Paris, 21 de setembro de 1980.
O amanhecer cobria Paris com seu véu cinzento de outono. As luzes amareladas dos postes ainda resistiam no início da manhã, refletindo-se nas calçadas molhadas pela garoa da madrugada. O aroma de pão escapava das boulangeries que já abriam suas portas, misturando-se ao cheiro de fumaça dos escapamentos dos carros que começavam a congestioná-la como em qualquer dia útil. Homens de paletó cruzavam as ruas com pastas de couro embaixo do braço, mulheres seguravam sacolas ou empurravam carrinhos, jovens ainda sonolentos rumavam para o metrô.
Seria mais um dia comum em Paris, mas não este dia.
No coração da cidade, mais precisamente na Place du Palais-Royal, algo incomum começava a se formar. Um amontoado de pessoas parava, uma após a outra, em frente ao que parecia ser apenas um objeto abandonado. Mas não era um objeto qualquer.
No centro da praça estava uma caixa. Feita de um material escuro, com ares antigos, parecia ter atravessado séculos para estar ali. Sua superfície era de madeira envelhecida, com ranhuras fundas e entalhes ornamentais em espirais e formas que lembravam antigos alfabetos perdidos, símbolos que remetiam ao ocultismo medieval. Em suas laterais, duas alças em bronze polido, moldadas no formato de luas minguantes, exalavam uma fumaça fina, que subia em espirais roxas, quase etéreas. Na tampa da caixa, gravada com precisão e brilho metálico, uma estrela de cinco pontas se destacava no centro de um círculo, cercada por inscrições em latim corrompido.
Era como se a caixa não apenas estivesse ali, mas como se tivesse sido colocada para ser vista.
Um jovem, aparentando cerca de vinte e três anos, se destacou da multidão. Vestia jeans, um casaco claro e boina azul-marinho. Atraído pela curiosidade, deu alguns passos cautelosos em direção à caixa. A fumaça não parecia tóxica, mas o ar ao redor dela parecia denso, como se vibrasse em outra frequência. Ele se aproximou o suficiente para estender a mão, e antes mesmo de tocá-la, seu corpo enrijeceu. Seus olhos viraram, e ele caiu como uma marionete com os fios cortados.
Uma mulher próxima, assustada, correu até ele. Era jovem, vestia uma saia longa, suéter bege e cachecol florido. Agachou-se, tentou segurá-lo pelos ombros, e também caiu, seu corpo ainda mais tenso. Seus membros ficaram rígidos, o pescoço torcido em um ângulo impossível, os olhos abertos como vidro. Era como se o sangue tivesse parado de circular. Seus rostos estavam pálidos e azulados, sem pulso, sem sinais de vida.
Às 6h30 da manhã, os noticiários começaram a notificar o evento.
A televisão francesa, que passava sobrevoando o local, interrompeu a programação habitual.
A imagem tremida de uma câmera aérea apareceu na tela, mostrando a multidão em volta da praça. A voz do repórter, tensa e ao vivo de um helicóptero, preencheu as casas de milhares de parisienses:
— “Bonjour, citoyens parisiens. Aqui quem fala é Étienne Marchal, da TF1, diretamente da Place du Palais-Royal, no coração de Paris. E o que estamos presenciando aqui, eu lhes digo com toda sinceridade: jamais vi algo assim em meus anos de profissão.”
A câmera se aproxima. Vemos o centro da praça. Um aglomerado de pessoas forma um círculo em torno do estranho objeto. Marchal continua:
— “Estamos sobrevoando o local com nosso helicóptero de reportagem. Vou pedir ao piloto para baixar um pouco, queremos um ângulo melhor... sim... aí está.”
— (a voz se torna mais grave) “Senhoras e senhores, o que vocês veem agora, eu peço que observem com atenção. Dois corpos estão estendidos ao lado do que parece ser uma antiga caixa. Estão imóveis, sem qualquer movimento.
— E vocês, que como eu têm mais de trinta anos, vão entender a gravidade do que direi agora: vocês se lembram, certamente, do caso no Musée de Cluny, em 1970.
— Aquele artefato babilônico, desaparecido há séculos, foi encontrado no subsolo do museu, ao lado dos corpos de dois monges beneditinos. Na época, as autoridades afirmaram se tratar de um ato de vandalismo ou ataque de arruaceiros religiosos, palavras deles. Mas cinco anos depois, entrevistei em sigilo a senhora Marguerite Delambre, estudiosa da Universidade de Lyon, especialista em simbologia antiga e ocultismo medieval.
— Ela me disse algo que nunca saiu da minha memória: ‘Aquilo era um artefato de conjuração. Um selo sacrificial. E os monges, infelizmente, foram parte do ritual.’
— Marguerite desapareceu misteriosamente pouco tempo depois dessa entrevista. Nunca mais foi vista.
A câmera mostra os corpos deitados. O rosto do rapaz está voltado para cima, seus olhos abertos, as pupilas dilatadas. A mulher está com a mão estendida em direção a ele, mas o pulso dobrado de forma antinatural. O repórter suspira e conclui:
— “E agora, em 1980, dez anos depois… mais dois corpos. Outra caixa. A mesma configuração.”
— “Quantos mais precisarão cair para que as autoridades venham a público? Onde está o prefeito de Paris agora? Estará ele esperando que o que aconteceu em Cluny se repita?
— Eu sou Étienne Marchal, e ao meio-dia estarei de volta, trazendo imagens e relatos verdadeiros sobre o que está acontecendo aqui na praça.
— Não desliguem suas televisões. Este pode ser apenas o começo.”
O helicóptero se afasta lentamente da praça enquanto a névoa lilás ainda serpenteia no ar da manhã parisiense. Deixando lá embaixo uma caixa misteriosa e dois corpos.
-1 - Capítulo - 2