A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Castelo de Erivas (Homenagem) Parte - 9

 

O salão, há poucos instantes tomado pela música e pelos aplausos, mergulhou numa inesperada inquietação.

 

Um criado entrou às pressas, falando algo ao ouvido de outro serviçal. Bastou um breve olhar em direção às janelas para que os primeiros convidados percebessem o intenso clarão avermelhado refletindo-se nas paredes do castelo.

 

As conversas cessaram.

 

Logo, homens e mulheres dirigiam-se rapidamente para as grandes portas.

 

Uns procuravam compreender o ocorrido. Outros apenas seguiam a multidão.

 

Em meio à movimentação, a Condessa A Morcega afastou-se discretamente.

 

Conhecia cada corredor daquele castelo. Sem despertar qualquer atenção, alcançou uma alta janela voltada para o mar.

 

Num único movimento, abriu as verdadeiras asas que escondia sob sua elaborada vestimenta.

Silenciosamente lançou-se ao vento.

 

Nenhum dos presentes percebeu sua partida.

 

Acima das torres do castelo, uma figura já a aguardava.

 

Antes mesmo de reconhecê-lo, a Condessa acelerou o voo.

 

Suas asas cortavam o ar como lâminas negras.

 

Preparava-se para atacar.

Foi então que a outra figura ergueu lentamente a mão direita e executou um discreto gesto.

 

Era um antigo sinal. Conhecido apenas entre eles.

 

A Condessa interrompeu completamente o impulso.

 

Permaneceu imóvel no ar.

 

— Morcego...?

 

A figura sorriu.

 

— Sou eu.

 

A voz era inconfundível.

 

— A Guardiã mantém minha aparência oculta. Se alguém olhar para o céu, verá apenas um enorme morcego. Ninguém reconhecerá o Conde Morcego.

 

Somente então a Condessa respirou aliviada.

 

— O que está acontecendo aqui?

 

O Conde não respondeu.

 

Apenas apontou para o porto construído abaixo das muralhas.

 

A Condessa voltou imediatamente o olhar.

 

Seu coração apertou-se.

 

A majestosa nau do Conde Lucas Louis ardia em chamas.

 

O fogo consumia apenas a proa e parte dos três mastros, lançando faíscas sobre o mar escuro enquanto grossas colunas de fumaça subiam em direção às nuvens.

 

— Pela Ordem dos Noturnos...

 

A exclamação escapou-lhe quase num cochicho.

 

— A nau do Conde...

 

Antes que pudesse continuar, o Conde Morcego tocou-lhe levemente o braço.

 

— Olhe para a estrada.

 

A Condessa voltou novamente sua extraordinária visão para o caminho que ligava o castelo ao pequeno cais.

 

Lá embaixo corria o próprio Conde Lucas Louis.

 

Sua capa balançava ao vento enquanto descia rapidamente acompanhado por alguns homens.

Graças à visão incomum da Condessa, nenhum detalhe lhe escapava.

 

Pouco antes da entrada do porto, percebeu algo que não existia quando chegara ao castelo.

Uma pequena estrutura de madeira.

 

Simples. Construída às pressas. Parecia um discreto palco.

 

Seu olhar continuou percorrendo o local.

 

Então parou.

 

— Uma Madre...

 

Falou mais para si do que para o Conde.

 

— O que uma Madre faz aqui, justamente nesta noite?

 

O Conde Morcego respondeu calmamente.

 

— Não olhe apenas para a Madre.

 

Olhe quem está ao lado dela.

 

A Condessa concentrou novamente sua visão.

 

Por um instante permaneceu completamente imóvel.

 

As lembranças surgiram imediatamente.

 

Anos antes... França. A residência da jovem Rubi.

 

Naquela ocasião, Rubi contara-lhe uma história curiosa.

 

Havia conhecido uma jovem noviça cuja simples presença despertava sentimentos que permaneciam escondidos nas profundezas da alma.

