
Os aplausos ainda soavam entre os presentes no Castelo quando a Condessa A Morcega aproximou-se do casal. Seu habitual porte altivo deu lugar a uma expressão de sincera admiração. Por um breve instante, esqueceu os convidados, a música e até mesmo o protocolo da corte.
Seus olhos encontraram os da Condessa. A elegância daquela dama francesa ultrapassava qualquer descrição que lhe chegara durante os preparativos do baile.
A delicadeza de seus gestos. A serenidade de seu sorriso. A maneira como sustentava a postura. Tudo parecia possuir a mesma harmonia das grandes damas retratadas nos antigos salões reais.
A Condessa A Morcega aproximou-se. Tomou delicadamente as mãos da visitante.
— Minha querida Condessa... finalmente nossos caminhos se encontraram.
A Condessa da Ilha de France respondeu com a mesma delicadeza.
— A honra é inteiramente minha. Durante toda a travessia ouvi histórias sobre Vossa Senhoria. Ela olha para o Conde Lucas Louis que disfarça olhando em volta. Devo dizer, que nenhuma delas foi capaz de descrever o encanto do que agora vejo.
As duas sorriram.
Por alguns instantes pareciam velhas amigas reencontrando-se depois de muitos anos.
O Conde Lucas Louis observava a cena com discreta satisfação.
Ao redor, os convidados acompanhavam aquele encontro quase sem respirar. Afinal, era preciso um baile em castelo para unir tantas personalidades importantes do reino.
A Poetisa dos Astros levou discretamente a mão ao peito. Anna sorriu emocionada. Mesmo os homens e mulheres das vilas compreendiam que presenciavam um momento raro.
Uma jovem comentou em voz baixa:
— Parecem duas rainhas...
Outra respondeu:
— Não... parecem duas irmãs que o destino resolveu nos apresentar apenas hoje.
Com delicadeza, a Condessa A Morcega ofereceu-lhe o braço.
— Permita-me conduzi-los até a mesa preparada especialmente para Vossas Senhorias.
O casal aceitou.
Enquanto atravessavam lentamente o salão, todos abriram passagem em respeitoso silêncio.
Somente quando ambos tomaram seus lugares é que as conversas voltaram a preencher discretamente o ambiente.
Momentos antes...
Muito além da percepção dos presentes, a voz do Marquês A Sales atravessou silenciosamente os limites entre os mundos.
Corvo do Silêncio recebeu o chamado. Sem demora, transmitiu a mensagem à Condessa A Morcega.
— Senhora... o Marquês pede que saiba de um fato antes da próxima apresentação.
A Condessa voltou-se rapidamente. Estranhou ouvir aquelas palavras sem identificar de onde realmente provinham.
Seu olhar percorreu o salão. Nada.
Durante toda a sua longa existência acreditara que apenas ela e o Conde Morcego possuíam capacidades tão extraordinárias.
Quem mais poderia comunicar-se daquela maneira? Guardou a pergunta para outro momento.
A mensagem continuou.
— Entre os convidados encontra-se uma ilustre contista das histórias reais, amiga de muitos anos do Conde Lucas Louis.
A Condessa voltou imediatamente seu extraordinário olhar para o salão.
Graças à visão incomum que possuía, distinguiu uma figura sentada entre os convidados.
Então reconheceu-a. Um discreto sorriso iluminou lhe o rosto.
Era justamente a célebre autora que encantara todo o reino com a história do pequeno garoto e de seu misterioso amigo vindo de outro mundo, Elvis.
Mas, entre todas as suas obras, havia uma que ocupava lugar especial em seu coração. A Vovó Vida Louca.
A Condessa sorriu consigo mesma.
— Então... até ela está aqui... Por esta o Conde Lucas não espera. Ela pensou.
Na elegante mesa reservada aos convidados franceses já se encontrava a ilustre dama. Poucos sabiam que, além de escritora celebrada, era também uma Duquesa.
Vestia um magnífico traje de veludo verde-esmeralda profundo, enriquecido por delicados bordados em fios de ouro antigo que desenhavam folhas de louro e pequenas flores inspiradas nos jardins do seu palácio. O corpete ajustado era ornamentado por discretas pérolas naturais, enquanto amplas mangas terminavam em rendas finíssimas. Sobre os cabelos repousava um delicado hennin revestido por seda negra e um véu transparente que caía suavemente até os ombros.
Era uma elegância silenciosa. Daquelas que não necessitavam anunciar sua importância.
Quando o Conde Lucas Louis voltou o rosto e a reconheceu, permaneceu imóvel por um breve instante.
Os dois aproximaram-se e trocaram um caloroso cumprimento, digno de amigos cuja estima resistira ao tempo e à distância.
A esposa do Conde observava a cena com sincera alegria. Sabia o quanto aquela amizade significava para o marido.
A Condessa A Morcega acompanhava tudo emocionada. Aquela reunião de pessoas tão importantes para tantos reinos diferentes transformava sua celebração em algo muito maior do que imaginara.
Parecia que o próprio destino conduzira cada convidado até o castelo de Erivas.
Quando o salão recuperou o silêncio, a Condessa A Morcega caminhou novamente até o centro.
As centenas de velas refletiam-se na pulseira de obsidiana que repousava discretamente em seu pulso.
Respirou profundamente. Seu sorriso revelava uma alegria difícil de esconder. Ergueu lentamente a mão. Todos compreenderam que chegara o momento mais esperado da noite. A música cessou. Os convidados levantaram os olhos.
Entre todos os presentes, apenas o Duque Felipe Félix, o Mestre das Interações, a Poetisa da corte real, Suzete Palitos Anna, Dom Lourenço de Vilar, o Marquês A Sales, ainda distante, conduzindo silenciosamente cada etapa do plano, e o Conde Morcego conheciam a verdadeira dimensão do instante que se aproximava.
Com a voz levemente embargada pela emoção, a Condessa anunciou:
— Meus ilustres convidados... tenho agora a mais elevada honra desta noite.
Fez uma breve pausa.
Então pronunciou o nome que faria o Castelo de Erivas jamais ser lembrado da mesma forma.
— A nossa Guardiã... Erivas...
— Nesse instante todos os olhares se voltam para a direção das janelas do castelo, que era possível ver um grande clarão.
Continua...