
Era uma casa antiga, onde o tempo parecia mover-se mais devagar que o vento passando entre as árvores, havia um espelho alto apoiado na parede do quarto principal. Era velho, de moldura escura e entalhada com pequenas flores que já não tinham nome. Ninguém sabia ao certo de onde viera ou quem o deixara ali. Alguns diziam que pertencera à primeira moradora da casa a décadas passadas, outros afirmavam que já estava ali quando as paredes ainda cheiravam a cal.
Ariadna nunca se importara muito com ele.
Mudou-se para a casa havia poucos meses, depois da morte da tia que lhe deixara a propriedade. A casa ficava afastada da cidade, cercada por um jardim desordenado e árvores tão velhas que pareciam guardar mistérios entre as raízes.
Nos primeiros dias, Ariadna apenas limpou o quarto e cobriu o espelho com um lençol branco. Era grande demais, pensou, e sempre lhe dava a estranha impressão de que o quarto ficava mais profundo quando ela o olhava.
Mas numa tarde de chuva, enquanto organizava as gavetas da cômoda, o vento abriu a janela e o lençol caiu.
O espelho reapareceu. Ariadna olhou para ele por reflexo, quase sem perceber. Viu seu próprio rosto, os cabelos presos de qualquer jeito, a expressão cansada. Nada de diferente. Ainda assim, algo lhe causou uma sensação estranha, como se tivesse sido observada por alguém.
Nos dias seguintes passou a reparar mais naquele objeto. O espelho parecia escurecer ao anoitecer, mesmo quando a lâmpada estava acesa. Às vezes Ariadna tinha a impressão de que sua imagem demorava um instante a acompanhá-la quando se movia.
Era um atraso mínimo. Talvez imaginação.
Certa noite, porém, enquanto escovava os cabelos diante dele, percebeu algo que a fez parar.
No reflexo, seus cabelos estavam soltos. Mas na realidade, continuavam presos. Ariadna piscou.
Quando ergueu a mão para tocar o próprio cabelo, a imagem no espelho já repetia o gesto perfeitamente. Ela riu de si mesma, nervosa. — Estou cansada, falou pra si mesma.
Nos dias seguintes, evitou olhar para o espelho. Passava pelo quarto sem levantar os olhos. Mesmo assim, começou a sentir algo que nunca sentira antes na casa, uma presença paciente.
Não era barulho. Nem sombra. Era mais como uma expectativa. Uma tarde, ao voltar do jardim com as mãos sujas de terra, Ariadna atravessou o quarto distraída e acabou olhando diretamente para o espelho.
Foi então que percebeu. Sua imagem vestia branco. Um vestido longo, antigo, com renda nos punhos. Ariadna estava com roupas comuns de trabalho.
Ela ficou imóvel.
No espelho, a mulher também estava imóvel. Mas não parecia surpresa. Parecia, esperar. Ariadna aproximou-se devagar. Quanto mais perto chegava, mais claro ficava o vestido refletido. A renda, os botões pequenos, o véu que descia pelos ombros.
A mulher do espelho não era exatamente Ariadna. Era parecida. Mas havia algo diferente nos olhos. Uma calma remota. Quase que triste.
Ariadna levantou a mão e tocou o vidro. A mulher refletida fez o mesmo.
Por um segundo, apenas um segundo, Ariadna teve a estranha sensação de que o toque vinha de dentro do espelho, não de fora.
Recuou rapidamente. Naquela noite sonhou com um casamento. Não havia convidados. Nem música.
Apenas o quarto antigo e o espelho iluminado por velas.
E diante dele, uma noiva esperando.
Quando acordou, o quarto estava silencioso. A casa inteira parecia suspensa numa quietude incomum. Ariadna levantou-se lentamente. O espelho estava descoberto. Ela tinha certeza de que o havia coberto antes de dormir.
Aproximou-se. O reflexo mostrava o quarto vazio. Ariadna ainda não havia chegado ao campo do espelho. Deu mais um passo.
Então sua imagem apareceu. Mas não estava sozinha. Atrás da noiva, atrás dela, havia uma figura indistinta, como um vulto alto, parado na penumbra do quarto refletido.
Ariadna virou-se imediatamente. Não havia ninguém.
Quando voltou os olhos para o espelho, a figura já não estava mais ali. Restava apenas a noiva. E algo novo. No dedo da mulher refletida havia um anel que Ariadna nunca possuíra.
Ela levou a própria mão ao rosto. No reflexo, a noiva sorriu. Não foi um sorriso largo. Foi apenas o suficiente para que Ariadna percebesse uma coisa inquietante, aquele sorriso não a imitava.
Ele surgira primeiro.
E naquela mesma noite, antes de dormir, Ariadna teve a impressão de ouvir um leve som vindo do quarto.
Era um som suave. Quase como tecido sendo arrastado pelo chão. Ou o lento caminhar de alguém que, depois de muito tempo, finalmente estava saindo de dentro de um espelho.

Todos somos poetas quando escrevemos com dedicação, alma aberta e a simplicidade de quem transforma sentimento em palavras.
Minha recomendação literária para hoje é:
Juli Lima com o conto TAPANDO o SOL com a PENEIRA...
Geisa Alves com o conto DOR DE AMOR
Meus textos AMOR E RESILIÊNCIA