No alvorecer de um tempo que se fez canção,
Teus olhos, dados de um azul profundo,
Refletiam o sol de cada estação,
E em cada riso, um novo e vasto mundo.
Nosso amor, um rio que corria sem fim.
Teus cabelos, fios de prata ao vento,
Teciam histórias de um passado em flor,
Cada ruga, um mapa de contentamento,
Marcas de um tempo de puro esplendor.
Nossas mãos unidas, um laço sem par.
O tempo, escultor de belezas e dor,
Desenhava em ti a arte de viver,
E em cada outono, um novo fulgor,
Um brilho duradouro que não ia morrer.
Nossa dança lenta, no compasso da vida.
Mas a brisa suave, que um dia te trouxe,
Levou-te aos noventa, num adeus sereno,
Deixando em mim a saudade que pulsa,
Um jardim florido, agora em terreno
De lembranças doces, que o coração guarda.
E mesmo que a ausência me envolva em véu,
Teu amor, luz que jamais se apaga,
Permanece vivo, um pedaço do céu,
Na alma que chora, mas que não se esvazia.
Nosso amor, eterno, além do fim.
