agora a luz possuía delicados reflexos prateados que lentamente mergulhavam em tonalidades negras, semelhantes ao brilho da lua refletida sobre águas profundas.

 

Sem perceber a origem daquela luz, a Condessa continuou andando.

 

Pouco a pouco, seu vestido começou a transformar-se. A mudança iniciava discretamente junto à barra da longa saia.

 

Os tecidos antigos pareciam dissolver-se em pequenas partículas luminosas, semelhantes a diminutos fragmentos de prata levados por um vento invisível.

Então, diante dos olhos de todos, um novo vestido começou a surgir.

A transformação acontecia lentamente, como se mãos invisíveis bordassem cada detalhe diretamente sobre seu corpo.

Primeiro nasceu a nova saia. Dividida perfeitamente ao meio por uma elegante linha vertical, parecia unir duas histórias distintas em uma única criação.

 

O lado esquerdo surgia revestido por profundo veludo carmesim enriquecido por brocado dourado. Pouco a pouco formava-se um corpete justo com delicado decote em formato de coração. Sobre ele apareciam refinados trabalhos de filigrana dourada, desenhando cálices, corações e delicados motivos florais, como se antigos artesãos da corte portuguesa os estivessem gravando naquele exato instante.

A ampla saia do mesmo lado adquiria volume nobre. Um rico painel central em brocado dourado era lentamente envolvido pelo veludo carmesim, enquanto bordados em fios de ouro desenhavam elegantes volutas entrelaçadas por cálices e corações.

 

Por fim, uma longa luva de ópera, confeccionada no mesmo veludo rubro, revestiu completamente o braço esquerdo da Condessa.

Ao mesmo tempo, o lado direito iniciava sua própria transformação. O veludo negro surgia primeiro. Depois apareciam delicadas faixas de couro ricamente texturizado.

 

O corpete recebia intrincados trabalhos em filigrana prateada e negra, formando luas crescentes, corações alados e discretos morcegos trabalhados em metal escuro, ornamentados por pequenas pedras cristalinas que refletiam a luz das velas.

A saia assumia um desenho assimétrico em elegantes camadas. Um amplo painel de couro modelado como uma asa de morcego surgia lentamente, recebendo pequenas gemas negras e delicadas luas crescentes incrustadas sobre sua superfície.

 

Na barra inferior, bordados góticos de extraordinária riqueza começavam a desenhar pequenas cruzes ornamentais, luas e antigos símbolos entrelaçados.

Runas delicadamente prateadas desenhavam-se sobre o veludo negro.

A transformação avançava lentamente. Da barra. À cintura. Do corpete. Às mangas.

Então os acessórios começaram igualmente a nascer.

 

Uma delicada máscara de filigrana em metal negro surgiu sobre a parte superior de seu rosto. Suas formas lembravam elegantes asas de morcego estilizadas, integrando-se perfeitamente ao novo traje.

Ao redor de seu pescoço formou-se uma gargantilha gótica em metal escuro, sustentando ao centro um pequeno pingente em forma de morcego cravejado por discretas pedras escuras.

Atrás do pescoço elevou-se uma alta gola estruturada de renda negra, conferindo ainda mais imponência à composição.

As grandes asas permaneceram completamente fechadas junto às costas, ocultas pela própria arquitetura do novo vestido. À distância, pareciam apenas parte da elaborada fantasia criada para aquela noite.

 

Por fim, pequenas partículas luminosas reuniram-se sobre sua mão direita.

Quando a última centelha desapareceu, toda a energia voltou silenciosamente para a pulseira de obsidiana.

 

No grande salão instalou-se um silêncio absoluto. Ninguém ousava respirar. Todos contemplavam, maravilhados, a mais extraordinária transformação que seus olhos já havia testemunhado.

 

A Condessa parou exatamente no centro do salão.

Baixou lentamente os olhos. Acompanhava cada mudança com sincera admiração. Levou a mão ao próprio peito. Depois às mangas. Sorriu. Era impossível esconder o encanto.

 

— Vede!

— Por todos os santos...

— Nunca presenciei semelhante prodígio...

— A própria veste está sendo tecida diante de nossos olhos!

— É magia antiga...

— Não...

