Esta não é uma simples entrevista, é uma apresentação feita em auditório, então o tempo de leitura será o tempo da entrevista realizada ao vivo, ou seja aproximadamente duas horas de programa. Como sei que você vai ler apenas duas ou três perguntas, clica nesse título SOMENTE A ENTREVISTA e você terá toda a entrevista numa leitura rápida
PodReader – 3ª EDIÇÃO
Entrevistador: Corvo do Silêncio
Entrevistada: A Morcega
O auditório está mergulhado em meia-luz. Cortinas de veludo negro descem até o chão, e no alto, candelabros góticos projetam chamas trêmulas que dançam nas paredes de pedra. O palco é amplo, coberto por uma névoa leve que desliza como respiração noturna.
No centro, uma mesa de madeira escura, envelhecida pelo tempo, sobre ela, dois microfones prateados, uma rosa seca em um pequeno jarro de cristal e um abajur de luz âmbar, cuja claridade é suave o bastante para não ferir olhos noturnos.
O público murmura, curioso. Um breve chiado soa nos alto-falantes. Então, uma goticamente serena rompe o silêncio:
— Bem-vindos... a mais um PodReader.
A plateia responde com palmas contidas, o som soando sob o teto abobadado.
— Hoje o voo é especial, porque nossa convidada vem das sombras mais acolhedoras e poéticas de sua caverna... para falar um pouco de si, dos seus escritos e, quem sabe, das entrelinhas que a inspiram.
Uma pausa breve. Um sorriso quase invisível desenha-se no rosto da entrevistada que aguarda ansiosa para entrar.
— Do seu dia a dia...
risos discretos da plateia
— Ops! Perdão... ela não gosta do dia.
Risos mais soltos agora, o público relaxa. O Corvo pousa as mãos sobre a mesa, olhando para a plateia com brilho cúmplice.
— Enfim, ela vai conversar conosco, e com seus leitores, aqui do Recanto das Letras.
— Do Rio de Janeiro, Brasil, ela é conhecida por transformar o silêncio em palavras e a penumbra em abrigo.
Um feixe de luz azulada atravessa o palco, criando o contorno de asas projetadas ao fundo. Entrevistada ver as luzes e ajeita algo nas costas de seu vestido.
— Casada com o também misterioso O Morcego, parceiro de vida e de asas, ela construiu um refúgio próprio, onde o real e o imaginário se encontram.
Um santuário feito de versos, nuvens e nobreza de alma.
Meio gótica, sim, mas de uma luz intensa, criativa e guerreira.
O público escuta em silêncio reverente, como se participasse de um cerimonial literário. A entrevistada coloca suas luvas e olha para o lado e recebe um sinal como se dissesse: você merece.
— No Recanto há quase oito anos, desde 8 de novembro de 2017, nossa convidada já soma 127 textos, mais de 6.572 leituras, e quatro áudios que soam 112 vezes pelos corredores da alma.
Uma presença constante, discreta e encantadora, que conquista quem ousa pousar em sua colmeia de palavras.
Após uma breve pausa, o Corvo inclina-se para o microfone, o timbre se suaviza. Uma mulher com aparência de uma guardiã ajusta a máscara da entrevistada e cochicha algo como: Vai lá, é seu momento.
— Hoje, ela pousa aqui, no PodReader, para conversar sobre seu mundo nublado, suas inspirações e essa doce arte de viver entre o sonho e a realidade.
Risos leves, e um murmúrio admirado percorre o público.
— Seja muito bem-vinda... A Morcega!
As luzes se apagam. Esse é o momento. O microfone capta o som do que parece ser uma criança dizendo algo para entrevistada... Agora você vai ser a atriz de... (na entrevista ele contará) ...deles também.
O auditório mergulha em um silêncio expectante, como se o ar prendesse a respiração. Então, um som grave e distante de asas batendo soa pelo sistema de áudio, sutil, quase real, e percorre o salão como uma onda noturna.
De repente, um foco de luz prateada corta a escuridão e pousa no centro do palco.
Lá está ela.
A Morcega.

Ela entra envolta em um vestido negro de veludo fosco, cujas dobras parecem absorver a luz. O corte é ousado e elegante, o corpete ajustado, realçando a silhueta, e a saia longa, fluida, costurada em camadas que lembram a textura das asas de um morcego, finas, leves, quase translúcidas sob o brilho azulado dos refletores.
Nos braços, luvas longas de cetim cinza-escuro com sutis reflexos arroxeados que se movem conforme ela respira, como se pulsassem vida própria. O rosto está coberto por uma máscara rendada em forma de asas, delicadamente contornada em prata velha, deixando apenas os lábios visíveis, com um toque de vinho noturno.
A plateia aplaude, fascinada. O som cresce, envolve o ambiente como um trovão abafado.
Então, lentamente, A Morcega abre os braços na horizontal.
O gesto é firme, quase um balé dos logo dos cisnes.
E nesse instante, a mágica acontece, o tecido do vestido responde ao movimento, e duas grandes asas se abrem de suas costas, num espetáculo de sombras e brilho. A transformação é acompanhada por um clarão de luz negra e lilás, que percorre o palco em espirais.
As luzes do auditório mudam em sincronia, o dourado suave se dissolve em tons de violeta e chumbo, e partículas luminosas projetadas do teto descem lentamente, como pó de luar.
O burburinho da plateia torna-se espanto.
Alguns se levantam, outros levam as mãos à boca, maravilhados. Há um breve silêncio reverente, o tipo de silêncio que antecede o aplauso mais sincero, e então, o público explode em gritos e palmas.
O som das asas no sistema de áudio se mistura à vibração real do público, e por um momento, é impossível distinguir o que é encenação e o que é magia.
No centro da cena, A Morcega permanece imóvel por um segundo, braços abertos, o vestido-asa vibrando sob a luz. O brilho violeta percorre suas luvas, desce pela barra do traje e desaparece lentamente, como se tivesse sido sugado de volta à penumbra.
Ela abaixa os braços com elegância.
O sorriso, discreto, quase secreto, surge sob a máscara.
E quando o último aplauso soa, o Corvo do Silêncio se inclina ligeiramente sobre a mesa, olhando-a como todos da plateia.
O microfone capta sua voz:
O público silencia. A entrevista vai começar.

Você vive dizendo que prefere a penumbra, os dias nublados, o silêncio das cavernas... Me conta, se você tivesse que montar uma playlist pra esses dias cinzentos, o que tocaria nela?
“Noite Preta” estaria nessa playlist. “Ainda é Cedo”, do Renato Russo com Marina Lima... “Rádio Blá”, do Lobão, “Virgem”, da Marina, “Garota de Berlim”, do Supla, “Church of Carmel” da Luciferian Light Orquestra e “Sou quase um alcoólatra”, do Wander Wildner. Essas músicas, quando ouvidas bem alto, me levam pra Netuno facinho!
Netuno, então, não é um lugar distante, é o pulso da própria música que habita sua escuridão serena.
Você também comenta sobre viajar para Netuno quando precisa escapar. Eu fiquei curioso: o que tem lá? Que paisagem é essa que você encontra quando foge na mente?

Viajar pra Netuno é o que eu mais faço! Rsrs. É quando eu começo a imaginar meus mundos paralelos. Onde eu sou odalisca no templo, pode ser também como princesa, rainha do Nilo, diretora de filmes pornô (não esqueça das aventuras de Vlanger kkk).
Eu imagino muita coisa rsrs. Mas meu amigo e meu marido me têm como a diretora do Borboleta estúdio, que é o lugar onde eu sou diretora e vivo contratando atores para os meus filmes. É assim, eu vejo alguém, imagino a cena e falo pro Morcego: Vou contratar! Várias vezes eu trocava fotos com o Morcego, conversas de cenas que eu imaginava nesses filmes.
E o melhor, são pessoas aleatórias e talvez as mais improváveis, exemplo o Vlanger é um cara com idade avançada. Amo imaginar um cara maduro, com uma pessoa mais jovem ou alguém totalmente fora dos padrões com um par assim que destoaria bastante pra formar par rs.

Netuno se revela como um espelho de desejos e personagens que você inventa para existir mil vezes. Suas fantasias são roteiros de liberdade, estilhaços de uma mente que transforma o proibido em poesia.
O palco ainda vibrava com a energia da transformação. As luzes, antes sombrias, agora dançavam em tons suaves de lilás e prata, refletindo nas bordas do vestido da Morcega como se pequenas constelações se acendessem em seu veludo. O público, extasiado, não conseguia conter-se, celulares erguidos, flashes estourando como relâmpagos num céu enfeitiçado. Alguns filmavam em silêncio, outros sorriam, incrédulos com a beleza quase sobrenatural da cena.
