
Um pseudônimo é um nome escolhido por uma pessoa para assinar seus trabalhos no lugar do nome verdadeiro. Muitos escritores, artistas e poetas usam pseudônimos por diferentes motivos: para proteger a identidade, para separar fases da vida, para experimentar novos estilos ou até para expressar uma parte mais íntima de si mesmos. O pseudônimo pode funcionar como uma extensão da personalidade, quase como um espelho da alma. Ele não apaga quem somos, mas revela um outro modo de existir.
Durante um ano, escrevi sob o pseudônimo de Corvo do Silêncio. Esse nome não foi escolhido por acaso. Ele nasceu da união entre algo que sempre fez parte de mim, o amor pelo silêncio, e a admiração profunda que sinto pelo corvo. O corvo é uma ave inteligente, observadora e reservada. Ele costuma manter certa distância, observa antes de agir e carrega uma aura de mistério. É atento aos detalhes e aprende com facilidade. Essas características sempre me chamaram a atenção, pois, de certa forma, também fazem parte da minha personalidade.
Sempre gostei muito do silêncio, da ausência de som. Para muitas pessoas, o silêncio pode parecer vazio ou até incômodo, mas para mim ele é abrigo. Existe uma razão para isso, tenho uma condição neurossensorial conhecida como misofonia. A misofonia é uma sensibilidade extrema a determinados sons. Não se trata apenas de não gostar de barulho. Sons específicos, como mastigação, respiração alta, estalos ou ruídos repetitivos, pode me causar reações intensas, como irritação, ansiedade, angústia e até raiva. O corpo reage como se estivesse em perigo, mesmo quando o som não representa ameaça real. A exposição constante a esses sons pode gerar cansaço emocional e físico, pois o cérebro permanece em estado de alerta.
Por isso, o silêncio sempre foi para mim mais que uma preferência, é necessidade. Ele me traz equilíbrio. No silêncio, consigo pensar com clareza, organizar ideias e sentir paz. Assim como o corvo que observa o mundo de um ponto alto, em quietude, eu também sempre procurei esse espaço de recolhimento.
Quando passei a conhecer melhor as características do corvo, minha admiração aumentou. Ele é considerado uma das aves mais inteligentes do mundo. Sabe resolver problemas, usar ferramentas e reconhecer rostos. É persistente e adaptável. Vive entre dois mundos, o da natureza selvagem e o da proximidade com os humanos. Pode estar nos campos e florestas, mas também nas cidades. Essa capacidade de transitar entre ambientes diferentes me fez enxergar nele algo muito próximo de mim.
Eu também me vejo como alguém que caminha entre dois mundos. Sou um ser que tem aversão ao som, mas que vive e convive em meio a ele. Preciso estar no mundo das pessoas, dos ruídos, das conversas, das responsabilidades. Mesmo buscando o silêncio, não posso me isolar completamente. Aprendi a viver nesse equilíbrio difícil. Assim como o corvo, que sobrevive tanto na solidão quanto na coletividade, eu sigo meu caminho entre a quietude que desejo e o barulho que a vida impõe.
Escrever como Corvo do Silêncio foi uma forma de dar voz a essa parte de mim. O pseudônimo representava minha essência mais silenciosa, mais observadora e reflexiva. Era como se o corvo escrevesse por mim, trazendo em cada texto a marca do silêncio, da atenção aos detalhes e da profundidade.
No entanto, recentemente li um texto de um amigo e poeta que dizia que não existe autor desconhecido. Todo escrito tem autoria. Concordei com ele. Por mais que alguém use um pseudônimo, sempre há uma pessoa real por trás das palavras. Em algum momento, meus livros serão lidos e alguém poderá se perguntar, quem é Corvo do Silêncio? Ao mesmo tempo, o nome Antonio Sales já é conhecido por alguns. Quando meus textos forem lidos, ambos os nomes estarão ligados à mesma essência.
Por isso, decidi que agora escreverei sobe meu próprio nome. Não porque abandonei o Corvo do Silêncio, mas porque entendi que ele faz parte de mim. Ele não é outro ser separado. É uma parte da minha identidade. Minhas palavras continuarão carregando as características do silêncio, da observação e da profundidade que o corvo simboliza.
Hoje escrevo como eu mesmo. Leio os amigos poetas e poetisas que fiz aqui, como eu mesmo. Mas meus escritos sempre terão a presença silenciosa do corvo. Ele continuará vivendo nas entrelinhas, no cuidado com cada palavra, na busca pela essência.
Agradeço a todos que sempre me visitaram, mesmo nestes dias em que estive ausente. Cada leitura, cada comentário e cada gesto de carinho fizeram diferença e de coração serão retribuídos com o mesmo carinho e dedicação.
Meu muito obrigado e um grande abraço a todos.

Trago uma recomendação de leitura incrível da
poetisa Erivas a Guardiã.
Leia o cordel MEU CORDEL I