
Do alto do céu, sustentada pelo vigor de suas grandes asas negras, a Condessa A Morcega observava cada detalhe do que acontecia junto ao pequeno porto improvisado do castelo para a nau do conde Lucas.
Nenhum movimento lhe escapava. A noite estava límpida.
A luz da lua desenhava prateados reflexos sobre o Atlântico enquanto a multidão permanecia em absoluto silêncio diante da leitura conduzida por Élise.
Quando a jovem concluiu a carta de Sua Majestade, dois marinheiros aproximaram-se do Conde Lucas Louis trazendo um pesado cofre revestido de carvalho e ferragens douradas.
O Capitão recebeu o objeto com solenidade.
Abriu-o diante de todos.
No seu interior repousava um pergaminho de fina manufatura, preso por um largo selo de cera vermelha onde se via o brasão da Coroa de França.
Ao lado, cuidadosamente acomodadas sobre um tecido de veludo azul profundo, encontravam-se as insígnias da mais elevada distinção concedida pela Coroa aos homens dedicados ao bem comum.
O Capitão entregou ao Conde.
Desenrolou lentamente o pergaminho.
— Reconhecendo não apenas o extraordinário saber de Vossa Senhoria como Físico-Mor, mas sobretudo a generosidade com que dedica vosso tempo à cura daqueles que nada possuem, a Coroa vos concede esta Carta de Mercê, perpetuando vosso nome entre os Benfeitores do Reino.
O silêncio tornou-se ainda mais profundo.
O Conde prosseguiu com a leitura.
— E, rompendo tradição preservada por muitas gerações, Sua Majestade estende igual honra à vossa digníssima esposa, reconhecendo-a como a primeira dama do Reino a compartilhar semelhante distinção, exemplo de lealdade, coragem e serviço à Coroa.
A Condessa da Ilha de France levou discretamente a mão aos lábios.
Jamais esperara semelhante reconhecimento.
O Conde Lucas voltou-se para ela. Seus olhos diziam mais do que qualquer palavra. Diziam: “Seguimos juntos pela mesma estrada”
Acima deles, a Condessa A Morcega sorriu emocionada.
Pouco a pouco, os convidados começaram a regressar ao castelo.
As conversas renasciam. O brilho das tochas iluminava novamente a longa estrada de pedra.
Foi então que a Condessa se lembrou.
— Erivas...
A verdadeira homenagem ainda estava por acontecer.
Preparou-se para retornar para o castelo antes que todos a pudessem ver.
Mas seus sentidos, sempre atentos, desviaram inesperadamente seu olhar para o extremo da estrada principal.
Próximo ao primeiro portão de acesso às terras do castelo, cinco figuras caminhavam rumo a estrada de acesso.
Andarilhos. Pensou a Condessa.
Vestiam longos mantos negros confeccionados em pesada lã, cujos amplos capuzes ocultavam completamente os rostos. Os mangas largas escondiam as mãos, e as vestes desciam até quase tocar o chão, confundindo-se com a própria sombra da noite.
Não carregavam estandartes. Nem tochas. Nem cavalos. Apenas caminhavam silenciosamente.
A Condessa franziu discretamente a testa.
“Ou talvez mais uma surpresa preparada pelo Marquês..."
Resolveu nada comentar por enquanto.
Com movimentos suaves, voltou a bater as asas.
Seu voo elegante conduziu-a novamente às altas janelas do Castelo de Erivas.
Entrou no salão exatamente como dele havia saído. Sem que ninguém percebesse.
E quando recolhe suas asas por entre a vestimenta e visualiza o salão. Ela fica sem palavras.
No pequeno porto, tudo acontecia exatamente conforme o Marquês planejara. Muito antes daquela noite, na carta entregue lacrada pelo Conde Lucas Louis à Madre Superiora.
Assim que Élise iniciasse a leitura diante dos convidados, a Madre deveria avisar discretamente Dom Lourenço de Vilar. O fiel Mordomo-Mor, por sua vez, transmitiria imediatamente o sinal à Guardiã Erivas que começasse a desfazer a ilusão.
E assim aconteceu. No exato instante em que Élise começou a leitura, Dom Lourenço inclinou discretamente a cabeça.
Erivas compreendeu. Sem mover um único dedo, concentrou-se. As chamas começaram lentamente a perder intensidade.
Os gritos desesperados do Capitão cessaram. Os marinheiros diminuíram a agitação. Os baldes deixaram de circular. Pouco a pouco, a ilusão desaparecia. A nau surgia novamente intacta. Majestosa. Ancorada tranquilamente junto ao pequeno porto improvisado.
Os próprios convidados contemplavam maravilhados o desaparecimento do incêndio. Nenhum deles compreendia exatamente o que acabara de testemunhar.
Mas a Guardiã pagava um alto preço. Sustentar simultaneamente a ilusão da nau incendiada, ocultar a verdadeira ornamentação do Castelo de Erivas e preservar o disfarce do Conde Morcego consumia quase toda a energia herdada de seus ancestrais.
Sua respiração tornou-se pesada. Por um breve instante precisou apoiar discretamente a mão sobre uma antiga coluna de pedra.
Mas tudo corria perfeitamente. Entretanto...
Havia algo que o próprio Marquês jamais poderia prever.
Por mais cuidadoso que fosse um plano, existiam acontecimentos que escolhiam nascer por vontade própria.
O plano possuía os seus próprios planos.
A intenção inicial era simples.
Atendendo a um antigo pedido da Guardiã Erivas, o Marquês providenciaria a presença de Élise naquela noite.
Anos antes, Erivas viajara até a cidade francesa de Lyon.
Ali reunira-se com outras Guardiãs para enfrentar uma antiga confraria conhecida pelas crônicas como a Ordem das Feiticeiras do Fogo, cujos rituais espalhavam medo pelas pequenas vilas da região.
Após a vitória, uma das Guardiãs mencionara uma menina muito jovem. Ainda distante da idade adulta.
Filha de gente simples. Que ajudava o tio em um mercado de peixes.
Contavam que bastava sua presença para despertar nos homens aquilo que por anos permanecera oculto em seus próprios corações.
Seu nome era Élise. E a solução encontrada pelos tios já sem condição de cuida da menina, foi levar para o convento. Desde aquele dia, Erivas desejava conhecê-la.
O Marquês A Sales pediu ao Conde Lucas que fosse ao convento com o pedido e a carta selada para a Madri Superiora.
Tudo acontecera exatamente como previsto.
Até que...
Na residência do Marquês A Sales, distante do castelo e do tumulto daquela noite memorável, reinava absoluto silêncio.
Sobre uma ampla mesa de nogueira encontrava-se aberto um antigo mapa, do lado um pergaminho já marcado pelo tempo.
Símbolos antigos. Constelações. Rotas marítimas. Anotações escritas em diferentes idiomas.
O Marquês observava atentamente cada traço. Depois caminhou lentamente até a janela. Ergueu o olhar para o céu. As nuvens moviam-se muito devagar. Entre elas, algumas estrelas começavam discretamente a ocupar posições que não figuravam em nenhum dos mapas conhecidos.
Quase imperceptível... Ele via algo se formando que simplesmente pensou ser estrelas na noite.
Continua...