 

Não precisava tocá-los. Nem lhes dirigir longas palavras. Bastava sua presença. Seu olhar. Ou até mesmo um poema recitado por ela.

 

Intrigada, a Condessa perguntara:

 

— Como sabes disso?

 

Rubi sorrira discretamente.

 

— Venha até a janela.

 

As duas aproximaram-se. A jovem apontou para os jardins.

 

— Olhe entre aquelas flores.

 

A Condessa observou atentamente.

 

— Vejo apenas um jardineiro.

 

Era um homem robusto, de pele clara suavemente dourada pelo sol das manhãs francesas.

Cuidava das roseiras completamente alheio à presença das duas.

 

Rubi respirou profundamente.

 

— Eu sempre o amei.

Mas minha família...

Interrompeu a própria frase.

Apenas abaixou o olhar.

Depois continuou.

— Não permitiria.

 

Permaneceu alguns instantes contemplando o jardineiro.

 

— Então faço a única coisa que me resta...

 

Olho para ele daqui. E alimento silenciosamente aquilo que jamais poderei viver.

Foi quando Élise apareceu aqui vindo com a Madri superiora.

Sem dizer palavra. Sem dirigir qualquer olhar... Ela...

A Condessa compreendera que os rumores vindos da França talvez fossem verdadeiros.

 

Agora, sobrevoando o castelo, todas aquelas lembranças uniram-se como peças de um mesmo mosaico.

 

Ela falou quase sem perceber:

— Élise...

 

Ao lado do Conde Morcego, permaneceu observando em silêncio tudo o que estava prestes a acontecer.

 

Pouco abaixo, o Conde Lucas finalmente alcançou o pequeno palco improvisado.

A Madre Superiora aguardava serenamente.

 

Quando ele abriu a boca para falar, ela ergueu delicadamente a mão.

— Meu Conde...

 

Antes que qualquer explicação pudesse ser dada, Anna e Dom Lourenço de Vilar conduziam a multidão para junto do porto.

 

Em poucos instantes, nobres, cavaleiros, damas, artesãos e moradores das vilas enchiam a estrada de pedra dividindo espaço com as luxuosas carruagens.

Todos contemplavam a mesma cena. A nau continuava envolta pelas chamas. Marinheiros corriam pelo convés. Baldes passavam de mão em mão. Cordas eram lançadas. Homens gritavam ordens.

Para qualquer observador, tratava-se de um desesperado combate contra o incêndio.

 

Somente o capitão e seus homens sabiam que cada gesto fazia parte da encenação cuidadosamente preparada pelo Marquês A Sales pela carta que o próprio conde entregara a Madri superiora.

 

Do alto de uma antiga torre, de onde dominava toda a paisagem do castelo, a Guardiã mantinha sua atenção voltada para o porto.

Ali podia controlar perfeitamente suas ilusões. Esperava apenas um sinal que seria dado pelo Corvo do Silêncio.

Somente então desfaria o encantamento que ocultava e fazia parecer que a nau estava queimando em chamas.

 

Foi nesse momento que uma jovem surgiu sobre o pequeno palco.

Vestia o elegante traje negro inspirado em um hábito religioso, ajustado com refinada discrição à sua silhueta. Um fino cordão prateado marchava-lhe a cintura, enquanto a delicada máscara de renda ocultava apenas os olhos, preservando o mistério de seu dom.

 

Era Élise.

Trazia nas mãos um pergaminho cuidadosamente lacrado.

Ao seu lado, a Madre Superiora permaneceu em respeitoso silêncio.

A multidão observava sem compreender.

 

Muitos cochichavam.

— Uma Madre...

— E uma freira...

— O que fazem aqui?

 

Élise rompeu o lacre lentamente.

Desenrolou o pergaminho.

Respirou fundo.

 

A homenagem escrita por sua majestade o Rei para o seu mais novo membro da corte real francesa estava prestes a ser ouvida por todos.

Continua...

 

A Sales
Enviado por A Sales em 02/08/2026
Alterado em 03/08/2026
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Comentários

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