A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Castelo de Erivas (homenagem) Parte - 4 - 1

 

Na Ilha de France, uma grande ilha do Atlântico conhecida por seus penhascos verdejantes, enseadas de águas profundas e densos bosques que se estendiam até o litoral, erguia-se a residência do Conde Lucas Louis. Construída sobre um rochedo voltado para o oceano, a mansão possuía grossas muralhas de pedra clara, altas janelas ogivais, varandas sustentadas por colunas de granito e jardins onde ciprestes, roseiras e oliveiras desafiavam os ventos marítimos. Ao redor, pequenas vinhas e pomares completavam a propriedade, enquanto um caminho calçado conduzia diretamente ao porto natural da ilha.

 

— Avisem à Condessa que, se ela demorar mais tempo arrumando-se... ou tentar levar todas as suas vestes, precisarei comprar todas as malas da França. Pediu o Conde Lucas Louis a uma criada que cruzava apressada o grande salão da residência.

 

A moça fez uma profunda reverência. — Sim, meu senhor. Sem perder tempo, percorreu os longos corredores revestidos por tapeçarias flamengas, subiu a escadaria principal de mármore claro e dirigiu-se aos aposentos da Condessa, levando consigo a urgente mensagem.

 

O quarto da Condessa era quase um pequeno palácio. Grandes janelas arqueadas permitiam a entrada da suave luz da manhã, que atravessava delicadas cortinas de linho bordadas a ouro. Um perfume de lavanda, rosas e jasmim pairava no ambiente. Sobre móveis de nogueira finamente entalhados repousavam caixas de joias abertas, leques, luvas rendadas, colares de pérolas, diademas e pequenos frascos de cristal lapidado contendo essências vindas de Veneza e do Oriente.

 

No centro do aposento, diante de um imenso espelho veneziano emoldurado por madeira dourada, encontrava-se a Condessa. Vestia um magnífico traje confeccionado especialmente para a celebração em Portugal.

 

O vestido era feito de brocado negro entrelaçado por delicados fios de ouro envelhecido. A ampla saia, sustentada por discretas armações, era adornada por bordados representando luas crescentes, estrelas e pequenas figuras de morcegos trabalhadas com fios de prata. As mangas longas terminavam em rendas finíssimas, enquanto o corpete era ornamentado por pedras escuras que refletiam a luz das velas como pequenas constelações. Sobre os ombros repousava uma elegante capa de veludo vinho profundo, forrada com seda negra, inspirada exatamente na ornamentação preparada para o grande baile do Castelo de Erivas.

 

Espalhadas por todo o quarto havia malas. Malas grandes. Malas pequenas. Baús. Arcas. Caixas de viagem. Pareciam multiplicar-se a cada instante. Foi então que a criada entrou discretamente. Antes mesmo que pudesse anunciar a mensagem do Conde, ouviu a voz decidida da senhora.

 

— Ajude-me a colocar mais aqueles vestidos naquele baú. Nunca se sabe o que nos aguarda em Portugal depois do baile.

Sem ousar contrariá-la, a criada aproximou-se e começou a dobrar cuidadosamente os vestidos. Respirou fundo. Tentou falar. — Senhora, o Conde... Foi interrompida novamente.

 

A Condessa segurava três pequenos frascos de perfume diante da luz. — Será que devo levar meus perfumes também? O que você acha? A criada apenas inclinou levemente a cabeça, sem conseguir responder. A Condessa abriu um largo sorriso.

 

— Você está certíssima! Como pude quase esquecê-los?

 

Começou imediatamente a reunir todos os frascos de cristal. — Rápido... busque-me outra mala. A criada permaneceu imóvel durante um breve instante. Olhou discretamente para as dezenas de malas já alinhadas junto às paredes. Depois para os perfumes. Depois novamente para as malas. Limitou-se a fazer uma reverência. — Sim... minha senhora.

 

Ao atravessar novamente o grande salão da residência carregando outras malas vazia, encontrou o Conde Lucas Louis caminhando de um lado para o outro.

 

Assim que a viu, perguntou esperançoso: — A Condessa já está descendo? A criada parou por um instante. Havia certo receio em sua voz. — Ainda não, meu senhor.

 

O Conde suspirou. — E o que a está atrasando agora? A criada respondeu quase pedindo desculpas. — Sua Senhoria pediu que eu buscasse novas malas... decidiu levar também todos os seus perfumes.

Por alguns segundos o Conde permaneceu absolutamente imóvel. Seu olhar subiu lentamente em direção ao teto ornamentado. Fez então um rápido cálculo mental.