O Corvo do Silêncio, sentado à mesa ornamentada com arabescos negros e um microfone antigo, inclinou-se levemente para ela. Seu olhar, metade admiração, metade curiosidade, captava a aura que parecia envolver a convidada. A plateia se aquietou, o murmúrio das asas imaginárias cessou.
Como um corvo conhecedor do silêncio, ele iniciou:
Agora vamos falar um pouco do seu lado pedagógico. Você se formou em Pedagogia pela UERJ e se apaixonou pela alfabetização.
O silêncio que se seguiu foi puro encanto. A imagem da Morcega, uma criatura de sombras, símbolo de introspecção, contrastava com a ternura do tema. Era o paradoxo perfeito, a mulher das cavernas poéticas revelando-se também guardiã das primeiras letras, das mãos pequenas que aprendem a nomear o mundo.
E vem a pergunta sob o silêncio da plateia admirada.
Qual foi o momento mais mágico que você viveu ensinando seus filhos em casa, durante a pandemia?
O momento mais mágico que eu tive ensinando meus filhos na pandemia, foi o momento que Estevão começou a ler. Ele, totalmente cheio de preguiça, não tinha começado essa fase de ler na escola, mal juntava sílabas e também não queria realizar as tarefas. Eu lá, ensinando ele, treinando com ele a junção de sílabas.
Ver ele lendo, parecia uma mágica. Me deu muito orgulho! Parecia impossível ensinar ele. Ele estava muito desinteressado. Hoje ele tem 10 anos, lê e escreve muito bem e tem um vocabulário que muitas vezes me surpreende e isso fui eu que ensinei a ele. Me dá gosto demais isso!
A Morcega, ensinar alguém a decifrar o mundo é quase o mesmo que abrir asas dentro da mente. O brilho que você descreve nos olhos do Estevão é como um feitiço leve da felicidade, o tipo de magia que só os que amam o saber conseguem lançar.
Você tem um mundo imaginário tão vívido, nunca pensou em transformar essas viagens mentais em histórias ou livros infantis?
Já pensei! Eu tenho muitas ideias, Vampirão! Muitas! Eu tenho ideias muito originais. Eu gosto das viagens que minha mente faz. Mas muito provavelmente sou TDAH, e com a rotina exaustiva que tenho, me perco todinha.
Eu já vou fazer um canal no YouTube pra poder mostrar um pouco das minhas viagens pra vocês... Então é muita coisa! Mas eu quero escrever pra crianças, livros de magia natural. Livros de bruxinhas, fadinhas, os 4 elementos, ensinamentos de auto cuidado místico. Eu amaria!
Vejo que sua mente é um planeta inteiro, minha amiga das sombras. Bruxinhas, fadas, elementos... parecem nascer direto do nevoeiro dos seus pensamentos incansáveis.
Uma coisa que adorei foi a expressão “colmeia interior” O que tem dentro desta colmeia da Morcega? É barulhenta, doce, cheia de ideias, ou tudo isso junto?
Suas perguntas são mega interessantes! (precisava ser, afinal, estou diante de A Morcega) A colmeia interior é doce. É só a parte gostosa da vida. Que tem as partes que me interessam. A família que criei, as poesias e textos do RL que eu como como doce na ponta dos dedos, porque amo a catarse que esses me geram e seus escritos estão nessa linha, muita imaginação, boas comidas, um bom sexo e pra fechar com chave de ouro, o isolamento. Amo me isolar. Detesto quando sou obrigada a socializar, principalmente em dias de sol.
Então a colmeia é um refúgio doce e secreto... entendo. Há um poder curioso em gostar de se esconder, o poder de ver o mundo sem precisar habitá-lo. Isso é parte mim também.

Mesmo sem sala de aula oficial, dá pra sentir pelos seus relatos que ensinar tá em você. O que mais te inspira no universo da pedagogia?
O que mais me inspira no universo da Pedagogia, está relacionado com o ensinar a base. Esses anos iniciais são cruciais na construção do ser humano. Ensinar a uma criança a ler, escrever, conhecer as cores, conceitos de educação, regras sociais, as cores é encantador. Ver que através do seu ensinamento, aquela criança passou a fazer seus pequenos traços, cobre uma letrinha, junta as sílabas e pronuncia: BO-LA... Eu fico apaixonada! É lindo demais!
Você fala com brilho nos olhos, e isso transforma a sala imaginária num templo de descobertas. O público percebe o encanto, é quase como se escutasse aquela criança pronunciar pela primeira vez a palavra Bola.
A plateia sorri, alguns aplaudem em silêncio. A Morcega ajeita o manto, e o reflexo púrpura de suas asas cintila sob a luz suave.
Você e o Morcego parecem uma dupla afinada, e eu achei bonito esse cuidado mútuo. Como é essa parceria quando lidam com o público e os comentários?
Quando surgem os emocionados meu marido fica puto da vida. Até porque, eles são sem noção mesmo e parecem que tem alguma dificuldade cognitiva, porque não é possível. Você sabe que tudo que eu recebo, Morcego lê e eu aviso.
Quando eu vejo um cara muito emocionado que está querendo conversa, eu aviso: Pode ser por comentário, mas mesmo assim meu marido lê tudo. E todos sabem que ele odeia que fiquem de elogios a aparência que eles imaginam que eu tenho. O que o cara faz mesmo sabendo que o Morcego lê? Diz que não para de pensar em mim, diz que eu sou linda, diz que ficou com saudades... Infelizmente tenho que bloquear. Eu não aviso uma ou duas vezes, aviso muito mais, mas... Infelizmente tenho que bloquear.
O amor vigilante do Morcego é quase um feitiço de proteção — e você, com sua lucidez, transforma ciúmes em cumplicidade. A plateia ri baixinho, cúmplice dessa confissão tão humana.
A Morcega sorri com ironia, os flashes se multiplicam. O Corvo levanta uma sobrancelha, divertido.
Agora, brincando um pouco, se o Morcego e a Morcega virassem personagens de uma história, que tipo de aventura viveriam juntos?
Aventuras sexuais de 2 morcegos.
Ela observa a reação da plateia em risos e complementa...
Exploraríamos vários cenários, como o cemitério por exemplo e alimentando o meu voyeurismo, vendo o Morcego morder os pescocinhos e um pouco mais... Pode imaginar!
A plateia se agita, risos, murmúrios, flashes. O Corvo inclina-se e fala:
“Netuno que se prepare… dois morcegos invadindo o luar.” A Morcega gargalha, um som que mistura sedução e liberdade.
Quando o mundo lá fora tá barulhento demais, qual é o teu ritual pra voltar pro teu universo tranquilo, nublado e cheio de névoa boa?
Antes era comendo. Me enchia de comida boa e ficava viajando na maionese, mas isso me gerou quilos a mais kkk, levei um susto e agora treino diariamente pra reverter isso.
Hoje eu faço isso usando minha imaginação. Me visto de personagens na minha cabeça, escrevo poesias em primeira pessoa, me colocando em papéis (como o eu lírico) que combinam com a minha energia. É só me deixar na cozinha! Enquanto eu faço comida, fico imaginando na cozinha, eu interpretando vários papéis.
Transformar o cotidiano em palco, isso é arte. Cada panela da sua cozinha vira tambor de ritual, cada tempero, uma lembrança talvez de algo que possa ter vivido em outras eras. Quem sabe né.
O público observa, encantado, o poder que ela tem de reinventar o silêncio. A luz foca nela. O som de uma colher batendo soa, misturado a aplausos suaves. Cada gesto dela é um show.
Como você consegue ser mãe de especiais, ser esposa e ainda ter tempo para enfeitiçar o Recanto das Letras?
Consigo? Rsrs. Eu levo rsrs. Pode notar que não ando ficando muito aqui no RL. É tudo um caos, mas vivo um dia de cada vez, cheia de pendências, tudo bagunçado, mas estou tentando me encontrar, ajeitando o que eu posso rs. Atualmente a única coisa que anda fluindo certinho são meus treinos.
O caos também tem ritmo, e o seu parece dançar com disciplina.
A plateia se comove com a franqueza, o Corvo acena com respeito, num silêncio que diz mais que palavras.
Como nasceu a paixão pelo tarô, veio da família ou foi escolha sua?
Eu gosto de tarô desde criança. Assim como sempre fui ligada em magia natural. Quando você tem um mapa com Escorpião, Peixes, Sagitário ou até Câncer, em posição forte no mapa, sua mente vai te chamar pra essas coisas.
Tenho Lua em Escorpião, Mercúrio no signo de Câncer e Júpiter na casa 9. Eu achava que jogar tarô e outros oráculos, era algo que a pessoa nascia sabendo, mas não, nem sempre. Comecei com o tarô mesmo, aos 26 anos.
