A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato
Textos

 

Castelo de Erivas (Homenagem) Parte - 12

Tudo aquilo que o Marquês A Sales e Corvo do Silêncio haviam presenciado como Viajantes do Tempo jamais deixara verdadeiramente seus pensamentos.

Em um futuro muito distante, ambos contemplaram uma grande batalha travada sobre a Colina de Ellenshade entre duas grandes forças. Desde o início desta noite, o Marquês alimentava a inquietante sensação de que o castelo de Erivas poderia ser o lugar onde toda a grande rebelião que, lá em Ellenshade teve seu fim.

 

O castelo poderia sim, ser o grande começo de tudo.

Sobre a ampla mesa de carvalho de sua residência repousavam antigos calendários, mapas astrais cuidadosamente desenhados por sábios de gerações passadas e um grande mapa geográfico da região costeira onde se erguia o Castelo de Erivas.

Todos os elementos de cada um dos signos estava ali. Seu olhar se fixou no mapa astral no canto da mesa.

O castelo aparecia desenhado sobre um promontório voltado para o Atlântico, cercado por altas falésias, bosques antigos e um pequeno ancoradouro natural, onde fora construído o porto para embarcações vindas ao castelo. Uma longa estrada de pedra serpenteava pelas colinas até alcançar os grandes portões da fortaleza.

O Marquês percorreu lentamente aquelas linhas do mapa astral com a ponta dos dedos.

Depois voltou-se para a janela.

 

Na hora em que os sinos dos mosteiros anunciavam a aproximação da décima primeira badalada da noite, quando as últimas vigílias substituíam o movimento das aldeias pelo silêncio próprio das horas tardias, ergueu novamente os olhos para o céu.

As nuvens densas começavam lentamente a dissipar-se. Entre elas, uma constelação assumia forma cada vez mais definida.

O Marquês permaneceu imóvel. Seu olhar revelava mais preocupação do que admiração.

 

No Castelo de Erivas, o Conde Morcego percebeu que a Guardiã já não sustentaria por muito mais tempo o peso de seus antigos encantamentos.

Erivas permanecia recolhida sobre uma estreita varanda de pedra construída na parte mais elevada das muralhas voltadas para o pequeno porto. Dali podia controlar a ilusão da nau, ocultar a verdadeira ornamentação do castelo e preservar o disfarce concedido ao próprio Conde Morcego.

Sua respiração tornava-se difícil. O rosto revelava o enorme desgaste.

 

O Conde aproximou-se em voo silencioso e pousou ao seu lado.

— Guardiã... Ela sorriu discretamente.

— Ainda preciso ver apenas uma coisa.

O Conde compreendeu imediatamente.

Não era curiosidade. Era uma promessa.

Anos antes, uma Guardiã lhe falara de uma jovem chamada Élise.

 

Pouco tempo depois, essa mesma companheira tombara em combate, vencida pelos ferimentos sofridos durante a batalha contra as Feiticeiras do Fogo, justamente o único elemento capaz de romper a resistência de sua natureza.

Antes de partir, confiara apenas um pedido a Erivas. Que, um dia, se encontrasse Élise, contemplasse com os próprios olhos aquilo que tantos diziam a seu respeito.

Era essa promessa que sustentava suas últimas forças.

 

Élise concluiu a leitura da carta. O plano cuidadosamente elaborado pelo Marquês seguia exatamente como previsto.

Entretanto, a Guardiã também possuía um plano. Assim como a própria jovem freira.

Reunindo o pouco da antiga magia que ainda lhe restava, Erivas lançou um discreto feitiço ligado ao fluxo do tempo.

Em outro lugar no castelo, Corvo do Silêncio percebeu imediatamente a alteração.

 

Uma leve brisa nasceu sobre o mar. Inicialmente delicada. Depois tornou-se um pouco mais intensa. Não suficiente para assustar os presentes. Apenas forte o bastante para conduzir até todos a essência de Élise e o som de suas palavras.