 

Vinte e dois dias de travessia marítima. Mais o tempo necessário para o embarque. Mais os ventos imprevisíveis do Atlântico. Mais... As malas. Muitas malas. Demasiadas malas. Passou a mão pelo rosto, respirando profundamente. — Pelo ritmo em que estamos... chegaremos a Portugal a tempo do próximo inverno...

 

Olhou para o enorme relógio de sol instalado no jardim interno. Depois para a escadaria. Depois novamente para a criada.

Um discreto sorriso de resignação surgiu em seu rosto.

 

— Receio que, antes de alcançarmos Portugal, toda a Ilha de France fique sem fabricantes de malas.

 

A criada não conseguiu conter um tímido riso, curvando rapidamente a cabeça para esconder a expressão.

 

O Conde apenas balançou a cabeça, divertido e conformado ao mesmo tempo. Conhecia bem sua esposa. Quando ela decidia preparar-se para uma ocasião especial, nem mesmo o oceano parecia grande o bastante para acomodar toda a elegância que desejava levar consigo.

 

Devo ter uma paciência de Britânico. Pensou o Conde Lucas Louis

 

— Meu senhor, enfim podemos partir ou não chegaremos a tempo, disse a Condessa, esposa do Conde Lucas Louis, observando os criados fecharem os grandes baús de viagem.

 

O conde sorriu disfarçando a preocupação de não chegar a tempo no castelo de Erivas.

 

— E perder a entrada triunfal do Vampirão na homenagem? Jamais! Fez um gesto aos criados. — Levem toda a bagagem ao porto.

 

A Condessa caminhou ao seu lado. — Meu senhor... estamos indo para um lugar onde existem vampiros? E se o próprio Drácula estiver presente?

 

O Conde explicou a origem do nome Vampirão. — Não te preocupes. "Vampirão" é apenas a maneira divertida como a Condessa A Morcega chama o Marquês A Sales.

 

A expressão preocupada da esposa deu lugar a um sorriso aliviado e mais uma olhada no pequeno espelho de mão seguido de mais uma borrifada de um caríssimo perfume.

 

No porto, aguardava-os uma robusta nau Francesa de três mastros. Seu casco de carvalho reforçado exibia a madeira escurecida pelo sal do mar. As enormes velas de linho já estavam desfraldadas, enquanto marinheiros ajustavam cabos, içavam âncoras e verificavam os canhões ornamentais destinados apenas à proteção da embarcação. Pouco depois, ao som do apito do mestre da nau, o navio afastou-se lentamente do cais, tomando rumo ao reino de Portugal, impulsionado pelos ventos constantes do Atlântico.

 

Vinte e dois dias depois na residência do Marquês A Sales permanecia envolta pela tranquilidade da manhã.

Dom Lourenço de Vilar aproximou-se.

— Senhor, recebi a confirmação de que tudo está exatamente como planejado no Castelo de Erivas.

O Marquês assentiu.

— Muito bem. Peça a um de nossos serviçais mais discretos que permaneça próximo à residência da Condessa A Morcega. Assim que ela partir para o castelo de Erivas, desejo ser avisado imediatamente.

— Sim, senhor.

O mordomo retirou-se sem demora.

 

Como previsto, a Guardiã Erivas não se encontrava no castelo. Atendendo a um convite da própria Condessa A Morcega, passava aquele dia recolhida na Ermida de Santa Aurora, um antigo retiro construído sobre as falésias, cercado por pinheiros e jardins de ervas medicinais. Era um lugar reservado ao silêncio, à contemplação e às reflexões das guardiãs da antiga Ordem da Luz Serena.

 

A justificativa apresentada fora convincente: o castelo receberia um encontro reservado da Ordem dos Noturnos, uma antiga fraternidade dedicada a preservar a pureza dos corações. Assim, a Condessa teria tempo suficiente para preparar a homenagem destinada à amiga.

 

Enquanto isso, em sua residência, a Condessa A Morcega descia lentamente a majestosa escadaria de mármore negro. Corrimões de ferro trabalhado sustentavam luminárias acesas, enquanto vitrais projetavam reflexos azulados sobre o piso polido. Sua indumentária era extraordinária.

 

Vestia um longo traje de veludo negro de caimento impecável. Sobre os ombros, uma capa confeccionada em finíssimas membranas de seda escura imitava com perfeição as asas de um morcego. A máscara, delicadamente moldada em couro negro, prolongava-se em discretas orelhas pontiagudas e contornos tão naturais que, à distância, poucos seriam capazes de distinguir onde terminava o tecido e começava o próprio corpo da Condessa. Quando caminhava, a leve movimentação da capa produzia a perfeita ilusão de um enorme morcego vivo deslizando pelos corredores.

 

Continua...

 

 

 

 

A Sales
Enviado por A Sales em 27/07/2026
Alterado em 27/07/2026
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