A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Castelo de Erivas (Homenagem) Parte 7.1

 

A música cessou por um breve instante.

 

Todas as conversas desapareceram como se o próprio salão aguardasse a voz de sua anfitriã.

A Condessa A Morcega deu alguns passos à frente. Seu vestido negro refletia discretamente o brilho das velas, enquanto a pulseira de obsidiana permanecia oculta sob a renda da manga esquerda.

Com um elegante gesto, iniciou a novamente a apresentação.

 

— Nobres senhores, digníssimas senhoras, ilustres convidados de todas as casas e amigos vindos das vilas, das campinas e dos mercados... o Castelo de Erivas recebe agora um homem cuja honra atravessou fronteiras e cuja lealdade tornou seu nome conhecido muito além das muralhas deste reino. Recebamos o excelentíssimo Duque Felipe Félix.

 

O silêncio transformou-se imediatamente em reverência. O Duque surgiu caminhando com serenidade. Cada passo parecia carregar o peso da própria história. Vestia um gibão de veludo negro cuidadosamente talhado segundo a tradição da família, bordado com delicados fios de prata que, desenhavam discretas curvas semelhantes às asas abertas das criaturas noturnas. Sobre os ombros repousava uma ampla capa de arminho branco presa por um fecho de ônix. As mangas terminavam em refinadas rendas de Bruxelas, enquanto um colar de ouro sustentava o brasão de sua casa.

 

A espada cerimonial repousava à cintura. O chapéu de abas largas trazia apenas uma única pluma negra. Nada havia de exagerado. Tudo transmitia autoridade. Antes mesmo que alcançasse o centro do salão, nobres curvaram a cabeça. Damas inclinaram discretamente seus leques. Os cavaleiros tocaram o peito em sinal de respeito. Até mesmo o povo reunido nas laterais interrompeu as conversas.

 

Um velho agricultor retirou o chapéu. Uma jovem artesã reverenciou o.

 

— É ele...

 

— Nunca pensei que o veria de perto...

 

O Duque respondeu apenas com um discreto aceno.

 

Seguiu lentamente até a mesa reservada à sua família. Era nítido no olhar da Condessa que o conde não pudesse comparecer. O sorriso de felicidade disse tudo.

 

Somente então o murmúrio do salão voltou a existir.

 

Em uma mesa mais afastada, Dom Lourenço de Vilar, o fiel Mordomo-Mor do Marquês A Sales, compreendeu enfim a preocupação demonstrada por seu senhor, dias antes.

 

O Duque realmente comparecera. E sua presença, por si só, parecia transformar toda a atmosfera daquela noite.

 

Em sua biblioteca o Marquês pode ver o amigo senta se a mesa... Todos presente ele pensou.

A Condessa retomou a palavra.

 

— Tenho agora a honra de apresentar uma dama cuja inspiração fez das estrelas poesia e dos céus um pergaminho eterno... Recebamos a ilustre Poetisa dos Astros.

 

Os aplausos soaram novamente.

 

A Marquesa surgiu envolta por um magnífico vestido confeccionado em veludo negro e seda roja profunda. Sobre a saia, pequenas pedras místicas de tonalidade azul-escura e violeta pareciam reproduzir constelações inteiras. Bordados dourados desenhavam discretas órbitas celestes, enquanto uma delicada capa transparente descia suavemente pelos ombros.

 

Sua elegância arrancou suspiros. As mulheres admiravam cada detalhe do vestido.

 

Os nobres levantaram-se respeitosamente. Com um sorriso sereno, a Marquesa dirigiu-se à mesa destinada à sua casa.

 

A Condessa ergueu novamente a voz.

 

— E agora... recebei um homem que recusou títulos para permanecer livre diante das palavras. Conhecido entre os reis como o Mestre das Interações.

 

O elegante cavalheiro entrou no salão. Usava exatamente a impressionante cartola escolhida por sua fiel companheira antes da viagem para o castelo.

 

Alta. Negra. Ornamentada apenas por uma discreta faixa em veludo rojo. Seu traje lembrava os cavaleiros diretamente ligados ao serviço da Coroa. Um longo casaco negro bordado em linhas rubras.

 

Colete de brocado escuro. Camisa branca de gola alta. Luvas negras. Uma bengala de madeira escura completava o conjunto.

