A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Castelo de Erivas (Homenagem) Parte - 7.2

 

Todas as apresentações até então realizadas haviam transformado o grande salão do Castelo de Erivas em um verdadeiro retrato da nobreza do reino. Entretanto, o que mais emocionava a Condessa A Morcega não era o brilho das joias nem o luxo dos trajes, mas o encanto estampado no rosto daqueles convidados que, embora não possuíssem títulos ou brasões, eram recebidos por ela com a mesma honra dispensada aos duques e marqueses.

 

Homens das vilas. Mulheres das campinas. Artesãos. Mercadores. Pescadores.

 

Todos contemplavam maravilhados aquele universo que, em dias comuns, existia apenas nas histórias contadas ao redor das lareiras.

 

Um velho carpinteiro enxugou discretamente os olhos.

— Nunca pensei que pisaria num salão como este.

Ao seu lado, uma senhora sorriu.

— E fomos recebidos como se pertencêssemos a ele.

 

Era exatamente esse o desejo da Condessa. Para ela, naquela noite, não existiam lugares mais altos ou mais baixos. Existiam apenas convidados.

 

Por um breve instante, a Condessa voltou o olhar ao redor. Sentiu falta de Anna. Sorriu consigo mesma.

 

"Foi buscar Erivas." Em seus pensamentos, a Guardiã ainda permanecia recolhida na antiga Ordem, convencida de que aquela noite seria apenas mais um encontro reservado para sua ordem noturna.

Tudo mudara quando o Marquês A Sales surgira inesperadamente no retiro onde estava a guardiã. E, desde então, nenhum acontecimento seguira o caminho originalmente planejado pela Condessa A Morcega.

 

A música cessou.  A Condessa avançou alguns passos. Seu semblante tornou-se misterioso.

— Meus nobres amigos... aproxima-se o instante de recebermos um convidado cuja presença atravessou mares para estar entre nós nesta memorável celebração.

 

Um discreto cochicho percorreu o salão.

Quem seria?

 

Alguns nobres trocaram olhares. Outros procuravam adivinhar.

Até mesmo os músicos permaneceram imóveis.

A Condessa sorriu.

 

Mas, para surpresa de todos, baixou delicadamente a mão.

 

— Antes... permitam que esta noite continue falando também através da arte.

Voltou-se para a Marquesa das Canções do Oceano.

 

As duas trocaram um breve olhar.

A Marquesa já conhecia exatamente aquele momento.

Ergueu suavemente as mãos.

Os músicos iniciaram uma melodia envolvente.

Cordas. Flautas. Alaúdes. Tambores orientais marcavam discretamente o compasso.

 

Então surgiu a Bailadeira. Como era conhecida a mulher que dançava.

 

Seu traje parecia bordado pela própria luz das velas.

 

Vestia delicadas sedas em tons de âmbar, vinho profundo e dourado envelhecido. Finíssimos véus transparentes acompanhavam cada movimento do corpo, enquanto pequenas moedas de ouro antigo e pedras cor de granada ornamentavam o cinturão e os braceletes. Os tornozelos eram adornados por discretas correntes de prata que produziam um leve tilintar a cada passo.

 

Seus cabelos negros desciam livres pelas costas.

 

A dança começou lentamente. Movimentos suaves. Precisos. Elegantes. Pouco a pouco o ritmo aumentava. O salão inteiro parecia respirar no mesmo compasso. A Poetisa dos Astros observava fascinada.

 

O Mestre das Interações sorria discretamente.

O Duque Felipe Félix acompanhava a apresentação com respeitoso silêncio.

 

A Condessa da Ilha de France deixou escapar um sorriso encantado. Até o reservado Conde Lucas demonstrava sincera admiração pela perfeição artística daquela dança. Como um verdadeiro pintor das letras que ele é.

 

Nas laterais do salão, o povo vibrava. Jamais haviam presenciado espetáculo semelhante.

 

Quando a música atingiu seu ponto mais intenso, a própria Condessa A Morcega não resistiu.

Sorriu. Estendeu delicadamente a mão. Entrou na dança.

