Escrevia o amor e com ele sonha,
Mas nunca sentiu sua brasa acesa.
Era verbo sem corpo, apenas som,
Um rumor de uma alma cansada,
Um reflexo de si que não aquecia.
Falava de beijos nunca dados,
De promessas que ninguém ouvia,
De mãos que jamais o tocaram,
E ainda assim, escrevia ternura,
Como se o papel e a pena o redimisse.
No olhar havia mar sem vento,
No peito, um templo sem oração.
Tudo nele era quase ternura,
Mas faltava o tremor da entrega,
O risco de existir no outro.
Os versos eram doces mentiras,
Perfumes sem flor, vento sem rosto.
Cada linha uma ausência bordada,
Cada rima versada um vazio polido,
Cada amor imaginado, pura invenção.
E um dia calou-se de repente,
Pensou que o amor enfim chegaria.
Mas ninguém soube, nem ele,
Se foi por fim compreendido,
Ou apenas cansou de fingir.