— É beleza...

 

As vozes espalhavam-se pelo salão. Ninguém ousava aproximar-se.

O brilho envolvia completamente a Condessa.

Seu vestido transformava-se numa verdadeira obra de arte inspirada no gótico português.

Veludo negro. Detalhes em prata envelhecida.

O brilho continuou subindo. Alcançou os ombros. Depois os cabelos.

Por fim, uma última onda luminosa percorreu toda a roupa.

Silenciosamente.

Toda aquela energia retornou para a pulseira de obsidiana.

 

O salão mergulhou em absoluto silêncio.

Ninguém respirava.

Durante alguns instantes parecia que o próprio tempo aguardava.

Então...

 

Uma única palma soou. Logo outra. Depois dezenas.

Em poucos segundos todo o Castelo de Erivas foi tomado por uma longa salva de aplausos.

 

A Condessa permanecia imóvel. Os olhos marejados. Sem conseguir compreender plenamente o que acabara de acontecer.

 

Na residência do Marquês A Sales, o silêncio permanecia absoluto.

Após estudar novamente os antigos calendários, os mapas astrais e os pergaminhos reunidos sobre a mesa, chegou a uma conclusão inquietante.

Algo grandioso estava prestes a acontecer. Voltou-se novamente para a janela.

Ergueu o olhar.

 

— A Constelação de Leão agora era visível por completo... Falou para si.

Retornou lentamente até sua grande mesa de estudos. Sob ela havia um discreto compartimento oculto. Introduziu uma pequena chaveta de bronze numa fechadura quase invisível.

A tampa abriu-se lentamente.

 

No interior repousava uma pequena caixa de madeira escurecida pelo tempo.

As laterais exibiam cuidadosamente entalhado o antigo símbolo da Ordem dos Corvos do Véu.

Na tampa, quase imperceptível, pequenos pontos de prata desenhavam a Constelação de Leão.

O Marquês pousou delicadamente a mão sobre a caixa.

 

Sabia que somente poderia abri-la quando os doze elementos finalmente se alinhassem no mesmo lugar.

E tinha absoluta convicção de que o Castelo de Erivas era o ponto geográfico mencionado nas antigas profecias.

Mais ainda.

 

A chegada da Calculista e de seus quatro companheiros exatamente naquela noite representava, para ele, a confirmação que aguardara durante tantos anos.

Ainda assim... Algo permanecia incompreensível.

 

Nem mesmo sua capacidade de transitar entre mundos lhe oferecia todas as respostas.

Respirou profundamente.

— Pensarei nisso depois... Agora... preciso estar em outro lugar.

 

Momentos antes da transformação da roupa da Condessa, Anna observara sua senhora parada junto à grande janela, completamente maravilhada diante da inexplicável mudança ocorrida no castelo.

A governanta aproximou-se discretamente.

 

— Senhora...

Venha.

 

Todos vos aguardam. A Condessa sorriu. Permitiu ser conduzida.

 

Quando passou ao seu lado, Anna retirou discretamente da manga uma pequena runa antiga.

Conforme lhe orientara Corvo do Silêncio.

 

Sem que a Condessa percebesse, tocou suavemente a pedra na pulseira de obsidiana e tudo começou.

A runa brilhou apenas por um instante. Depois desapareceu.

Exatamente como o Corvo previra.

 

Nesse mesmo instante, um leve movimento chamou a atenção dos convidados.

Lá no alto. Junto à grande janela construída no teto do salão. Uma imensa figura alada atravessou silenciosamente a abertura. As enormes asas negras cortaram o ar com elegância.

 

Durante alguns instantes sobrevoou lentamente todo o salão.

Então iniciou a descida.

 

Sob o olhar maravilhado de todos os presentes, o Conde Morcego pousou suavemente diante da Condessa A Morcega.

 

Continua...

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Enviado por A Sales em 07/08/2026
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  Um livro poético escrito em sonetos que te leva desde a amizade, passando pela paixão até o amor. Uma viagem nestes sentimentos com uma escrita leve, senssivel e compreenssivel.

Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

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Este livro é um mergulho no espaço entre as vozes,
nas pausas, nos gestos interrompidos,
e nas emoções que o silêncio guarda.