Então Erivas fez um discreto gesto. Élise retirou lentamente a máscara. Foi como se alguém levantasse a tampa de um grande frasco contendo o mais raro perfume já criado contagiando todo o lugar com a fragrância.

 

Mas, Élise não era qualquer frasco de perfume, era essência pura.

Era sua presença. Era sua voz. Era o simples ato de ouvir suas palavras.

Sem a máscara, a jovem retirou cuidadosamente um pequeno papel que sempre mantinha escondido entre as dobras de sua vestimenta.

Ao lado da Guardiã, o Conde Morcego contemplava a cena em absoluto silêncio.

Tudo aquilo que ouvira da guardião sobre Élise até aquele momento, era verdadeiro.

 

Erivas não desejava assistir a uma nova odisseia de desejos ocultos sendo revelados e explorados. Seu único propósito era cumprir a promessa feita à Guardiã que perdera a vida.

E ela pode ver com os próprios olhos como a jovem apenas com sua presença causava nas pessoas. 

Então, usando as últimas reservas de sua antiga força, alterou novamente o sentido da brisa.

O vento mudou de direção. O encantamento de Élise perdeu sua força, dissipou-se.

Os presentes despertaram lentamente daquela estranha sensação que por instantes parecera envolver seus pensamentos.

Algo semelhante aconteceu na cidade de Grasse, em 1738, episódio que ficaria marcado no coração da França como A Cena da Orgia, provocada pelo aprendiz de perfumista justamente no dia destinado à sua execução pública.

 

Naquele instante, porém, Élise compreendeu plenamente a natureza de seu dom. Como a fraqueza que o acompanha.

Não eram apenas seu corpo ou suas palavras. Bastava que sua essência alcançasse as pessoas para que seus desejos mais profundos procurassem vir à tona.

 

Os convidados voltaram lentamente a si. Olhavam discretamente uns para os outros. Alguns desviavam os olhos, constrangidos, como se temessem que alguém tivesse percebido pensamentos que jamais pretendiam revelar.

Outros respiravam profundamente antes de retomarem a serenidade.

 

Foi então que a voz firme de Anna rompeu o silêncio.

— Meus senhores... minhas senhoras... retornemos ao Castelo de Erivas.

Pouco a pouco, todos seguiram em direção às grandes portas.

Nenhum olhar comum percebeu exatamente quando a antiga ilusão desapareceu.

A fortaleza que momentos antes lembrava um velho mausoléu abandonado pelo tempo agora resplandecia em toda a sua magnificência.

As muralhas estavam iluminadas por incontáveis archotes.

Grandes tapeçarias negras e vinho profundo desciam das torres, bordadas com delicados elementos inspirados no gótico português.

 

Rosáceas entalhadas, vitrais coloridos, esculturas de pedra, arranjos de lírios, heras cuidadosamente dispostas, candelabros de ferro forjado e centenas de velas transformavam corredores, escadarias, galerias e o grande salão.

Toda a ornamentação, tanto no exterior quanto no interior do castelo, fora concebida para a homenageada da noite.

 

Elegante. Suntuosa. Solene. Perfeitamente inspirada na imponência do gótico português.

Enquanto os convidados admiravam maravilhados aquela transformação, a Madre Superiora voltou-se para o pequeno palco improvisado no Porto.

 

Seu olhar percorreu lentamente o local. Franziu discretamente a testa.

— Élise... Nenhuma resposta.

Olhou outra vez ao redor. A jovem desaparecera logo após quase contagiar todos os presentes com a força silenciosa de sua própria essência.

 

Continua...

A Sales
Enviado por A Sales em 04/08/2026
Alterado em 06/08/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários

  Um livro poético escrito em sonetos que te leva desde a amizade, passando pela paixão até o amor. Uma viagem nestes sentimentos com uma escrita leve, senssivel e compreenssivel.

Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

Há palavras que nunca foram ditas,
e, mesmo assim, soam dentro de nós.
Este livro é um mergulho no espaço entre as vozes,
nas pausas, nos gestos interrompidos,
e nas emoções que o silêncio guarda.