
— Ainda acha que foi exagero eu querer trazer todas as minhas malas? Olhe o tamanho desse castelo.
Disse a Condessa da Ilha de France, contemplando da proa da nau a grandiosidade do Castelo de Erivas.
A embarcação avançava lentamente sobre as águas escuras do Atlântico. A lua cheia desenhava um caminho prateado sobre o mar, enquanto o vento fazia ranger o madeirame da grande nau Francesa de três mastros. Marinheiros recolhiam parte das velas, outros lançavam grossas amarras aos homens que aguardavam no pequeno cais de pedra abaixo das muralhas. Lanternas de óleo balançavam suavemente, iluminando o brasão da embarcação e refletindo-se nas águas tranquilas daquela enseada protegida.
O Castelo de Erivas dominava toda a paisagem.
Suas torres erguiam-se sobre os penhascos como sentinelas eternas, iluminadas por centenas de archotes. Das muralhas era possível avistar o oceano em quase todas as direções, enquanto as janelas do grande salão brilhavam como pequenas estrelas douradas.
O Conde Lucas Louis sorriu discretamente.
— Minha querida Comtesse de l'Île de France, receio que, depois desta visão, eu jamais voltarei a discutir sobre malas. Até porque não pude trazer meu piano.
Ela sorriu vitoriosa.
— Eu sabia.
Assim que a nau atracou completamente, homens e mulheres enviados pela própria Condessa A Morcega aproximaram-se em respeitosas reverências.
— Sejam muito bem-vindos ao Castelo de Erivas.
Enquanto os criados organizavam a recepção do casal, começou uma verdadeira operação para descarregar a bagagem.
Baús. Arcas. Malas de couro. Caixas de madeira. Baixelas cuidadosamente protegidas.
E, quando todos acreditavam haver terminado...
— Com cuidado! — gritou a Condessa da Ilha de France. — Ainda falta minha última mala!
Os carregadores trocaram olhares discretos. Um deles falou para o outro: — Espero sinceramente que seja a última.
Enquanto isso, o Conde Lucas aproximou-se discretamente do capitão da nau. Os dois afastaram-se alguns passos do movimento do cais. Conversaram em voz baixa. Nenhum dos presentes conseguiu ouvir uma única palavra. Ao final, o capitão apenas inclinou a cabeça em sinal de entendimento, levando uma das mãos ao peito.
— Será exatamente como combinamos, meu senhor.
O Conde respondeu apenas com um leve aceno antes de seguir em direção à carruagem.
Pouco antes da oitava hora da noite, momento em que as grandes recepções da corte portuguesa costumavam atingir seu maior movimento, a longa estrada calçada que conduzia ao Castelo de Erivas transformou-se em um desfile de elegância.
Carruagens revestidas de madeira nobre avançavam lentamente sob a luz das tochas.
Chegavam marqueses. Condes. Duques. Damas da alta nobreza. Cavaleiros. Religiosos. Mercadores ilustres. Representantes das antigas ordens. Cada convidado era recebido pelos homens e mulheres cuidadosamente escolhidos por Anna, a governanta da Condessa A Morcega.
Após a conferência dos convites lacrados, eram conduzidos ao interior do castelo. No caminho, porém, muitos estranhavam a decoração. Tapeçarias pareciam antigas demais para a ocasião.
Flores davam a impressão de terem perdido o frescor. Castiçais pareciam escurecidos pelo tempo. Alguns nobres trocavam discretos comentários. — Dizem que a Condessa A Morcega organiza os bailes mais magníficos do reino...
Outro respondeu em voz baixa: — Confesso que este parece... deprimente.
Uma dama sorriu. — Talvez faça parte do mistério. Aposto que o verdadeiro esplendor nos aguarda no salão principal.
Todos seguiram acreditando exatamente nisso.
No centro do grande salão permanecia sentada a Condessa A Morcega. Seu coração apertava-se a cada instante. Todo o trabalho realizado durante dias parecia agora tão desfeito quanto um delicado vitral reduzido a estilhaços por uma única pedra.
Anna permanecia ao seu lado. Sem afastar-se sequer um passo. Observava cada convidado sendo levados para locais onde a Condessa jamais pudesse vê-los.
Tudo fazia parte do plano.
Depois de longo silêncio, a Condessa finalmente falou.
Sua voz misturava ansiedade, vergonha e uma tristeza que procurava esconder.
— Anna... A governanta aproximou-se. — Senhora?