O público prende a respiração. A Morcega fala como se lê o destino de alguém que ela observa na plateia. O Corvo comenta:
“Então o oráculo te escolheu antes mesmo de você dizer sim a esta arte mística.”
Ela sorri, enigmática, e as luzes azuis cintilam.
Vo
cê também cita no perfil Morcega Moon que já deu "dicas" com muitos acertos. Pode falar sobre elas e pra quem?
Dicas pra clientes. Elas querem saber se os projetos darão certo, se vão passar em determinada prova ou entrevista de emprego, se fulano irá vingar determinada coisa. Eu acerto, mas não sou vidente, interpreto. As pessoas têm que saber que tarô não é vidência, mas pode ajudar muito pra fazermos escolhas mais ditosas.
A plateia murmura, impressionada. O Corvo responde:
“Então você é uma tradutora do invisível.”
A Morcega concorda, erguendo o queixo com graça. As asas se movem levemente, como se aprovassem.
M
orcega Moon, pra quem ainda não visitou o perfil — qual o propósito da página?
Um propósito que ainda não se iniciou rs. A página Morcega Moon será como um diário, e uma parte pra colocar textos aleatórios, os gritos da minha alma que não necessitam ser comentados. Ali vai ser uma escrivaninha livre, onde eu poderei me aprofundar em quem eu realmente sou e terá os eus líricos que eu quero dar voz.
O silêncio domina o teatro. O Corvo fala baixo, reverente:
Uma colmeia de sons interiores.
A plateia aplaude suavemente, respeitando o momento dela.
No seu terceiro post no Morcega Moon você cita dois nomes aqui do Recanto, e um deles é Felipe Félix, autor de "Entre a Vida e a Morte'. Qual sua visão desse conto?
Não li tudo rs. Morrendo de saudade, vocês não fazem ideia. Eu me perco todinha no dia a dia. Minha cabeça parece um emaranhado de gato. Estou pra ler o 33. Eu sou apaixonada por esse conto! O personagem principal, conhecido como Corisco, seu nome é Plínio, ele é um jovem rapaz que tem que assumir o comando na vida da fazenda, depois que seu pai desencarna.
A vida dele vira de cabeça pra baixo e ele tem que começar a correr com a ideia de casamento, tem que amadurecer e vai amadurecendo pra tomar o comando das coisas. Eu amo! Traz uma vibe que nos leva lá para aquele cenário. Sou louca pra montar no cavalo dele, o Relâmpago, mas na imaginação eu faço isso rs.
Risos e aplausos soam.
O Corvo responde, divertido: “Relâmpago que se cuide, há uma vampira literária à espreita.”
Ela gargalha, o público vibra. O palco, por um instante, parece flutuar entre o real e o imaginário.
Um feitiço gótico percorre a plateia, uma mistura de riso, encanto e surpresa. As luzes oscilam em tons roxos e cinzentos, refletindo o brilho do vestido da Morcega. O Corvo observa, enquanto câmeras piscam como vaga-lumes. Por um instante, o teatro inteiro parece respirar dentro do mesmo feitiço. O silêncio paira, e...
Quantos Filhos tem o casal?
Temos 6. Sou a Mamusca da novela Da cor do pecado que só teve filhos homens.
Um burburinho de espanto percorre o auditório, seguido por risadas suaves e olhares admirados. Alguém na plateia deixa escapar um “seis?!”, e logo o som de palmas preenche o ar. O Corvo ergue as sobrancelhas, enquanto a Morcega sorri, soberana, como uma rainha cercada por seus pequenos "morceguinhos" príncipes.
Ainda sobre a indicação você também citou o Corvo do Silêncio e dois de seus escritos, um deles é: O Coração Queimado de Lázaro. Qual capítulo você está lendo? Fale um pouco deste conto para quem ainda não leu. Sua visão de leitora?
Eu li até o 28. Conto maravilhoso também que a rotina e a minha cabeça confusa no caos me afastou um pouco dessa maravilha. Um conto onde o personagem principal é o Lázaro. Ele faz parte de uma egrégora de magia que preza pelo bem.
No desencarne de sua esposa Aurora, havia uma promessa de reencarne dela e ela retorna aquele local, agora com outro nome e foi a trabalho sem saber o que a esperava. Lá ela descobre a sua missão, o porque de ver uma sequência de sincronicidades e compreende que é uma das escolhidas.
Ela, reencarnada, se une novamente a egrégora de Lázaro e eles tem a missão de derrotar o mal da egrégora oposta onde Capricórnio é o vilão ambicioso que quer tudo pra alimentar seu ego. Emocionante demais o conto. É fiel as características de luz e sombra dos arcanos.
Quando eu leio eu me sinto exatamente no lugar. Um lugar ermo, com suas janelas embaçadas pelo frio. Eu amo essa sensação de ser transportada por local. Você e o Felipe Félix me mimam com os contos de vocês.
Tuas palavras revelam quem não há só o fogo, mais há também o frio no seu altar.
Ci
dade das Uvas, foi este conto que através de sua protagonista Carla, pude conhecer uma leitora diferenciada no sentido de comentar o que realmente ler.
Fique à vontade para falar sua experiência ao ler Cidade das Uvas. Fale um pouco deste conto para quem ainda não leu. Sua visão de leitora? E qual sua identificação com a personagem?
Em Cidade das Uvas temos Carla, que também bem jovem, fica sem os pais, depois perde a vó e tem que assumir a demanda da vida no campo administrando a logística dos trabalhadores, lidando com todos os dramas de estar sozinha e descobrindo segredos.
Ela é uma mulher bela, firme e decidida e que se apaixona por um jovem de uma família rival a família dela. Maior BO! Eu achei tão sexy as pistas que ele deixava para ela. Mostrando que ele estava sempre a observando. Acho isso um sex appeal, mexe muito comigo. Minha identificação com ela é só a força interior, mas ela é muito mais yang, ela bota peito no que ela quer. E eu sou só uma guerreira cansada e resiliente rs.

Poderia dizer que Carla vive em ti, Morcega. As uvas que ela colhe são também as tuas feridas e desejos. Entre o trabalho e o amor proibido, eu diria que você esta entre seus afazeres do dia a dia e o recanto.
Erivas a Guardiã. Percebo lendo seus comentários nos textos dela, e comentários dela nos seus textos, uma amizade. Esta amizade é apenas literária ou é presente também.? Digo, vocês se conhecem pessoalmente?
É uma amizade literária que é apenas aqui no Recanto das letras. Eu nunca a vi pessoalmente e moramos muito longe. Tudo surgiu porque eu me apaixonei pela escrita escorpiana dela. Ela me gera uma catarse que eu me reviro do avesso. Depois conheci teus escritos e você também escreve de maneira escorpiana. Esse tom noturno, soturno, melancólico, intenso e às vezes até obsessivo vai mexer com as sombras da minha lua em Escorpião. Sou apaixonada!
É bela essa irmandade lunar entre as sombras de vocês duas aqui neste espaço de escritoras.
Cinco poetas ou poetisa que leem seus textos.
Erivas, a guardiã, Corvo do Silêncio, Felipe Félix, RickSteindorfer e Suzete Palitos. Minha colmeia é pequena. Só tem os que ressoam com a minha energia.
Poderia escrever um livro e ainda assim não diria um por cento da distinta capacidade individual que cada um tem. Acho que sua colmeia é pequena no tamanho, mais tem uma qualidade vai do sertão a Baviera.
O que em rápidas palavras, você diria a eles se os encontrasse?
Go
staria de dizer uma coisa do fundo do coração: Que a nossa troca nesse Recanto siga fluindo até o fim de nossas vidas. Eu valorizo demais isso e vocês não fazem ideia do quanto esse vínculo me abastece.
Caverna. Da onde surgiu esse slogan, que você certamente se refere a sua casa.
Estou amando suas perguntas rs. Caverna porque os morcegos gostam de ficar lá. Quem vê Morcego de dia? Eu sou uma mulher que vivo isolada do mundo. Detesto essa claridade toda na minha cara. Minha casa é minha caverna porque lá eu me fecho, me escondo da claridade e me isolo do mundo.
Então a caverna é teu templo. Nela, o ruído do mundo morre, e o som do pensamento desperta.
Você tem formação em pedagogia. Pensa em exercer essa profissão num futuro próximo?
Exercer minha formação fora de casa, não tenho intenção. Estou fazendo um curso também pela UERJ que é para aprender a lidar com a demanda dos autistas no dia a dia. Eu acredito que eu tenha uma missão, que eu pretendo exercer que é de aprender ainda mais, pra ajudar mães de autistas, mais especificamente as mães de autistas severos.
