Imagem vista durante o dia
Hoje é um dia comum da semana. A minha esquerda, o prédio do Fórum, com suas colunas brancas e janelas amplas que refletem o céu de um azul quase desbotado. Há um silêncio contido ali dentro, imagino, o som seco dos passos soando nos corredores, papéis sendo virados, vozes medidas discutindo razões e sentenças. Do lado de fora, porém, o vento sopra livre, balançando a bandeira no alto do mastro e trazendo um leve cheiro de poeira quente, misturado com o perfume distante de flores das poucas árvores da praça.
Daqui, sentado na escadaria que dá acesso à entrada da igreja, vejo o coração da cidade pulsar diante de mim. A fachada branca do templo reflete o sol das quatro horas, que agora desce um pouco mais preguiçoso no céu. Os vitrais, coloridos e silenciosos, deixam passar um feixe de luz vermelha que corta o chão de pedra e vem repousar sobre o primeiro degrau, o que estou sentado agora. Penso que talvez Deus goste dessas pequenas sutilezas, um raio de luz, como no início quando Ele disse: “Haja luz; e houve luz.” Em Gênesis 1:3, em uma sombra repousada, quando o Salmista disse: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.”
— Salmo 91:1. E também num silêncio que fala, como a surpresa que o profeta Elias teve “E depois do fogo, uma voz mansa e delicada.” 1 Reis 19:12
Mas em fim, a praça do Garimpeiro se estende à minha frente. O monumento de bronze, no centro, parece brilhar sob o sol, o garimpeiro inclinado com sua bateia como se ainda procurasse ouro entre os grãos do tempo. Ao redor, pessoas passam distraídas, um casal que caminha de mãos dadas, um vendedor de picolé com o carrinho rangendo, dois meninos correndo atrás de uma bola invisível. Sinto o ar quente colar-se à pele, e um burburinho leve de vozes e motores mistura-se ao canto de um passarinho que insiste num galho próximo, bem acima de mim.
De onde estou, posso ver também o Palácio do Governo, um pouco mais à esquerda do garimpeiro, tem uma arquitetura moderna contrastando com a simplicidade da igreja e com o traço antigo do Fórum. A cidade parece equilibrar-se entre o passado e o presente, entre o sagrado e o humano. E eu, quieto neste degrau, apenas observo, o sol baixando, a sombra crescendo, a vida acontecendo.
O relógio marca quatro e dez. O sino da torre toca uma, duas vezes. O som se espalha lento pela praça e parece acordar memórias remotas, de casamentos, de batizados, de promessas faladas aos pés do altar. Olho em volta e penso que cada pessoa que atravessa está praça carrega dentro de si um pequeno milagre não revelado.
Talvez seja isso o que me prende aqui, essa mistura de movimento e quietude, de fé e rotina. O garimpeiro busca o ouro que a terra esconde, eu busco o ouro que o instante guarda, um brilho breve de vida comum, a respiração da cidade quando o sol começa a declinar.
Se alguém passasse agora por mim, talvez nem percebesse o quanto essa paisagem é viva. Mas eu vejo. Eu ouço. Eu sinto.
E é nesse instante, simples e sereno, que entendo, há mais de divino no comum do que se imagina. Há mais beleza nesta cidade que preciso explorar.

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