
Erguido sobre as altas arribas da costa ocidental portuguesa, onde as ondas do Atlântico quebravam contra as rochas em um rugido constante, encontrava-se o Castelo de Erivas. Construído sobre um promontório de pedra voltado para o mar, dominava toda a enseada, permitindo que de suas muralhas e sacadas se avistassem embarcações de velas brancas desaparecendo no horizonte. Ao amanhecer, gaivotas sobrevoavam suas torres, e à noite o brilho da lua desenhava um caminho prateado sobre as águas, tornando aquela fortaleza um dos cenários mais belos de toda a região.
Enquanto isso, na residência do Marquês A Sales, Dom Lourenço de Vilar aguardava respeitosamente a resposta de seu senhor.
O Marquês permaneceu alguns instantes em silêncio, girando lentamente a taça de vinho entre os dedos.
— Tudo começou há alguns dias. A própria Condessa A Morcega confidenciou-me que realizaria este baile no Castelo de Erivas em homenagem à própria Guardiã depois de ter lido uma carta de um amigo.
Fez uma breve pausa.
— Dois dias depois encontrei-me no Mercado das Figueiras, uma movimentada praça de comércio junto ao cais, famosa pelos cestos de uvas, figos, romãs e maçãs vindas dos pomares vizinhos. Entre feirantes, pescadores, nobres e viajantes, reconheci a governanta da casa da Condessa.
O mordomo escutava atentamente.
— Trocamos algumas palavras, e ela comentou que os preparativos para o baile já haviam começado.
Dom Lourenço não conteve a curiosidade.
— Senhor... então Vossa Senhoria já conhecia a Condessa e também o Conde Morcego?
O Marquês sorriu discretamente.
— Sim. Conheci-a quando estive na Cidade das Uvas...
O mordomo abriu um largo sorriso.
— Então foi naquela ocasião em que o senhor impediu o jovem André de entrar no Titanic?
A Sales soltou uma breve risada.
— Essa é uma outra história.
Os dois compartilharam um instante de descontração antes que o Marquês retomasse o assunto.
— O fato é que rapidamente nos tornamos amigos. E, como tudo aquilo que nasce de maneira genuína, acabei conhecendo também o Conde Morcego...
Dom Lourenço interrompeu novamente.
— O homem que o senhor acredita ser o Escorpião que salvou o mundo de *Capricórnio e de seus signos rebeldes?
O mordomo aguardou a resposta.
O Marquês ergueu a taça.
— Esqueceste de mencionar que tudo foi transmitido ao vivo pelas televisões de todo o mundo.
Ao dizer aquilo, um discreto sorriso surgiu em seu rosto, como se lembrasse de acontecimentos que ultrapassavam a compreensão do próprio tempo.
— Então, meu fiel amigo... Prosseguiu.
— Eu sabia que a data escolhida seria justamente aquela tão especial para a Condessa. E, sendo leonina, ela dispensa elogios vazios, mas emociona-se profundamente diante de gestos verdadeiros.
Dom Lourenço compreendeu imediatamente.
— Foi então que Vossa Senhoria combinou com a governanta a mudança da decoração.
— Exatamente.
O mordomo tornou a perguntar:
— Mas, senhor... como conseguiu retirar a Condessa do Castelo de Erivas no momento exato para que tudo fosse transformado?
O Marquês sorriu.
— Meu amigo... foi aí que entrou o Conde Morcego.
Aproximou-se da janela.
— A governanta Anna trouxe-o até mim na manhã deste mesmo dia. Fiz-lhe o pedido e, prontamente, aceitou colaborar.
Comprometeu-se a conduzir a Condessa de volta à residência deles precisamente na hora marcada.
Dom Lourenço olhou discretamente ao redor da biblioteca.
— Senhor...
Antes mesmo que completasse a pergunta, A Sales respondeu.
— Quanto aos demais convidados? Sim, já sei o que pretende perguntar.
Fez um leve gesto com a mão.
— O que fiz para ajudá-los a entender a mudança de plano, e deixar a Condessa acreditar que todos seguiriam para uma homenagem à Rainha Erivas? Este mundo de hoje é fascinante. Embora tenebroso... mais fascinante.
Seu olhar pareceu perder-se entre lembranças.
— Conheci um homem que cavalgava mais veloz do que um relâmpago em busca de socorro para seu genitor. Chamavam-no Corisco. Mesmo em meio à própria aflição, encontrou forças para ajudar-me. Foi ele quem levou ao Duque Felipe Félix a carta explicando tudo o que pretendíamos realizar.
Dom Lourenço aproximou-se silenciosamente e voltou a encher a taça de seu senhor. Enquanto o vinho rubro deslizava lentamente pelo cristal, o mordomo observava o Marquês com uma admiração cada vez maior. Jamais deixaria de surpreender-se com a maneira como seu senhor unia pessoas tão diferentes em torno de um único propósito.
O Marquês então apontou para uma pequena mesa de nogueira.
Sobre ela encontravam-se dezenas de cartas cuidadosamente empilhadas.
— E assim todos receberam uma mensagem explicando a mudança da celebração e pedindo absoluta discrição.
Com a ponta dos dedos, tocou delicadamente a pilha de pergaminhos.
— Ali está a confirmação de cada um deles.
Dom Lourenço observou os selos de inúmeras casas nobres.
Depois de alguns instantes, voltou a perguntar:
— Então... como convencer a homenageada do baile, a Rainha Erivas, a aceitar tal mudança? Afinal, não se presta semelhante homenagem a qualquer pessoa... a não ser quando esta deixa este mundo.
O Marquês respondeu serenamente.
— A Rainha Erivas é uma mulher extremamente condescendente quando assim deve ser. E eu entendi quando presenciei um diálogo dela que ficou conhecido no Condado Recanto das Letras como “A Flor de Mandacaru” Ela aceitou a mudança com enorme generosidade e...
Antes que pudesse concluir, o mordomo completou:
— ...e o senhor teria de levar Élise à festa.
— Exatamente.
Um breve silêncio tomou conta da biblioteca.
Dom Lourenço tornou a olhar para as cartas.
— Então tudo está certo. Vejo que todas as pessoas do círculo da Condessa confirmaram presença.
Ao terminar a frase, percebeu que o Marquês permanecia imóvel, contemplando o mar pela ampla janela da biblioteca.
Retirando cuidadosamente a taça agora vazia, perguntou em tom respeitoso:
— Senhor... se tudo está certo... por que percebo certa incerteza em vosso semblante?
O Marquês demorou alguns segundos para responder.
Sua voz saiu baixa, carregada de uma preocupação que nem ele conseguia esconder.
— Ainda não houve resposta do Conde Lucas Louis... até este momento.
O silêncio que se seguiu parecia acompanhar o distante rumor das ondas do Atlântico.
Do outro lado do oceano Atlântico, há vinte dias atrás, um casal preparava as malas.
Continua...
