
O silêncio dominava o pequeno porto improvisado.
As chamas continuavam consumindo a proa da nau, enquanto os marinheiros aparentavam combatê-las com vigor. Entre a fumaça e o reflexo alaranjado do fogo sobre o mar, Élise desenrolou cuidadosamente o pergaminho.
Sua voz era firme. Serena. Cada palavra parecia atravessar o vento da noite.
— Carta de Sua Majestade ao Excelentíssimo Conde Lucas Louis.
O Conde ergueu lentamente o olhar.
Jamais esperara semelhante homenagem.
Élise prosseguiu.
— Nobre Conde Lucas Louis,
Não me será possível estar presente nesta memorável celebração para pronunciar estas palavras diante de Vossa Senhoria. Contudo, se minha presença é impedida pelos deveres da Coroa, minhas palavras seguem em meu lugar.
Recebei-as como sincera homenagem neste dia em que vosso nome é celebrado.
Muito além de um ilustre Físico-Mor, mestre na delicada arte de restaurar vidas, sois um homem cuja verdadeira nobreza se revela nas escolhas que faz. Enquanto muitos empregam o saber para alcançar prestígio, Vossa Senhoria dedica suas horas, sua inteligência e suas mãos ao ofício para o qual foi chamado: a sagrada arte de curar.
Também soube que, como poeta, buscais a sinceridade em cada verso, compreendendo que a palavra possui força semelhante à da lâmina do cirurgião. Ambas podem ferir; contudo, quando guiadas pela sabedoria, recebem de Deus o mais elevado dos poderes: consolar, abraçar e restaurar.
Nenhum ruído interrompia a leitura.
Até mesmo o estalar da madeira em chamas parecia diminuir diante da solenidade daquele instante.
Élise continuou.
— Foi, porém, uma de vossas próprias afirmações que mais dignamente revelou o homem que sois:
"Por isso, reservo dois dias de cada oitava para atender, sem qualquer recompensa, aqueles que não possuem meios para custear a delicada arte da cirurgia, oferecendo-lhes o saber que Deus colocou em minhas mãos."
— Nenhum brasão é mais valioso que semelhante testemunho.
O olhar do Conde baixou discretamente.
Sua esposa segurou-lhe a mão.
A Condessa da Ilha de France compreendia que aquelas palavras valiam mais do que qualquer honraria. Era como se fossem ditas para ela, pois tinha o mesmo oficio do Conde.
Élise prosseguiu.
— Nobre Conde, ainda que outros acrescentem honrarias à vossa biografia, são vossas próprias palavras que revelam quem verdadeiramente sois. Vossos poemas são arte. Vossas falas por todo o reino refletem conhecimento. Vossas atitudes testemunham caráter. E isso... é verdadeira nobreza.
Alguns dos homens simples presentes emocionaram-se.
Um velho pescador retirou lentamente o chapéu.
Até o Duque Felipe Félix mantinha os olhos fixos no Conde.
A leitura aproximava-se do fim.
— Assim, para não romper a tradição desta nobre noite, desejo-vos um feliz dia de vosso nome, com votos sinceros de saúde, paz e alegrias junto à vossa família.
Fez uma breve pausa. Olhou para todos... Para o Conde.
Então sorriu discretamente.
— Agora peço que não vos preocupeis com vossa embarcação. Tudo o que vedes é apenas um pequeno atraso, necessário para que vossos marinheiros vos tragam aquilo que, há muito, já vos era devido.
— Por Sua Majestade, Rei da França.
O pergaminho foi lentamente fechado. Todos permaneceram imóveis.
Élise já conhecia aquela parte do plano.
Antes mesmo da viagem, o Capitão recebera instruções detalhadas do Marquês A Sales.
Então... Aconteceu o que a Madri não gostaria que acontecesse.
Élise retirou cuidadosamente a delicada máscara de renda que ocultava seus olhos.
Era o sinal esperado pelo Capitão.
Naquele exato instante, algo mudou.
No alto das muralhas, muito acima de todos, a Condessa A Morcega permanecia ao lado do Conde Morcego. Aquilo que começara como um quase combate entre os dois terminava agora em absoluto silêncio.
O Conde retirou do bolso um pequeno lenço de linho branco, finamente bordado. Sem dizer palavra alguma, entregou-o à Condessa. Ela aceitou o gesto.
Somente então percebeu que as lágrimas, discretamente, já haviam encontrado o caminho de seu rosto.
Continua...