A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Castelo de Erivas (Homenagem) Parte - 3

 

Erguido sobre as altas arribas da costa ocidental portuguesa, onde as ondas do Atlântico quebravam contra as rochas em um rugido constante, encontrava-se o Castelo de Erivas. Construído sobre um promontório de pedra voltado para o mar, dominava toda a enseada, permitindo que de suas muralhas e sacadas se avistassem embarcações de velas brancas desaparecendo no horizonte. Ao amanhecer, gaivotas sobrevoavam suas torres, e à noite o brilho da lua desenhava um caminho prateado sobre as águas, tornando aquela fortaleza um dos cenários mais belos de toda a região.

 

Enquanto isso, na residência do Marquês A Sales, Dom Lourenço de Vilar aguardava respeitosamente a resposta de seu senhor.

O Marquês permaneceu alguns instantes em silêncio, girando lentamente a taça de vinho entre os dedos.

— Tudo começou há alguns dias. A própria Condessa A Morcega confidenciou-me que realizaria este baile no Castelo de Erivas em homenagem à própria Guardiã depois de ter lido uma carta de um amigo.

 

Fez uma breve pausa.

 

— Dois dias depois encontrei-me no Mercado das Figueiras, uma movimentada praça de comércio junto ao cais, famosa pelos cestos de uvas, figos, romãs e maçãs vindas dos pomares vizinhos. Entre feirantes, pescadores, nobres e viajantes, reconheci a governanta da casa da Condessa.

 

O mordomo escutava atentamente.

 

— Trocamos algumas palavras, e ela comentou que os preparativos para o baile já haviam começado.

Dom Lourenço não conteve a curiosidade.

 

— Senhor... então Vossa Senhoria já conhecia a Condessa e também o Conde Morcego?

 

O Marquês sorriu discretamente.

 

— Sim. Conheci-a quando estive na Cidade das Uvas...

 

O mordomo abriu um largo sorriso.

 

— Então foi naquela ocasião em que o senhor impediu o jovem André de entrar no Titanic?

A Sales soltou uma breve risada.

 

— Essa é uma outra história.

 

Os dois compartilharam um instante de descontração antes que o Marquês retomasse o assunto.

 

— O fato é que rapidamente nos tornamos amigos. E, como tudo aquilo que nasce de maneira genuína, acabei conhecendo também o Conde Morcego...

 

Dom Lourenço interrompeu novamente.

 

— O homem que o senhor acredita ser o Escorpião que salvou o mundo de *Capricórnio e de seus signos rebeldes?

O mordomo aguardou a resposta.

 

O Marquês ergueu a taça.

 

— Esqueceste de mencionar que tudo foi transmitido ao vivo pelas televisões de todo o mundo.

 

Ao dizer aquilo, um discreto sorriso surgiu em seu rosto, como se lembrasse de acontecimentos que ultrapassavam a compreensão do próprio tempo.

 

— Então, meu fiel amigo... Prosseguiu.

 

— Eu sabia que a data escolhida seria justamente aquela tão especial para a Condessa. E, sendo leonina, ela dispensa elogios vazios, mas emociona-se profundamente diante de gestos verdadeiros.

 

Dom Lourenço compreendeu imediatamente.

 

— Foi então que Vossa Senhoria combinou com a governanta a mudança da decoração.

— Exatamente.

 

O mordomo tornou a perguntar:

 

— Mas, senhor... como conseguiu retirar a Condessa do Castelo de Erivas no momento exato para que tudo fosse transformado?

 

O Marquês sorriu.

 

— Meu amigo... foi aí que entrou o Conde Morcego.

 

Aproximou-se da janela.

 

— A governanta Anna trouxe-o até mim na manhã deste mesmo dia. Fiz-lhe o pedido e, prontamente, aceitou colaborar.

 

Comprometeu-se a conduzir a Condessa de volta à residência deles precisamente na hora marcada.

Dom Lourenço olhou discretamente ao redor da biblioteca.

 

— Senhor...

 

Antes mesmo que completasse a pergunta, A Sales respondeu.

 

— Quanto aos demais convidados? Sim, já sei o que pretende perguntar.

 

Fez um leve gesto com a mão.

 

— O que fiz para ajudá-los a entender a mudança de plano, e deixar a Condessa acreditar que todos seguiriam para uma homenagem à Rainha Erivas? Este mundo de hoje é fascinante. Embora tenebroso... mais fascinante.

 

Seu olhar pareceu perder-se entre lembranças.

 

— Conheci um homem que cavalgava mais veloz do que um relâmpago em busca de socorro para seu genitor. Chamavam-no Corisco. Mesmo em meio à própria aflição, encontrou forças para ajudar-me. Foi ele quem levou ao Duque Felipe Félix a carta explicando tudo o que pretendíamos realizar.

 

Dom Lourenço aproximou-se silenciosamente e voltou a encher a taça de seu senhor. Enquanto o vinho rubro deslizava lentamente pelo cristal, o mordomo observava o Marquês com uma admiração cada vez maior. Jamais deixaria de surpreender-se com a maneira como seu senhor unia pessoas tão diferentes em torno de um único propósito.

 

O Marquês então apontou para uma pequena mesa de nogueira.

 

Sobre ela encontravam-se dezenas de cartas cuidadosamente empilhadas.

 

— E assim todos receberam uma mensagem explicando a mudança da celebração e pedindo absoluta discrição.

 

Com a ponta dos dedos, tocou delicadamente a pilha de pergaminhos.

 

— Ali está a confirmação de cada um deles.

 

Dom Lourenço observou os selos de inúmeras casas nobres.

 

Depois de alguns instantes, voltou a perguntar:

 

— Então... como convencer a homenageada do baile, a Rainha Erivas, a aceitar tal mudança? Afinal, não se presta semelhante homenagem a qualquer pessoa... a não ser quando esta deixa este mundo.

 

O Marquês respondeu serenamente.

 

— A Rainha Erivas é uma mulher extremamente condescendente quando assim deve ser. E eu entendi quando presenciei um diálogo dela que ficou conhecido no Condado Recanto das Letras como “A Flor de Mandacaru” Ela aceitou a mudança com enorme generosidade e...

 

Antes que pudesse concluir, o mordomo completou:

 

— ...e o senhor teria de levar Élise à festa.

— Exatamente.

 

Um breve silêncio tomou conta da biblioteca.

Dom Lourenço tornou a olhar para as cartas.

 

— Então tudo está certo. Vejo que todas as pessoas do círculo da Condessa confirmaram presença.

 

Ao terminar a frase, percebeu que o Marquês permanecia imóvel, contemplando o mar pela ampla janela da biblioteca.

Retirando cuidadosamente a taça agora vazia, perguntou em tom respeitoso:

 

— Senhor... se tudo está certo... por que percebo certa incerteza em vosso semblante?

 

O Marquês demorou alguns segundos para responder.

 

Sua voz saiu baixa, carregada de uma preocupação que nem ele conseguia esconder.

 

— Ainda não houve resposta do Conde Lucas Louis... até este momento.

 

O silêncio que se seguiu parecia acompanhar o distante rumor das ondas do Atlântico.

Do outro lado do oceano Atlântico, há vinte dias atrás, um casal preparava as malas.

 

Continua...

 

 

 

 

 

A Sales
Enviado por A Sales em 27/07/2026
Alterado em 28/07/2026
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Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

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