A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Castelo de Erivas (Homenagem) Parte - 10

 

O silêncio dominava o pequeno porto improvisado.

 

As chamas continuavam consumindo a proa da nau, enquanto os marinheiros aparentavam combatê-las com vigor. Entre a fumaça e o reflexo alaranjado do fogo sobre o mar, Élise desenrolou cuidadosamente o pergaminho.

 

Sua voz era firme. Serena. Cada palavra parecia atravessar o vento da noite.

 

— Carta de Sua Majestade ao Excelentíssimo Conde Lucas Louis.

 

O Conde ergueu lentamente o olhar.

Jamais esperara semelhante homenagem.

 

Élise prosseguiu.

 

— Nobre Conde Lucas Louis,

 

Não me será possível estar presente nesta memorável celebração para pronunciar estas palavras diante de Vossa Senhoria. Contudo, se minha presença é impedida pelos deveres da Coroa, minhas palavras seguem em meu lugar.

 

Recebei-as como sincera homenagem neste dia em que vosso nome é celebrado.

 

Muito além de um ilustre Físico-Mor, mestre na delicada arte de restaurar vidas, sois um homem cuja verdadeira nobreza se revela nas escolhas que faz. Enquanto muitos empregam o saber para alcançar prestígio, Vossa Senhoria dedica suas horas, sua inteligência e suas mãos ao ofício para o qual foi chamado: a sagrada arte de curar.

 

Também soube que, como poeta, buscais a sinceridade em cada verso, compreendendo que a palavra possui força semelhante à da lâmina do cirurgião. Ambas podem ferir; contudo, quando guiadas pela sabedoria, recebem de Deus o mais elevado dos poderes: consolar, abraçar e restaurar.

 

Nenhum ruído interrompia a leitura.

 

Até mesmo o estalar da madeira em chamas parecia diminuir diante da solenidade daquele instante.

Élise continuou.

 

— Foi, porém, uma de vossas próprias afirmações que mais dignamente revelou o homem que sois:

"Por isso, reservo dois dias de cada oitava para atender, sem qualquer recompensa, aqueles que não possuem meios para custear a delicada arte da cirurgia, oferecendo-lhes o saber que Deus colocou em minhas mãos."

 

— Nenhum brasão é mais valioso que semelhante testemunho.

 

O olhar do Conde baixou discretamente.

 

Sua esposa segurou-lhe a mão.

 

A Condessa da Ilha de France compreendia que aquelas palavras valiam mais do que qualquer honraria. Era como se fossem ditas para ela, pois tinha o mesmo oficio do Conde.

 

Élise prosseguiu.

 

— Nobre Conde, ainda que outros acrescentem honrarias à vossa biografia, são vossas próprias palavras que revelam quem verdadeiramente sois. Vossos poemas são arte. Vossas falas por todo o reino refletem conhecimento. Vossas atitudes testemunham caráter. E isso... é verdadeira nobreza.

 

Alguns dos homens simples presentes emocionaram-se.

 

Um velho pescador retirou lentamente o chapéu.

 

Até o Duque Felipe Félix mantinha os olhos fixos no Conde.

 

A leitura aproximava-se do fim.

 

— Assim, para não romper a tradição desta nobre noite, desejo-vos um feliz dia de vosso nome, com votos sinceros de saúde, paz e alegrias junto à vossa família.

 

Fez uma breve pausa. Olhou para todos... Para o Conde.

 

Então sorriu discretamente.

 

— Agora peço que não vos preocupeis com vossa embarcação. Tudo o que vedes é apenas um pequeno atraso, necessário para que vossos marinheiros vos tragam aquilo que, há muito, já vos era devido.

 

— Por Sua Majestade, Rei da França.

 

O pergaminho foi lentamente fechado. Todos permaneceram imóveis.

 

Élise já conhecia aquela parte do plano.

 

Antes mesmo da viagem, o Capitão recebera instruções detalhadas do Marquês A Sales.

 

Então... Aconteceu o que a Madri não gostaria que acontecesse.

 

Élise retirou cuidadosamente a delicada máscara de renda que ocultava seus olhos.

Era o sinal esperado pelo Capitão.

Naquele exato instante, algo mudou.

 

No alto das muralhas, muito acima de todos, a Condessa A Morcega permanecia ao lado do Conde Morcego. Aquilo que começara como um quase combate entre os dois terminava agora em absoluto silêncio.

 

O Conde retirou do bolso um pequeno lenço de linho branco, finamente bordado. Sem dizer palavra alguma, entregou-o à Condessa. Ela aceitou o gesto.

 

Somente então percebeu que as lágrimas, discretamente, já haviam encontrado o caminho de seu rosto.

 

Continua...

A Sales
Enviado por A Sales em 02/08/2026
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Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

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Este livro é um mergulho no espaço entre as vozes,
nas pausas, nos gestos interrompidos,
e nas emoções que o silêncio guarda.