Acho brochante você ver os vídeos e livros ensinando a cuidar de autistas comuns do dia a dia. E os severos? Então aí que eu vou entrar. Quando eu estudar pra essa parte, eu irei compartilhar o que sei, mas de maneira virtual, através de vídeos e até curso.
Que tua missão com as mães de autistas seja a tua nova poesia que iluminará não só o invisível, mais o real.
Você é mais de seis, e quantos são especiais? Qual o nome deles?
Eu sou mãe de 4 especiais. Mas dois deles são autistas severos e os outros dois seguem uma rotina comum de uma criança neurotípica. Meus autistas severos se chamam Heitor e Ícaro.
O amor de mãe de é teu ofício secreto, Morcega.
Qual a visão que seus filhos têm de você como mãe, protetora, como alguém que sempre está para eles.
Eles me tem como o colo do refúgio. Aquela que nutre, que bota comidinha a mais no pote, que defende. Eu não sou boa disciplinadora, essa função quem faz melhor é o Morcego e eles reclamam que eu passo a mão na cabeça dos mais novos.
Só que eu sou a que passa a mão na cabeça de todos. Reconheço que eu preciso melhorar nesse ponto. Eu não me acho tão permissiva, mas eu passo pano pra muita coisa que eu não deveria. Mas estou melhorando rs.
Entre erros e acertos, tua ternura é disciplina disfarçada de perdão. Teus filhos crescem em tua sombra protetora, e isso é motivo de orgulho.
Uma frase que define o amor e gratidão dos seus filhos para você. Qual seria?
Vou deixar uma frase do meu filho de 9 anos:
Mamãe, como eu não vou te amar, se você foi a minha primeira fonte de abundância?
Eu sou a proteção deles. Eu sou uma mãe perdidinha, viajante da maionese, que se não anotar esquece tudo, não estou me achando boa mãe, mas amor, eu sou demais e eu nutro, eu protejo. Eles tem em mim um abrigo.
Há frases que parecem terem sido ditas a séculos. Essa do teu menino é uma delas. E, Morcega, abundância, é o outro nome que é dado para as mães guerreiras.
Complete a frase: mamãe é uma atriz (...) qual é mesmo o nome que seu filho fala?
Kkkkk Mamãe, você é uma atriz pobre! Pare de ficar testando seus papéis comigo. Eu invento. Adoro encenar, meu Deus kkk. Ele se chama Estevão. E tem 10 anos.
Não disse a vocês que ela mesma ia dizer o nome da atriz que recebeu de seu filho. Estevão é um fã de carteirinha.
As luzes baixaram um tom, deixando apenas o foco sobre a Morcega, que riu surpresa, meio tímida, quando o Corvo ergueu a voz: “Vamos aplaudir nossa atriz!”. Um instante de silêncio precedeu o estouro de palmas, intensas, sinceras, misto de carinho e espanto. Alguns se levantaram, outros bateram palmas de pé, sorrindo, emocionados. A Morcega levou a mão ao rosto, rindo e chorando ao mesmo tempo. O Corvo sorriu, observando o brilho nos olhos dela. A plateia parecia entender, naquele momento, que não aplaudia apenas uma entrevistada, mas uma alma inteira em cena.
O silêncio e as luzes dançando da lugar a pergunta do corvo. No momento em que alguém entregava um lenço para a Morcega
Não recebo e-mails. Você deixou bem claro em seus dois perfis. Para quem não sabe, explique os motivos dessa decisão entre você e o Morcego.
Já tivemos muitos problemas com e-mails. Basicamente a decisão veio porque eu acho que os caras que fazem isso eles estão ficando assim, com algum tipo de demência.
Não é possível você saber que meu marido lê tudo e você vai começar a me cantar e se declarar pra mim. Eu tenho uma fala muito acolhedora né? Meu normal é esse. Eu acho que as pessoas confundem. Eu não estou aqui me achando, mas devido a série de cantadas e declarações de gente que sabe que meu marido vai ler, esse foi o motivo principal de encerrar essa ideia de contato.
E mesmo se eu pudesse, sinceramente, eu não consigo dar atenção nem pra quem eu conheço. Meu bebê espera horas pelo meu colo. Imagina se eu tivesse amizades por e-mail? Uma pessoa (mulher) já tentou isso e se frustrou rapidamente. Não é má vontade. Eu não tenho tempo.
Proteger tua casa e tua paz é também poesia. Que teu acolhimento siga puro, sem ser confundido com convite para ferir.
Você pensa em publicar algum livro aqui no recanto ou numa casa publicadora?
Penso em publicar. Mais como uma ideia de hobby. E só vai querer ler minhas peripécias quem me amar muito rs. Eu vou liberar os pdfs que eu fizer.
Que teus PDF voem como morcegos na noite, leves, misteriosos, carregando fragmentos do que és por dentro.
Você já teve participação em algum livro ou projeto literário aqui R.L ou casa de publicação?
Eu já fui chamada por aqui pra fazer participação pela editora Palavra é arte e eu topei. Tem lá minha parte rs. Foi um BO pra pegar esse livro pq lá nos Correios a caixa veio com meu nome artístico rs. E pra provar que eu era aquele nome? Fiquei um tempinho lá até ele se convencer que eu era a Leona Capri.
Ah, Leona Capri! Até nos Correios você causa um pequeno feitiço de mistério. É fascinante ver como até sua identidade literária transcende o papel e confunde o mundo real.
Risadas soam, o público se inclina curioso, alguns cochicham surpresos com a confusão nos Correios. Flashs capturam o sorriso da Morcega, que gesticula divertida, envolta em luz azulada do palco.
A Morcega é uma figura cheia de mistério, mas quem é a mulher por trás desse nome?
Quem é essa mulher? Uma mulher mãe, que tem uma rotina que sobrecarrega até a alma, não pira porque já é meio doida. Viajante da maionese, mãe apaixonada pelos filhos e aquela que é sempre solicitada quando alguém quer desabafar e opta por alguém que acolhe sem criticar. Extremamente anti social, prefere os dias que fica em casa, pois detesta ter que interagir.
O público silencia, atento, tocado pela sinceridade. A luz baixa reforça o tom confessional. Algumas cabeças acenam, um murmúrio de empatia percorre as primeiras fileiras, onde brilham olhares emocionados.
Como nasceu essa personagem que hoje vive nas palavras e nas sombras do Recanto?
Até hoje eu penso se a Morcega é uma personagem. A Morcega é o nome do meu lado escorpiano. Dizem que não tem como alguém ter tantas personalidades. Isso não se encaixa comigo. Meu marido me chama de fragmentada. Eu sou muitas! Morcega é alguém que sempre existiu, eu apenas dei o nome para esse meu eu noturno.
E esse nome surgiu através de semelhanças. Morcego é um bicho noturno e eu sempre prefiro as noites, ele foge da claridade, assim como eu, sempre que eu posso e se tem nele uma egrégora criada bem fantasiosa sobre estar relacionado com uma pegada mais gótica e meu eu escorpiano é assim. Disso veio a Morcega. E o Moon é a lua. Eu sou completamente ligada na lua. Pela aparência dela, suas fases e tudo que o arquétipo lunar representa. O feminino, o gerar, a instabilidade, o mistério, a magia... E muito mais.
Quando você tira a máscara da Morcega, o que te faz sentir mais viva no dia a dia, o silêncio, a imaginação, ou a conexão com as pessoas que te leem, os filhos, a família e claro o marido?
O que me faz me sentir mais viva no dia a dia? Ter a certeza que eu não vou precisar sair de casa, céu nublado e eu poder estar sentada perto dos que moram comigo, podendo viajar no Recanto. Nossa, aí dá muita onda. Principalmente se for um dia que eu não precisarei ir pra cozinha, porque assim poderia esticar um pouco as pernas. Eu só vivo de pé!
É aí, nesse ambiente que mora a plenitude dos seres noturnos como você.
Risos suaves surgem entre o público, identificando-se com o humor leve. Um foco de luz branca cai sobre ela, revelando um olhar calmo, pleno, como se estivesse em se o próprio lar.
Você é formada em Pedagogia e fala com muito carinho sobre o universo da alfabetização. O que mais te fascina nesse início de jornada das crianças com as palavras?
O que mais me fascina nesse início de jornada com as palavras, nas fases iniciais, é exatamente a importância disso. Ensinar uma criança a ler, te faz eterno. É ter a missão de dar uma chave para um portal faustoso. Você ensina ela a descobrir o mundo. Uma das coisas mais lindas, do top 5 da minha mente.
Sua paixão pela alfabetização mostra que, por trás da Morcega, há também uma semeadora de mundos e palavras.
Aplausos longos e genuínos repercutem. Alguns levantam discretamente os celulares para registrar o momento. A Morcega agradece com um aceno tímido, visivelmente emocionada, enquanto o Corvo sorria em cumplicidade.
