
O encanto da Condessa da Ilha de France era percebido por todos que cruzavam seu caminho. Elegante em seus gestos e delicada no falar, caminhava pelo cais improvisado como quem transformava cada passo em parte de uma cerimônia. Contudo, havia algo que parecia disputar sua atenção com a grandiosidade do Castelo de Erivas: suas inúmeras malas.
Já o Conde Lucas Louis possuía temperamento inteiramente diverso.
Filho de uma linhagem tradicionalmente dedicada às armas e aos campos de batalha, contrariara séculos de tradição familiar. Em vez da espada, escolhera a ciência do corpo humano. Tornara-se um respeitado Físico-Mor, como eram chamados os mais notáveis mestres da medicina do seu tempo, estudioso da anatomia, da cura das enfermidades e das delicadas artes da cirurgia. Seu nome era conhecido não apenas em diversas províncias da França, mas também em reinos vizinhos, onde nobres disputavam sua presença sempre que a saúde de um soberano ou de um herdeiro se encontrava ameaçada.
Enquanto sua esposa supervisionava cada baú descarregado da nau, Lucas observava tudo com a serenidade de quem aprendera que a paciência também era uma forma de cura.
Anna percebeu que sua senhora permanecia tempo demais naquele salão aparentemente abandonado. Se ali continuasse, começaria inevitavelmente a desconfiar de tudo. A governanta aproximou-se.
— Senhora... acompanhe-me. Todos aguardam apenas o momento oportuno para entrar. A Condessa levantou-se. Seguiu Anna por uma longa galeria iluminada por archotes até alcançar um amplo terraço sobre as muralhas do Castelo de Erivas, exatamente aquele de onde se dominava toda a estrada de acesso e o pequeno porto construído junto às falésias.
A visão era magnífica. Sob o luar, dezenas de carruagens avançavam lentamente em direção aos portões. Os cavalos, adornados com arreios de couro trabalhado e ferragens polidas, relinchavam enquanto cocheiros controlavam cuidadosamente o cortejo.
Entre os convidados misturavam-se nobres, damas, cavaleiros, religiosos, músicos, representantes das antigas ordens e habitantes das vilas próximas, todos iluminados pelo brilho quente das tochas.
Mais adiante, junto ao mar, destacava-se a robusta nau do Conde Lucas Louis. Seus três mastros elevavam-se soberanos sobre as águas escuras do Atlântico, sustentando o elegante velame recolhido. O casco alto, de linhas características das grandes embarcações francesas, refletia a luz da lua como se fosse revestido por prata líquida.
A Condessa A Morcega sorriu. Sua visão extraordinária, muito além da capacidade comum dos homens, permitiu-lhe enxergar uma cena curiosa. No cais, a Condessa da Ilha de France orientava energicamente os carregadores.
— Com cuidado! Essa mala vai por último! A Condessa soltou uma discreta gargalhada.
— Finalmente conhecerei a ilustre Condessa da Ilha de France.
Seu semblante transformou-se. Toda a inquietação desapareceu. Os ânimos estavam restaurados.
— Vamos, Anna. Não nos demoremos mais. Antes de entrar novamente, ergueu os olhos para o céu estrelado. Sorriu consigo mesma.
— Se o Vampirão resolver fazer uma entrada espalhafatosa... receio que o Conde Lucas me lance um olhar pouco amistoso por não atender seu pedido.
Anna conteve um sorriso. Naquele instante, porém, algo chamou sua atenção. Ao longe surgia uma carruagem inconfundível. Negra. Elegante. Discreta. O brasão do Marquês A Sales refletia a luz das tochas.
A governanta pensou silenciosamente: "Tudo como planejado."
Na residência do Marquês, uma criada aproximou-se respeitosamente. Curvou-se profundamente.
— Meu senhor... o Mordomo-Mor recomendou que, durante sua ausência, eu velasse para que nada faltasse a Vossa Senhoria.
O Marquês voltou-se para ela com a cordialidade que sempre dispensava aos que serviam sua casa. — Está tudo em perfeita ordem, Dona Isabel. Sorriu serenamente.
— Tudo aquilo de que necessito já se encontra comigo.
A criada inclinou novamente a cabeça. Retirou-se em silêncio.
Da ampla janela de sua biblioteca, o Marquês contemplava o Atlântico. A noite parecia mais luminosa do que de costume. Seu olhar, extraordinariamente preciso, ampliava a distância como se aproximasse aquilo que estava além do horizonte.
Era um raro dom herdado pelos antigos membros da Ordem dos Corvos Negros, fraternidade mística cujos integrantes afirmavam enxergar muito além dos limites comuns da visão humana.
Foi então que o viu. Um enorme morcego cruzava silenciosamente o céu. Suas asas largas deslizavam sobre a luz da lua enquanto seguia diretamente para o Castelo de Erivas. O Marquês reconheceu imediatamente aquela silhueta. Era o Conde Morcego. Em fim o mito era de fato realidade. O majestoso casal de Conde tinha sim um dom memorável.
Um discreto sorriso surgiu em seu rosto.
— Tudo corre exatamente como planejado. Permaneceu alguns instantes acompanhando o voo.
— Agora acredito que todos já estejam reunidos no grande salão.
(...)
Também voltou seus pensamentos para outra convidada. A mais célebre cantora do reino. Sem ela, as antigas Canções do Oceano não soariam pelo salão, privando aquela noite da música que tantas gerações aprenderam a associar às grandes celebrações.
O silêncio voltou a dominar a residência. Lá fora, a lua refletia-se sobre o Atlântico. Ao longe, a nau francesa permanecia fundeada junto ao pequeno porto improvisado de Erivas. Sobre as altas torres do castelo, um gigantesco morcego voava em amplos círculos no céu noturno. Poucos curiosos erguiam os olhos para contemplar aquela estranha criatura.
Nenhum deles imaginava que, sob aquelas asas silenciosas, voava justamente um dos homens mais importantes daquela inesquecível noite.
Continua...

Onde esta escrito (...) retirei até que o poeta a ser mencionado responda me se permite citação.