— Onde estão todos?... Será que chegaram... contemplaram este desastre... e resolveram partir antes mesmo de entrar?
Anna apenas segurou delicadamente sua mão. Nada respondeu. Sabia que sua missão era mantê-la exatamente ali.
O salão parecia propositalmente abandonado.
Sobre a cabeça da Condessa erguia-se uma enorme janela ogival composta por pequenos vidros artesanais unidos por chumbo. A lua atravessava aquele mosaico transparente, espalhando reflexos prateados sobre o piso de pedra.
Do lado oposto do castelo, uma ampla passarela coberta recebia outro grupo muito especial.
Atendendo a um antigo costume da própria Condessa A Morcega, homens e mulheres vindos das vilas, das campinas, dos mercados e dos pequenos povoados também haviam sido convidados. Como em todos os seus grandes bailes, compartilhariam o mesmo banquete servido aos nobres.
Entre eles surgiu grande alvoroço. Um homem apontou para a estrada. — Olhem! É a carruagem do Duque Felipe Félix!
Todos voltaram os olhos para a estrada. A carruagem aproximava-se lentamente. Era construída em madeira escura polida, reforçada com ferragens douradas e ornamentada pelo brasão da Casa Félix: um leão coroado sustentando uma espada sobre um escudo azul profundo. O Duque surgiu vestindo um gibão de veludo azul-marinho ricamente bordado com fios de ouro, capa de arminho branco, botas de couro fino e um chapéu adornado por longa pluma branca.
Sua presença impunha respeito antes mesmo de pronunciar qualquer palavra. Era ele um experiente corregedor-investigador da Coroa, conhecido por solucionar delicadas questões em nome do Rei Dom João III.
No interior do castelo, a Condessa A Morcega levantou-se. Olhou ao redor. Sentia falta de alguém. — Onde estará o Conde Morcego? Deu alguns passos em direção à saída. Anna imediatamente aproximou-se. — Senhora... A Condessa voltou-se.
— Estão todos lá fora. Apenas... ainda não chegou o momento. A Condessa respirou profundamente. — Você tem razão, Anna. Sorriu discretamente. — Traga-me uma taça de champanhe.
Enquanto aguardava, voltou seu olhar para o salão. Quase num cochicho, falou para si mesma.
— Não pode ser... Pensou na antiga Ermida de Santa Aurora, retiro onde as Guardiãs costumavam buscar silêncio e paz. — Somente ela seria capaz de tal feito...
Mas logo afastou a ideia. Era longe demais até mesmo para a guardiã.
Resolveu acreditar que tudo fazia parte do misterioso roteiro daquela noite. Embora, para si mesma, absolutamente nada fizesse sentido.
Lá fora, a estrada transformava-se em um verdadeiro cortejo.
Carruagens de todos os tamanhos sucediam-se uma após outra.
À frente vinha a Marquesa, conhecida em todo o reino como a Poetisa dos Astros. Sua carruagem era revestida por detalhes em prata, trazendo gravadas pequenas estrelas e luas crescentes. Vestia um esplêndido traje de seda azul-escura bordado com fios dourados que reproduziam constelações, enquanto um delicado diadema de safiras repousava sobre seus cabelos.
Logo atrás aproximava-se outra carruagem. Não pertencia a um Conde. Nem a um Duque. Nem a um Marquês.
Era conduzida pelo homem conhecido em todo o reino simplesmente como o Senhor das Interações.
Conta-se que, em certa ocasião, o Rei Dom João III recebera de um soberano estrangeiro um refinado poema diplomático. Segundo o costume da época, havia o prazo de três amanheceres para responder à altura.
Poetas. Letrados. Cronistas. Nenhum conseguiu encontrar palavras dignas.
Foi então que uma jovem dama da nobreza, chamada Rubi, recordou-se de um homem extraordinário que conhecera durante um sarau literário preparado pelas mulheres das famílias mais nobre do reino.
Quando ele foi levado à presença do rei, ouviu o poema apenas uma vez.
Naquela mesma noite escreveu a resposta.
Dias depois, das muralhas do Castelo de São Jorge, em Lisboa, avistou-se o exército estrangeiro interrompendo seu avanço. As bandeiras foram recolhidas, e os soldados receberam ordem de retirada.
A guerra terminara antes mesmo de começar.
Dizem que o Rei ofereceu ao sábio títulos, riquezas e extensas propriedades.
Ele recusou todas as honrarias. Fez apenas um único pedido ao soberano. Pedido esse que jamais foi revelado por qualquer homem daquele reino.
Continua...