Mesmo sem estar em sala de aula formalmente, você tem um projeto pessoal com educação. O que te move a continuar estudando e preparando esse sonho dentro de casa?
O que me move primeiramente são meus filhos. Eu quero que eles desenvolvam as potencialidades deles no seu máximo de potência. E eu tenho um jeito muito particular de ensino. Assim como eu não tenho métrica, eu também não tenho uma didática específica, mas sei de uma coisa: O que eu ensino, a pessoa aprende.
Eu dava aulas de matemática na escola de tarde, pra alunos que não entendiam nada com os professores. Dava aula desde muito criança. O que eu me proponho a ensinar, se torna fácil na mente de quem aprende e é exatamente por isso que eu quero continuar. O que é difícil para os outros e eu sei, eu consigo passar de maneira que a pessoa aprende. Quero ajudar, quero facilitar!
Quando você não está escrevendo, o que costuma te trazer leveza? Tem alguns hobbies que te ajudam a recarregar as energias?
Olha, eu não tenho tido hobbies. Mas os esporádicos momentos e sempre de pé e corridos, são ouvir música, ficar no Recanto, falar sobre magia natural e filosofar sobre o dia a dia. Amo!
As músicas que você já citou, estaria numa trilha sonora para acompanhar a tua escrita, aquelas músicas que casam com tua alma “nublada” e poética, quais artistas ou canções estariam nessa lista além das que você já mencionou?
Noite Preta de novo rs, Doce Vampiro, Renato Russo, a banda Therion e Luciferian Light Orquestra.
Qual foi o livro que mais te marcou e, de certa forma, te ajudou a construir esse olhar tão sensível sobre o mundo?
O Evangelho segundo o Espiritismo. Estudar sobre Jesus, o mestre ascencionado que eu amo muito, me trouxe esse olhar. Foram muitos anos estudando esse livro. A minha base moral foi totalmente influenciada pelos anos de evangelização (no modo kardecista).
É bonito ver a fé se transformar em poesia, e a moral, em arte silenciosa que ilumina sem precisar gritar.
Um silêncio reverente domina o auditório. Algumas mãos se unem em prece discreta. A Morcega abaixa o olhar, comovida, enquanto uma luz branca sutil reflete sobre seu semblante.
Há algum autor ou poetisa que você considera uma espécie de farol, alguém que te inspira a continuar escrevendo e sonhando?
Alguns. Atualmente o André Flores. Que é um rapazinho. Ele é autor de livros, YouTuber e inclusive fomos no show dele. Mesmo tão novo, ensina a gente a necessidade de persistir.
Você costuma dizer que não gosta de dias de muita luz, que o sol te incomoda. Existe algo simbólico nessa relação com a claridade, ou é simplesmente o conforto da sombra que te encanta mais?
Reparei que tem algo simbólico e também o efeito físico. Eu detesto claridade. Não é uma personagem. Eu detesto. Hoje está sol lá fora, eu vou ter que ir pra rua. Essa claridade já está me incomodando na janela. Eu gosto de dia nublado.
Aqueles que tem cara de chuva. Qual o simbolismo que observei aí? Que eu gosto de dias que tem cara de isolamento. Quando o tempo está fechado, as ruas tendem a ficar mais vazias. Agora vai nessa claridade. Verei a praça cheia, tudo cheio. Eu gosto dos dias com menos luz porque eles me deixam reservada, exatamente como eu quero ficar.
O sol te fere, mas as nuvens te abraçam. És filha dos dias nublados, e é nesse cinza poético que tua alma encontra repouso, silêncio e beleza.
Luzes frias envolvem o palco. Sons de vento e chuva preenchem o ambiente, criando uma atmosfera melancólica e bela. A plateia observa em silêncio, completamente imersa na aura da Morcega.
Nesse momento uma jovem se aproxima do palco, o livro apertado contra o peito. Os olhos marejados revelam a emoção de quem esperou anos por aquele instante. “Eu te acompanho desde quando você era A Borboleta…”, diz, a voz tremendo. A plateia silencia, e a Morcega, com um sorriso doce, segura o livro da editora Palavra é Arte. Abre na página marcada, escreve com calma o autógrafo, e ao final desenha um pequeno morcego no canto. Depois, levanta-se e a abraça.
A jovem soluça, tomada pela emoção: “Eu também vou escrever no Recanto como A Corujinha Solitária.” A Morcega sorri, a reconhece, e a abraça mais forte. Um murmúrio de ternura percorre o auditório; câmeras piscam, capturando o momento raro entre duas almas noturnas que se entendem sem palavras. O Corvo do Silêncio, com o olhar profundo, se inclina para o microfone e diz, com voz grave:
Admiremos este momento.
E quando o dia insiste em ser ensolarado, como você faz pra encontrar um cantinho de sombra e paz dentro desse excesso de luz?
Porra... É tenso. Hoje está assim, essa claridade horrível. Eu vou ter que sair. A minha mente se recusa, mas sai. Encontro a sombra onde? Não encontro rs. Só quando chega o fim da tarde, e aí eu fico mais de boa. Parece neurose, mas essa claridade toda é invasiva. Me tira do esconderijo. Me obriga a socializar. Eu sou anti social levemente flexível tá? Queria deixar claro.
Um poema inteiro em forma de desabafo. Quem nunca quis ser sombra no meio do excesso de luz?
A plateia ri suavemente; alguns acenam em cumplicidade, entendendo o incômodo da claridade lhe causa.
Conte-me como foi a experiência que você narra tão bem na sua crônica: Morcega Foi Ver o Sol. Fale da amizade feita com a vozinha e a felicidade dos filhos.
Foi lindo esse dia. Primeiramente porque eu estava bonita e isso não anda ocorrendo. Meu filho amou brincar com o neto dela. A amizade continua meio mal. Ela me ligou algumas vezes, só que como eu disse, não fico no meu celular. Atendi as ligações, ela algumas semanas atrás falou do neto, eu perguntei e ela sumiu. Sinceramente, eu acho que não vai fluir muito.
Ela quer uma amizade pra ela ver mesmo e eu não gosto assim de sair. Poderia ir lá na praça? Poderia. Só que os horários dela não batem com os meus. Pra eu sair, é uma novela. Você pra sair você vai se arrumar, vai pegar tuas coisas. Aqui vai muito além. Fora você arrumar a criança e ela está com fralda suja e tudo sujo minutos antes de sair. Minha logística diária é pra super herói. Então ficou nisso rs. Em breve ela vai ligar de novo rs.
Você fala com tanto carinho sobre os seus filhos, o que eles te ensinaram que nenhum livro ou curso jamais conseguiria ensinar?
O valor de amar incondicionalmente, saber lidar com as diferenças, compreender que meus defeitos mais a fundo e aprender que cada um tem seu estilo, e não temos que querer invadir a escolha pessoal alheia.
Lição da Morcega: amar é aceitar o que o outro é, sem querer editá-lo.
O público reage com murmúrios de aprovação e alguns aplausos contidos.
Cuidar de filhos especiais exige uma força silenciosa. O que te sustenta nos dias em que o cansaço parece querer pousar sobre as asas?
Eu estava vendo agora um vídeo de uma mãe de autista chorando. Eu lido com dores de maneira estranha. Eu me iludo. Cheiro poesia, tomo porre de Netuno, tudo que eu invento na cabeça. Então eu finjo tanto que tá tudo ok que eu acredito rs.
Eu tampo as dores, eu tampo as lágrimas. Não é algo saudável, mas eu vivo assim. O que me sustenta é amor e resiliência. Eu tenho grandes cicatrizes, mas o amor e a fé divina, mais os anestésicos da ilusão me mantém assim. Uma mulher que ri muito e que acolhe.
Existe algum momento marcante, uma pequena conquista deles, que você guarda no coração como um lembrete de amor e superação?
Ver meu filho de 12 anos, praticamente autista não verbal, falar mamãe. Alfabetizar um garoto autista e TDAH e ver o gênio da tecnologia que que ele é e ele é meu filho de 10. Ver que meu filho de 9 é autista grau 1 e é considerado o melhor aluno da sala e enchem ele de elogios pra mim. Me sinto grata demais!
De que forma a poesia te ajuda a lidar com os desafios e as emoções que vêm junto com a maternidade especial?
A poesia me ajuda a lidar com essas questões punks, me adoçando, me anestesiando. Quando eu leio uma poesia boa, eu saio de mim. Eu quero ler mais e mais. Eu me visto de cada eu lírico. Uma pena que atualmente eu não tenho podido ter essa onda como antes, mas voltarei.
Você publicou algum poema, crônica como uma homenagem ou um conto sobre eles (seus filhos)?
