A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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O Peso das Pequenas Coisas

 

Havia dias em que Fabiana sentia que o mundo inteiro cabia dentro de uma lembrança. Bastava o toque de uma música antiga, o cheiro do café coado de manhã, ou o som distante de uma gargalhada parecida com a dele, e tudo voltava.

O nome dele era Daniel.

Conheceram-se em uma tarde qualquer, como se o destino tivesse escolhido ao acaso para parecer natural. Ele esbarrou nela na saída de uma livraria e o livro que ela segurava caiu no chão.

— Desculpe, distração minha.

— Ou talvez minha, respondeu ela, sorrindo.

E naquele sorriso, o tempo pareceu fazer uma pausa.

Fabiana nunca acreditou em amor à primeira vista, mas acreditava em presenças que mudam o ar de um lugar. Daniel tinha esse dom. Era como se carregasse dentro de si um pequeno sol, discreto, mas suficiente para iluminar.

Começaram a se ver sem planejar. Um café, um passeio, um filme, outro café. Até que os dias sem ele passaram a parecer incompletos, como páginas arrancadas de um livro.

Daniel a fazia rir de tudo, até do que doía. Ele dizia que o amor era o intervalo entre duas respirações, simples, necessário, invisível.

Fabiana não sabia se acreditava nisso, mas aprendeu que o amor é feito das pequenas coisas, o bilhete deixado na geladeira, a meia perdida debaixo da cama, o cheiro de shampoo no travesseiro, o silêncio confortável no sofá.

Durante um tempo, viveram o tipo de amor que não precisa de testemunhas. O amor que não faz barulho, mas deixa marcas.

Mas o destino, esse artesão manhoso, decidiu testar o que sentiam. Daniel recebeu uma proposta de trabalho em outro país. “É só por seis meses”, ele dissera, tentando dar leveza a uma decisão que pesava no ar.

Fabiana sorriu, fingindo acreditar. Seis meses não são nada, pensou. Mas sabia que o tempo tem o dom de esticar o que já é frágil.

Nos primeiros dias, ligavam-se todos os dias. Mensagens longas, risos por vídeo, promessas. Mas, aos poucos, o fuso horário começou a desgastar o entusiasmo. As palavras foram ficando curtas, os silêncios longos.

Fabiana tentava manter a rotina, mas cada objeto da casa parecia conspirar contra o esquecimento. O copo dele ainda na prateleira, a toalha dobrada, o casaco pendurado. Coisas pequenas, mas pesadas como saudade.

Foi numa noite silenciosa que ela percebeu, o amor não acaba de repente. Ele se desfaz aos poucos, como o vapor do café.

Na última ligação, Daniel chorou. Disse que sentia falta, mas que algo havia mudado.

Fabiana apenas respondeu, “Eu sei.”

E soube mesmo, que o amor, às vezes, é tão bonito que não sobrevive ao peso do mundo real.

Nos meses seguintes, aprendeu o estranho ofício de seguir em frente. Saía para caminhar pela cidade, tentando encontrar beleza em coisas que antes passavam despercebidas, o som do rio, o cheiro das flores no mercado, o sorriso de uma criança na esquina.

Mas tudo ainda tinha o contorno dele.

Certo dia, mexendo nas gavetas, encontrou um envelope. Dentro, um bilhete que ele havia deixado antes de partir:

“Se um dia eu não estiver aí, lembre-se de olhar para as pequenas coisas. Elas são o jeito que o amor encontra de continuar.”

Fabiana chorou. Não de dor, mas de gratidão.

Entendeu, enfim, que o amor verdadeiro não precisa permanecer para ser eterno. Ele apenas muda de forma, vira memória, música, perfume, gesto.

Anos depois, quando perguntavam se ela havia amado, Fabiana sorria e dizia:

— “Sim. E continuo amando, só que de outro jeito.”

Naquela tarde, caminhando pela praça, ela viu um casal rindo sob a chuva. O som daquele riso, espontâneo, leve, a fez parar. E, por um instante, sentiu o mesmo calor antigo no peito.

Não era tristeza. Era a lembrança de que um dia, ela também tivera aquilo.

Sentou-se num banco e observou o movimento da cidade. As pessoas apressadas, os carros, o vento mexendo nas árvores. Tudo seguia. E ela também.

Mas, no fundo, sabia que o amor, quando é verdadeiro, não desaparece, apenas aprende a caber no silêncio.

 

Antes de ir embora, tirou da bolsa o mesmo livro que caíra no dia em que o conhecera. Passou os dedos sobre o nome dele escrito na primeira página. E sorriu.

“O amor é o que fica quando o resto vai embora”, escreveu no rodapé.

Guardou o livro, levantou-se e continuou andando, leve.

Porque aprendera, com o tempo e com Daniel, que o amor não precisa estar presente para ser real.

Basta ter existido com verdade.

E enquanto o sol se despedia atrás das nuvens, Fabiana sentiu que cada passo que dava era um modo de agradecer por tudo que viveu.

Porque o amor, mesmo ausente, ainda lhe ensinava a ver o mundo com olhos gentis.

E talvez, pensou, esse fosse o verdadeiro milagre:

continuar amando o que já se foi, e ainda assim escolher viver.

 

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Não percam a entrevista com ela:

Aqui no Recanto das Letras

 

 

A Sales
Enviado por A Sales em 16/10/2025
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  Um livro poético escrito em sonetos que te leva desde a amizade, passando pela paixão até o amor. Uma viagem nestes sentimentos com uma escrita leve, senssivel e compreenssivel.

Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

Há palavras que nunca foram ditas,
e, mesmo assim, soam dentro de nós.
Este livro é um mergulho no espaço entre as vozes,
nas pausas, nos gestos interrompidos,
e nas emoções que o silêncio guarda.