 

Seu vestido negro girava como uma sombra elegante sob a luz dos candelabros. Por alguns instantes, anfitriã e Odalisca pareciam conversar apenas através dos movimentos.

 

Arte parou o olhar até mesmo do Conde Morcego que ainda voava acima do castelo, a sombra de suas asas no piso do salão foi notada por alguns, que logo se perdeu com o encanto das dançarinas.

Ao final, o silêncio durou um breve segundo.

 

Depois... O salão inteiro explodiu em aplausos. A Condessa foi uma das primeiras a aplaudir.

A Odalisca respondeu com uma elegante reverência como se falasse: obrigado por eu existir.

 

Enquanto isso, em um pequeno recinto reservado ao lado do salão principal, Corvo do Silêncio reunia-se com Dom Lourenço de Vilar, Anna e a Rainha Erivas.

 

Falou em voz baixa.

 

— Rainha Erivas... o Marquês acredita que o grande momento está muito próximo.

Olhou diretamente para ela.

 

— Quando a Condessa apresentar vossa presença a todos estando ao vosso lado, desfazei a ilusão do castelo. Revelai toda a ornamentação preparada por ela.

 

Erivas assentiu. Corvo continuou.

 

— Antes disso, porém, o Marquês necessita de uma segunda ilusão.

Dirigiu o olhar para Anna.

 

— Ela acontecerá na nau do Conde Lucas, exatamente após sua apresentação no salão.

Sem acrescentar outra palavra, retirou-se.

 

Precisava encontrar o Conde Morcego.

Erivas, Anna e Dom Lourenço seguiram imediatamente para cumprir suas respectivas funções.

 

Ao deixar o castelo, Corvo do Silêncio encontrou três figuras aproximando-se pela passarela iluminada.

 

Curvou-se respeitosamente.

 

— Madre. Irmã. Capitão.

 

A Madre Superiora caminhava com serenidade.

 

Era uma mulher de cerca de cinquenta anos, rosto marcado pelo tempo e pelos anos dedicados à oração. Vestia o tradicional hábito negro da ordem, coberto por um amplo véu branco e um rosário de madeira escura preso ao cinturão.

 

Ao seu lado vinha Élise.

 

Seu traje havia sido cuidadosamente idealizado por sugestão do próprio Marquês.

À primeira vista lembrava um hábito monástico.

 

Entretanto, a refinada modelagem acompanhava delicadamente a silhueta, revelando apenas o suficiente para preservar sua elegância. O vestido era confeccionado em tecido negro acetinado, com longas mangas e gola alta. A cintura era marcada por um fino cordão prateado. Sobre os olhos repousava uma delicada máscara de renda negra, integrada ao próprio vestido.Não escondia seu rosto. Ocultava apenas seu olhar. Era justamente ali que, segundo o Marquês, começava toda a força de sua misteriosa influência.

 

Corvo retirou do interior da capa um pequeno pergaminho.

 

Entregou-o a Élise. Ela reconheceu imediatamente a caligrafia.

Apenas inclinou discretamente a cabeça.

Nada perguntou.

 

Quando a música terminou, a Odalisca recebeu uma longa salva de palmas.

Sua roupa brilhava intensamente sob a luz dos candelabros.

 

As sedas douradas, os véus transparentes e os adornos orientais conferiam-lhe uma beleza ao mesmo tempo delicada e majestosa.

 

Até mesmo os mais idosos levantaram-se para aplaudi-la.

A Condessa A Morcega sorriu satisfeita.

Recuperou lentamente o fôlego.

Olhou para todos os presentes.

Criou novamente um breve suspense.

Então declarou com emoção:

 

— Tenho o imenso prazer de apresentar-vos um homem que atravessou o Reino da França para prestigiar esta noite que, estou certa, permanecerá inesquecível na memória de todos aqui reunidos...

O salão mergulhou em absoluto silêncio. Todos os olhares voltaram-se a passarela por onde todos os anunciados desceram.

 

Todos aguardavam, com expectativa crescente, conhecer o ilustre convidado que ainda permanecia oculto.

Continua...

A Sales
Enviado por A Sales em 01/08/2026
Alterado em 08/08/2026
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