Não! No passado sim. Eu tenho um, do bilhete de eu te amo que fala do Apolo. Eu não escrevo sobre eles pra não me marcar rs. Tipo, quanto mais saberem de mim, mais fácil me acharem. Eu não quero ser achada. Quero ficar reservada. E por isso não quero que saibam meu nome. Eu não escrevo ele no perfil.
O Morcego, teu companheiro de vida e de escrita, também voa por essas páginas do Recanto. Como é compartilhar esse universo literário com ele?
Eu amo! Morcego é um filósofo! Conversar com ele pode ser muito desconfortável pra quem gosta de se agarrar em verniz social e em fanatismo. Morcego é um cronista, que de vez em quando faz poesia. Se ele botasse pra fora seu lado cronista ele ia atrair muitos amores e mais ainda haters. Ele tem uma visão muito reflexiva e diferente do comum. Fechado, direto e questiona tudo.
Um casal que filosofa junto sobrevive até às madrugadas de insônia as "duas" da manhã regado a versos e coisas. (risos)
A plateia ri, e a Morcega esconde o rosto, meio tímida, mais sem perder o ara noturno que a envolve.
Quando um escreve e o outro lê, há troca de inspirações? Vocês se influenciam poeticamente ou cada um tem um céu diferente pra voar?
Cada um tem seu céu diferente pra voar rs. Ele não é fã do meu lado florzinha. Inclusive aquele texto sobre o pensamento lá, que fala do fermento que leveda toda a massa, ele não comentou rs.
Ele é azedo, pessimista e tem sua visão muito particular da vida. A gente se parece no lado anti social, na intensidade, no lado de não nos metermos na vida dos outros e de ajudarmos os outros naturalmente, pois acreditamos que isso deveria ser obrigação. De resto... Não rs. Eu sou Vênus e ele é Marte rs. Somos complementares.
Vênus e Marte… poesia e lógica em órbita. Talvez seja por isso que o amor deles não cai na Terra.
A plateia ri e aplaude; o clima se torna leve, quase cúmplice. O Corvo ajeita o microfone, olha para a Morcega e diz:
E agora… uma pergunta que talvez voe mais fundo.
As luzes diminuem levemente, prenunciando o próximo bloco da entrevista.
O nome “A Morcega” é curioso e cheio de simbolismo. Como nasceu esse pseudônimo? Foi uma escolha espontânea ou tem uma história por trás das asas?
O pseudônimo que eu mesma escolhi, por identificação. Só vivo na caverna, ninguém me vê a luz do dia praticamente kkk, prefiro sempre as noites, então eu vi a semelhança com o bichinho. Eu vejo no caso como um arquétipo e que combina muito comigo.
A gente percebe que suas palavras vêm de um lugar muito sensível, como se cada texto fosse uma janela do seu próprio mundo interior. Quando você escreve, sente que está se libertando, se protegendo, ou talvez um pouco dos dois?
Sinto que estou me libertando. Que estou encenando. Cada poesia ou prosa poética, eu estou colocando pra fora um personagem. Gosto tanto disso que você pode notar que eu só escrevo poesias em primeira pessoa.
Você tem 127 textos publicados, isso é uma trajetória linda! Olhar para trás e ver tudo o que já escreveu desperta o quê em você: orgulho, nostalgia, ou aquela vontade de reescrever tudo de novo com o olhar de hoje?
Sinceramente, não sinto orgulho. A lista do que eu apaguei me gera é uma vergonha rs. Eu era muito apelativa. Ainda bem que eu apaguei o que não ressoa mais comigo. Eu não tenho orgulho do que escrevi, porque ainda não fiz nada sério. Estou no momento apenas brincando ou dando conselhos que acredito que possam ajudar. Eu nem sou poetisa, inclusive.
O desapego também é maturidade literária. Apagar o que já não te representa é sinal de quem escreve para ser, não para parecer.
Alguns escritores no público como Felipe Félix, Rick Steindorfer, Suzete Palitos e ela Erivas a Guardiã acenavam em concordância. O som das palmas discreto, mas sincero. A Morcega sorri, e não acredita que os amigos estavam presentes.
De onde vem a inspiração para seus escritos? É do silêncio, dos dias nublados, das pessoas ao redor, ou dos mundos paralelos que você costuma visitar lá em Netuno?
A inspiração vem de tudo que eu já vi e às vezes do que vivi. São personagens que brotam na cabeça. Uma lembrança, uma palavra, uma ideia e eu começo a destrinchá-la. Escrevendo em primeira pessoa porque eu gosto de sentir a catarse rs.
Quando você senta para escrever, existe algum ritual? Um horário preferido, uma xícara de café, uma música, uma luz específica, algo que te ajuda a entrar no clima da Morcega escritora?
Quem me dera rs. Tudo é escrito em pé, no meio de uma comida que eu estou fazendo ou escrevendo de pé e ouvindo: Ouuu, o fulano tá sujo! E eu tenho que deixar de escrever no celular pra ir pegar a criança. Meu objetivo é ser a pessoa que senta pra escrever. E nesse período, eu serei a pessoa que vai mostrar que pode trazer materiais substanciosos no sentido literário.
Você costuma dizer que vive “na caverna, na ostra”, mas seus textos são pontes, eles alcançam pessoas, tocam corações. Você se surpreende com o impacto que suas palavras causam em quem te lê?
Não me surpreendo! Afinal quase ninguém lê. O Recanto não é um espaço onde normalmente as pessoas querem ler. Elas querem mostrar o que escrevem. Eu leio de verdade. Os comentários que vem de quem lê de verdade, não me surpreendem, me alegram. Eu amo essa troca!
Falando em leitores, o que você diria hoje pra quem acompanha A Morcega desde o começo, e pra quem acabou de chegar agora no seu universo poético?
Gostaria de dizer para pararem de associar minha escrita com a minha moral. Nem tudo que eu escrevo sou eu! Gosto de me vestir de tudo que é tipo de personagem.
Dentro dos seus planos de vida, você mencionou um projeto educativo que sonha desenvolver na sua casa. Você acredita que a escrita e a pedagogia se cruzam nesse caminho, que uma alimenta a outra?
Com certeza! Porque a criação que vem através da escrita, traz muito do lúdico. Eu amo trazer o lúdico para o processo de alfabetizar e também pra ensinar no geral.
Todo autor tem um texto que considera um divisor de águas. Tem algum entre os seus 127 que representa quem você é, aquele que você lê e pensa “essa sou eu”? Meu chute. Rubi e o Jardineiro. Acertei?
Nãooo kkk. A Rubi é muito direta. Eu gosto de tudo que é bem velado. Que vai deixar dúvidas. Ela deixa a certeza para o jardineiro. Eu me identifico muito mais com a poesia "Consagrei meu perfume na lua cheia, pois era o seu cheiro preferido." E em todas as poesias que hipnotizam. Eu gosto de marcar na alma.
Um pequeno intervalo, o auditório se encheu de murmúrios. O público se levantava, alguns foram buscar café, outros queriam apenas se aproximar dela, A Morcega, que sorria tímida, segurando o microfone com uma das mãos e ajeitando o cabelo com a outra.
Entre os que se aproximaram, Felipe Felix foi o primeiro a falar, ainda com o brilho da emoção no olhar:
—Morcega, tua fala sobre o silêncio foi um espelho. A gente vive cercado de barulho, mas teu silêncio parece dizer mais do que muitos discursos.
Ela riu, leve, o olhar descendo como quem evita elogios:
— Eu só traduzo o que o silêncio me cochicha, Felipe. Às vezes ele fala mais alto do que eu gostaria.
Rick Steindorfer se aproximou em seguida, o casaco sobre o ombro:
— Poder vim aqui te prestigiar para mim é como adentrar onde arte imita a vida de verdade? Falas como quem sangra e ainda consegue rir do corte.
— É o que me mantém viva, Rick, respondeu ela, piscando. Se eu não rir, eu viro sombra demais até pra mim.
Suzete Palitos, abriu os braços: — Ah, mulher! Tu és a prova de que poesia tem pulso! Eu mim mexi, me remexi toda com aquela poesia “Cartasse da Paixão”.
A Morcega se comoveu, abraçando-a com força.
— Obrigada, Su. Às vezes escrevo achando que ninguém vai sentir. É bonito quando alguém sente de verdade.
Por fim, Erivas, a Guardiã, falou num tom sereno, quase místico:
— Cada palavra tua nesta entrevista carrega uma proteção ancestral. É como se tu escrevesses pra curar, não pra mostrar. Né menina morcega.
A Morcega sorriu, emocionada: — Talvez eu escreva pra sobreviver, Erivas. E se alguém cura junto, é bênção dobrada.
O som de uma leve batida soou. O Corvo do Silêncio voltou ao palco, ajeitando o microfone.
