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Ninguém acorda pensando: “Hoje vou tomar uma decisão errada.” No entanto, é curioso perceber como tantas escolhas, feitas sob o calor do momento, acabam moldando não apenas nossos dias, mas também a forma como nos enxergamos depois. Decisões que nascem de certezas, outras, de impulsos. E também aquelas que se escondem entre o certo e o quase, o território nebuloso onde mora a dúvida.
Recentemente, presenciei uma conversa que me fez pensar sobre isso. Duas pessoas, sentadas na padaria onde todas as manhãs aprecio o café com tapioca. Falavam sobre escolhas que mudaram suas vidas, casamentos, trabalhos, amizades e palavras ditas na hora errada. “Se eu tivesse pensado mais antes de falar, talvez tudo tivesse sido diferente”, disse uma delas, com aquele tom de arrependimento que parece pesar mais que o próprio silêncio.
A outra respondeu calmamente: “Mas às vezes a gente precisa errar para entender o que quer dizer de verdade.”
A frase ficou soando na minha cabeça durante todo o café e o resto do dia. Talvez porque ela tocou em algo essencial, as decisões são menos sobre o que acontece fora e mais sobre o que acontece dentro de nós. Cada escolha é, de certo modo, uma conversa interna, entre o medo e a esperança, entre a pressa e a paciência, entre o que sentimos e o que fingimos não sentir.
As palavras que usamos nesses diálogos silenciosos influenciam muito mais do que imaginamos. É nelas que construímos o alicerce de nossas decisões. Um simples “eu não consigo” pode paralisar uma ideia promissora. Um “vai dar certo” pode abrir espaço para a coragem. A linguagem é a moldura invisível das nossas escolhas.
No entanto, vivemos em uma era de decisões apressadas, feitas entre notificações e prazos. Falar fiou mais fácil do que ouvir, e ouvir a si mesmo, então, parece quase um luxo. O silêncio, que sempre foi o intervalo necessário para pensar, anda em extinção. Decidimos no impulso, reagimos no susto, e depois chamamos o acaso de destino.
Mas a verdade é que decidir exige tempo. Exige palavra e pausa. É preciso se escutar antes de responder, se calar antes de agir, e talvez até se perdoar antes de seguir. Porque toda decisão, até a errada, carrega um pedaço de aprendizado. E talvez o grande segredo não seja evitar erros, mas aprender a traduzir o que eles tentam nos ensinar.
A conversa daquele café terminou com um silêncio bonito, desses que dizem mais do que as frases. Uma delas olhou pela janela e falou: “No fim, acho que o erro é só uma forma de o caminho se corrigir.”
Saí de lá pensando que ela estava certa. Porque a vida é, em grande parte, feita de tentativas. Tomamos decisões com base no que sabemos, e quase sempre descobrimos o resto depois. As palavras que nos acompanham, as que dizemos e as que guardamos, são como bússolas imperfeitas, não apontam sempre para o norte, mas ajudam a seguir andando.
É curioso perceber que as decisões mais difíceis não são as que envolvem grandes riscos, mas as que exigem coragem para mudar o próprio discurso. Trocar um “eu não posso” por um “eu vou tentar”. Um “acabou” por um “ainda há tempo”. Essas pequenas revisões de linguagem, feitas dentro da cabeça, têm o poder de redesenhar rotas inteiras.
Afinal, as palavras são a matéria-prima da nossa mente. Com elas construímos o que acreditamos ser verdade, e é com elas também que derrubamos o que já não faz sentido.
Por isso, talvez devêssemos prestar mais atenção à maneira como conversamos conosco antes de decidir qualquer coisa. Não se trata de superstição, mas de consciência. A palavra que antecede uma escolha é, quase sempre, o primeiro passo para realizá-la, ou para se arrepender dela.
Entre o certo e o quase, entre o silêncio e o som, há sempre um instante em que a vida nos pede atenção. É ali, nesse breve intervalo, que o futuro começa a se escrever, não com certezas, mas com palavras.
E se há algo que aprendi ouvindo aquela conversa, é que decidir também é uma forma de falar consigo mesmo. A diferença é que algumas vozes nos empurram para o abismo, enquanto outras falam: “vai, confia”. E talvez, no fim das contas, a sabedoria esteja justamente em reconhecer qual dessas vozes escolhemos ouvir.
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O comentário acima recebi de uma leitora não autenticada (sabemos o que significa isso aqui no recanto)
Gostaria que você soubesse que recebi com imenso carinho seu comentário e desejando ver sua presença novamente em meu recanto.
Um grande abraço e muita felicidade sempre.
De Corvo do Silêncio
Para você: Nara