 

Seu caminhar era calmo. Confiante. Alguns poetas do reino ali presente levantaram-se para aplaudi-lo. Outros apenas sorriram em sincera admiração.

 

Ao alcançar sua mesa, recebeu novas reverências.

 

Enquanto novas apresentações prosseguiam no interior do castelo, do lado de fora apenas o som das ondas quebrando contra as falésias rompia o silêncio da noite.

 

Os guardas enviados por ordem de El-Rei Dom João III, impedido de comparecer por delicadas questões políticas do reino, mantinham rigorosa vigilância junto aos portões.

 

Mais adiante, fundeada junto ao pequeno cais, permanecia imóvel a majestosa nau do Conde Lucas Louis.

 

Com todos os convidados já acomodados no salão, o Conde compreendeu que chegara o momento.

Afastou-se discretamente até mesmo sem ser notado pela Condessa da Ilha de France. Caminhou até uma estreita passarela de pedra voltada para o mar. Certificou-se de que nenhum olhar humano o acompanhava. Embora soubesse que, muito acima das torres, um gigantesco morcego descrevia silenciosos círculos sobre o castelo.

 

Ergueu lentamente a mão direita. Subitamente, uma intensa luminosidade envolveu seus dedos.

Azul. Vermelha. Dourada. As três cores misturavam-se como uma única chama viva.

 

No convés da nau, quase imediatamente, duas tochas acesas moveram-se em perfeita sincronia.

Era a resposta esperada. O Conde sorriu discretamente. Voltou para o salão. Sabia que a convidada especial logo estaria no grande salão. O que ele não sabia estava a bordo de nau.

 

Dias antes... No Convento de Saint-Clair. Ao receber o pedido do Conde Lucas que fora um pedido do

Marquês A Sales, a Madre Superiora escutou atentamente cada palavra.

 

Por fim respondeu:

 

— Concordo.

 

Fez apenas uma pausa.

 

— Contudo, partirei acompanhando minha noviça.

 

Quem recusaria a companhia de uma madre e de uma freira durante longa travessia marítima?

 

Pouco depois, a irmã Anne caminhava pelos corredores de pedra do convento. Parou diante de uma pequena cela. Bateu suavemente à porta.

— Élise... vista-se. A Madre deseja falar contigo.

 

Em seu segundo dia de penitência, aplicada por ter negligenciado parte do hábito religioso e permitido que olhares curiosos se demorassem sobre sua figura durante tempo excessivo, Élise permanecia recolhida em oração e silêncio.

 

A conversa com a Madre foi breve.

 

Quando regressasse da viagem, retomaria exatamente de onde interrompera sua penitência.

A jovem aceitou sem hesitar. Também possuía seus próprios motivos para desejar aquela jornada.

 

Madre, sei que Élise possui um dom natural para despertar desejos ocultos naqueles que os reprimem. Sei também que recentemente Vossa Reverência descobriu possuir espírito suficientemente fortalecido para resistir a semelhante influência. Se estas palavras chegaram às suas mãos, é porque permitiu que Élise venha ao baile. Assim sendo, peço apenas que, depois que o Conde deixar a embarcação, leia este pergaminho ao capitão e diga-lhe que um velho amigo, viajante entre mundos, solicita sua colaboração. Ele compreenderá o restante e fará exatamente o que escutará de sua leitura. E como sempre serei generoso ao bom trabalho da Madri.

 

De volta ao salão, Dom Lourenço permanecia atento. Ao seu lado, o Corvo do Silêncio aproximou-se discretamente. Sem olhar diretamente para o mordomo, falou em voz quase imperceptível:

 

— Meu amigo... chegou o momento. Fez uma breve pausa.

 

— O Marquês confirma que as pedras se alinharam.

 

Dom Lourenço levantou-se lentamente. Respirou fundo.

Sua última missão naquela inesquecível noite estava prestes a começar.

 

Pouco tempo depois estavam os dois ao lado de Erivas a Guardiã que permanecia oculta da Condessa a morcega. Que tinha certeza que sua fiel governanta a faria entrar no momento de render as homenagens.

 

O que ela não sabia viria agora.

 

Continua...

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Enviado por A Sales em 31/07/2026
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Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

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Este livro é um mergulho no espaço entre as vozes,
nas pausas, nos gestos interrompidos,
e nas emoções que o silêncio guarda.