As luzes baixaram novamente. A plateia retomou os assentos em expectativa.
Morcega respirou fundo, o sorriso discreto.
O intervalo havia acabado, e a entrevista recomeçava.
Se A Morcega pudesse deixar uma última frase soando no Recanto, algo que resumisse sua jornada, sua forma de ver o mundo e o que você sente pelos leitores, que frase seria essa?
Gentileza gera gentileza! Sou grata por cada troca, que é um presente que dinheiro nenhum paga.
Uma frase simples e poderosa, que reflete tua essência, Morcega.
A plateia reage com ternura, alguns erguem celulares, outros sorriem emocionados. O nome “Gentileza gera gentileza” é repetido em coro suave.
A Morcega, você é uma mulher de sensibilidade profunda e fala muito sobre empatia e respeito nas suas interações. Como você enxerga hoje o cenário da violência contra a mulher no Brasil, principalmente a violência silenciosa, aquela que acontece dentro de casa ou nas redes sociais?
Tenho um grito engasgado dentro de mim com relação a isso. Dói na minha alma! E pensar que muitas estão passando por isso, porque a justiça demora tanto a fazer algo de efetivo, que elas optam por não fazerem a denúncia porque sabem que no meio tempo ali, até ocorrer algo efetivo, serão assassinadas. Eu falo direto com meu marido que ainda vou atuar ajudando mulheres assim. Tenho raiva! Covardes que agem assim. Vão pagar caro na justiça espiritual!
Teu grito engasgado é o grito de muitas, Morcega. Tua voz traz a coragem de muitas em forma de palavra. Que ela reverbere e desperte outras que ainda se calam.
A plateia aplaude de pé. Mulheres trocam olhares cúmplices; o Corvo a observa com respeito silencioso, o clima denso e comovente.
Muita gente ainda acha que a violência é só física, mas sabemos que há feridas que não deixam marcas visíveis. Na sua visão, qual é a forma mais cruel dessa violência que ainda passa despercebida pela sociedade?
A forma mais cruel e que passa despercebida na sociedade desse tipo de violência, são as mulheres, várias que nós vemos até de perto, que o maridão grita, não mete a mão nelas, mas ofendem, diminuem suas mulheres, ameaçam que se terminar, irão matar, fazem elas acharem que tudo é culpa delas... Olha, me dando até nervoso de falar disso. Eu tenho uma dor de pensar nisso. Ah, que triste! Umas das mazelas da nossa sociedade. Quantas nesse momento estão se sentindo vulneráveis e tolhidas?
Dói ouvir e mais ainda reconhecer, mas tua fala é necessária. Nomear o invisível é o primeiro passo pra curar as feridas que o mundo insiste em esconder.
O público silencia, reflexivo. Uma mulher enxuga discretamente as lágrimas; o som das asas da Morcega parece soar como um suspiro coletivo.
Você acredita que a educação, algo tão presente na sua vida e nos seus projetos, pode ser uma chave real para combater esse ciclo de agressão e machismo?
Com certeza! Primeiramente porque investindo na educação, muitas buscarão sua autonomia. Outra coisa é que acredito eu que quanto mais conhecimento, mais empoderamento e uma pessoa que se valoriza e sabe do que merece, sabe o que cabe ou não dentro de uma relação, não se sujeitaria muitas vezes a esse tipo de vínculo. Mulheres que sabem do seu potencial, que tem conhecimento, em grande número evitariam um cara machista.
Brilhante sua visão, Morcega. Educação é a raiz da liberdade. Ensinar é empoderar, e empoderar é romper o ciclo da submissão. Tua fé na educação é revolucionária.
A plateia concorda em murmúrio. Professores presentes aplaudem com fervor. O Corvo ergue o olhar, orgulhoso da lucidez da resposta.
Como a escola, a família e os educadores, o poder público pode agir de forma mais eficaz?
A família tem que acolher mais. Canso de ver gente da família que aconselha que a pessoa se sacrifique pelo seu casamento e num caso como esse, a pessoa fica passando mais ainda por agressões físicas e/ou verbais, o governo deveria investir mais na divulgação sobre esse tema nas escolas, universidades, outdoors, propagandas... Temos que ter os cursos sobre isso de maneira mais divulgada e aumentar o número de abrigos e parar com as limitações.
As mulheres que são agredidas e solicitam um abrigo, além da espera, podem levar filhos até determinada idade só. Tipo, pelo que lembro, até 11 ou 12 anos, depois não podem ficar com ela. Muitas desistiram só por isso, não vão querer ficar longe de seus filhos. Temos que melhorar isso aí! Dar um suporte melhor e compreender que é emergência. Precisam agir com senso de urgência no acolhimento.
Falou como educadora e como mulher. Tua visão é prática e humana. O acolhimento é o primeiro ato político do amor. Que te ouçam, Morcega.
O público explode em aplausos. O som soa no salão gótico. A Morcega inclina a cabeça em gratidão; o Corvo sorri discretamente.
Sabendo que você é casada e tem um relacionamento de parceria e respeito, o que diria às mulheres que ainda vivem relações abusivas e têm medo de dar o primeiro passo para sair delas?
Amores, os seus companheiros não vão mudar! Muitas de vocês estão mantendo esse vínculo, nessa falsa esperança e outras tem medo deles serem punidos. Eles não poupam vocês! Vocês não merecem definhar ou até serem assassinadas por homens assim. Busquem fuga, na fuga denunciem, mas fiquem refugiadas enquanto solicitam uma vaga no abrigo. Infelizmente nosso governo não dá o apoio com senso de urgência, por isso vocês terão que fugir. Pensem em vocês, nos filhos de vocês! Esse homem não ama você! A dor do término é superável. A sua vida não!
Palavras fortes e necessárias você falou como um guia. Tua fala é farol pra quem ainda caminha no escuro. Que tua coragem inspire fugas e renascimentos.
O público silencia, emocionado. Uma mulher na primeira fila aplaude; o Corvo estende a mão como quem presta reverência.
Se você pudesse mandar uma mensagem pra todas as mulheres que estão em silêncio, sofrendo sozinhas, qual seria a sua palavra de acolhimento, como mulher, mãe, esposa e poeta?
Se amem antes de tudo! Conheçam seu valor e seus direitos! Vocês irão superar essa separação. O que não resgata, é a vida perdida.
Bálsamo em forma de conselho. O amor-próprio é o primeiro abrigo contra o medo. Que teu verbo, Morcega, seja abrigo pra tantas mulheres cansadas de se calar.
A plateia aplaude longamente. O ar parece vibrar de emoção. Luzes suaves refletem o símbolo lunar atrás do palco.
A Morcega, você também é formada em Tarô, um universo cheio de símbolos, mistérios e intuição. Me conta: o que te levou a mergulhar nesse mundo das cartas e o que ele te ensinou sobre as pessoas, e sobre você mesma?
Sempre me atraí por oráculos, principalmente de cartas. Quando descobri que não precisava nascer sabendo, e que qualquer pessoa poderia aprender, fui comprar meu baralho e aprender. Aprendi e aprendo com o tarô sobre mim e as pessoas, que temos muitas máscaras. Acreditamos em versões nossas que muitas vezes não existem e nos iludimos muito. Colocamos filtros nas situações que fazem com que vejamos rosa como verde e o tarô tira essas máscaras. Tarô é pra quem quer a verdade e não ego alimentado.
Máscaras caem quando a verdade se revela.
O público observa com curiosidade. Alguns murmuram encantados. O Corvo inclina o corpo, como se o simbolismo das cartas o fascinasse.
Você mencionou estar se afastando um pouco dos baralhos por exaustão, o que é totalmente compreensível. Mas quando pega um Tarô na mão, o que sente? Ele ainda te chama de vez em quando, ou você consegue mesmo manter distância desse velho oráculo curioso?
Com meu baralho na mão, sinto as cartas me contarem histórias. Eu não consigo me afastar completamente do baralho. Eu ainda jogo, esporadicamente e com sono. Hoje mesmo tive que ver que uma pessoa que sumiu, perdeu a vida.
Eu não quero mais ficar dando esse tipo de notícia e fora que estou exausta mesmo e acordando antes das 5 pela insônia. Eu vou parar mesmo de jogar pra pessoas de fora. Será só pra mim. As pessoas acham que tarô é vidência e eu cansei de ser vidente. Estou fisicamente cansada e não quero mais ficar prevendo coisas ruins.
Há dor e beleza no teu cansaço, Morcega. Até tua exaustão daria um livro poético. O Tarô te chama porque és ponte entre mundos, e isso não se abandona.
O público suspira. Um silêncio respeitoso domina o ambiente. A Morcega sorri de leve, com olhos marejados.
Se a gente pedisse uma tiragem simbólica para o PodReader, pra esse nosso encontro de hoje, qual carta você acha que sairia? Eu já tenho uma carta.
A imperatriz, arcano 3. Que traz toda a energia da comunicação, da prosperidade, do afeto, acolhimento, o poder feminino, a fertilidade, a criatividade, a abundância e o amor. A imperatriz é a mãe dos arcanos maiores. Ela gera tudo no seu ventre sagrado.
Você vê, Morcega, eu tinha dito que também já tinha uma carta em mente para este nosso encontro, e a carta é A Estrela, acredito ser o arcano XVII. Não sou especialista como você, claro, mas acredito que ela traz uma mensagem que combina perfeitamente com o momento dessa entrevista. A Estrela fala sobre esperança, inspiração e cura. É aquela energia que surge depois da tempestade, quando o céu volta a brilhar e nos lembra que ainda há beleza mesmo nas noites mais longas.
Enquanto escutava suas respostas, pude sentir essa luz nas suas palavras, mesmo quando tocava em temas tão dolorosos, havia um brilho de fé, de recomeço, algo que inspira quem te ouve. Acho que essa carta representa o que você é para muitos: uma guia que, vinda das sombras, ensina que é possível transformar dor em força e vulnerabilidade em poesia.
Então, sim, eu não leio as cartas, mais sempre as estudei para ter o conhecimento, mas hoje, com você aqui, eu vi A Estrela brilhar, no palco, nas palavras, e no coração de todos nós.
O silêncio tomou o auditório assim que o Corvo pronunciou as palavras “A Estrela”. Sua voz pausada soou pelo ambiente gótico, refletida nas colunas sombrias e nas luzes azuladas que pairavam sobre o palco. A plateia, antes inquieta com celulares e cochichos, agora estava imóvel, como se o próprio tempo tivesse parado para ouvir.
A Morcega, no centro do palco, olhou para o Corvo com um brilho nos olhos . Por um instante, ela deixou escapar um sorriso contido, desses que nascem quando a alma é tocada. As asas abertas atrás de si pareciam reagir à menção da carta, a luz do refletor incidia sobre o tecido negro, criando reflexos prateados que lembravam estrelas dançando em um céu noturno.
Nas primeiras fileiras, algumas pessoas seguraram as mãos sobre o peito. Outras, discretamente, enxugaram lágrimas. O ar parecia leve, impregnado de reverência e encanto. Até os técnicos, atrás das câmeras, se entreolhavam com admiração, cientes de que estavam presenciando algo raro: o instante em que arte, espiritualidade e verdade humana se encontravam.
Quando o Corvo concluiu, o público respondeu com um aplauso demorado, não barulhento, mas carregado de emoção. A Morcega abaixou a cabeça, tocada, uma estrela iluminada sob o silêncio reverente do público.
O auditório já voltava ao burburinho natural depois da emoção da carta da Estrela. A Morcega, ainda com o sorriso emocionado no rosto, ajeitava-se na cadeira, respirando fundo, quando algo começou a mudar. Um som grave, quase imperceptível, vibrou pelas caixas de som, uma nota contínua, profunda, como o bater distante de asas. As luzes lentamente começaram a mudar de cor. O tom dourado e cálido foi se dissolvendo, substituído por um roxo denso e luzes negras que transformaram o palco num cenário gótico, etéreo e misterioso.
Um murmúrio percorreu a plateia. Os olhares se cruzavam, confusos e fascinados. A Morcega olhou em volta, surpresa, sem entender. O Corvo, porém, mantinha o semblante impassível, as mãos unidas sobre os joelhos, fingindo ignorar o que estava prestes a acontecer.
Então, das sombras do corredor central, uma figura surgiu. Ele caminhava lentamente, as botas soando pelo piso. A roupa negra se confundia com o ambiente, e os braços semiabertos apontavam para o chão, num gesto de domínio e reverência. O público não piscava, era O Morcego, o esposo da entrevistada. Um arrepio coletivo percorreu o auditório. Ele subiu ao palco e parou próximo dela. As luzes oscilaram, e, num movimento solene, ele ergueu os braços na horizontal.
Um clarão púrpura iluminou o ar. Das suas costas, duas grandes asas negras se abriram, com membranas translúcidas e um leve brilho violeta nas bordas. O público reagiu com um misto de espanto e encantamento. Ouviu-se um coro de exclamações, aplausos espontâneos e até alguns suspiros. A Morcega, imóvel, levou as mãos à boca, os olhos marejados, um brilho de pura surpresa e orgulho.
Mas a cena não terminou ali. Atrás dele, onde a luz era mais densa, seis pequenas figuras começaram a surgir. Saíam pelas laterais, vestidas com trajes de morcego perfeitamente detalhados, asas de veludo, máscaras com orelhas pontudas e olhos brilhando sob o reflexo lilás. A plateia, enternecida, pensava ser uma cena para algum filme em Hollywood, as pequenas figuras, eram, os filhos da Morcega, os pequenos “morceguinhos”.
Ela não conteve a emoção. Levantou-se, correu até eles e os abraçou, unindo-os sob suas próprias asas simbólicas. O público aplaudia de pé, alguns filmando, outros apenas absorvendo aquele momento mágico.
O Morcego, ainda no palco, pegou o microfone com voz firme e serena. O som soou pelo salão, silenciando os aplausos.
— “Esta é sua noite. E continuou
Morcega, estamos a tanto tempo juntos e nossa simbiose de morcegos é tão forte que fica impossível explicar para os outros, a gente se sente de certa forma um só, como se precisasse sempre estar junto, e estamos juntos a tantos anos, com nossos filhos, e acho que esse sentimento simbiótico foi sendo construído e aumentando. Eu pretendo estar junto assim pra sempre, até morrer e acredito que você também. Vamos seguir juntos em nossa caverna noturna sempre juntos e isolados da luz e do barulho do mundo.
Emocionada, A Morcega levanta-se, as luzes ainda dançam em tons roxos. Ela pega o microfone com as mãos trêmulas, o olhar marejado. A plateia silencia, celulares erguidos. Dos bastidores, técnicos se entreolham comovidos. Sua voz soa suave, amorosa, lendo para ele. O auditório inteiro prende o fôlego, encantado.
... sei que nosso relacionamento é como uma droga densa, que tem a onda e depois o efeito da bad. Temos muita história, muitas máculas e cicatrizes, mas você escolheu continuar me amando e eu também escolhi continuar a escrever minha história com você. Te amo! Nossa simbiose parece eterna. Imagino que se ficássemos distantes, numa separação, ainda assim estaríamos amarrados pelo forte gancho energético que une a gente. E se você quiser continuar me amando, te amarei também até o fim. Te amo, Morcego. Te admiro e te elogio todos os dias porque você é meu escorpião cheio de qualidades. Casca grossa, fechado e trevoso, mas com o coração generoso e caridoso demais.
E assim como Vênus e Marte eles se amam
Poetisa deixe suas considerações finais sobre esse momento.
Amei responder! Estava comentando com o Morcego do quanto achei suas perguntas criativas e bem elaboradas. Sabe fazer perguntas estimulantes e a sua criatividade me surpreendeu. Me senti honrada pela oportunidade. Muito obrigada, Vampirão!
As luzes do auditório suavizam em tons dourados e lilases, banhando o palco como um crepúsculo encantado. No centro, A Morcega está de mãos dadas com o Morcego, os seis pequenos morceguinhos à frente deles, as asinhas refletindo discretamente o brilho dos refletores. Ela sorri, ainda emocionada, o microfone entre os dedos. Os olhos marejados revelam a mistura de cansaço, gratidão e plenitude.
A plateia, que até então parecia respirar junto a cada palavra, levanta-se em aplausos longos e calorosos. Muitos se erguem com lágrimas nos olhos, outros aplaudem de pé, enquanto os escritores que estavam na primeira fila, Felipe Félix, Suzete Palitos, Erivas a Guardiã e Rick Steindorfer, trocam olhares cúmplices e sorrisos de admiração. Nos bastidores, técnicos, câmeras e produtores se entreolham, orgulhosos, conscientes de terem testemunhado algo que ultrapassou o formato de uma simples entrevista.
O Corvo do Silêncio dá um passo à frente, pega o microfone e fala:
E assim encerramos mais um voo poético. Foi um privilégio abrir espaço para essa mulher de asas firmes e coração luminoso. Obrigado, Morcega, Morcego e aos pequenos morceguinhos. Obrigado a cada alma que nos acompanhou nesta noite inesquecível e a você leitor que chegou ao final desta entrevista.
Até o próximo PodReader!
O público explode novamente em aplausos. As luzes diminuem, e o palco mergulha num suave luar violeta.
E assim eu me despeço
