A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Quando o Amor Ficou

 

O dia começara como tantos outros, mas Shara Madson sempre acreditou que havia algo sagrado nas tardes de chuva. Talvez fosse o modo como as pessoas andavam mais devagar, ou como os cheiros da cidade se misturavam, o asfalto quente, o pão das padarias, o perfume que escapava das lojas. Era um concerto de pequenas presenças, e ela gostava de caminhar sob o guarda-chuva ouvindo o som do mundo respirando.

 

Naquela tarde, o som da chuva tinha outro ritmo.

 

Ela esperava no mesmo café onde, há meses, costumava encontrá-lo. O lugar era pequeno, com mesas de madeira escura e uma janela larga que deixava entrar a luz opaca do fim de tarde. O garçom a reconhecia, trazia o café sem perguntar, duas colheres de açúcar, uma gota de leite, o mesmo de sempre.

Do lado de fora, o vidro embaçado refletia o rosto dela.

 

“Estou envelhecendo pelos olhos”, pensou.

 

Mas não era o tempo. Era a saudade que deixava marcas. Ele não vinha mais. Fazia três semanas desde o último encontro, e ainda assim, Shara voltava todos os dias. Não por esperança, mas porque o amor, quando verdadeiro, cria hábitos que resistem até ao fim.

 

O café ainda quente exalava aquele aroma que o fazia sorrir. Ela se lembrava dele rindo ao experimentar algo novo, aquele riso fácil, desarmado, que iluminava o ambiente inteiro. E então o toque dele: o jeito como apoiava a mão sobre a dela, sem força, apenas o bastante para dizer “estou aqui”.

 

Esses detalhes voltavam como ondas.

Cada lembrança tinha textura, temperatura, cheiro.

 

O som do relógio do café parecia marcar o tempo em outro compasso, mais lento, como se o mundo inteiro esperasse junto com ela.

 

Shara sempre acreditou que o amor não se explica, se vive. E o que vivera com ele, mesmo curto, fora inteiro. Eles se conheceram por acaso, numa livraria do centro, quando ambos tentaram pegar o mesmo livro ao mesmo tempo. Riram, conversaram, saíram para um café. E então, como uma música que se reconhece, algo se encaixou.

 

Foram meses de descobertas pequenas, o gosto dele por chuva, o medo dela de voar, o hábito de ele colecionar bilhetes de cinema. Tinham o dom de transformar banalidades em eternidades.

 

Mas o amor, às vezes, sofre do mal de nascer em tempos errados.

 

Ele era casado. Não infeliz, apenas preso a um enredo que já não lhe cabia. E Shara sabia desde o início. Não esperava promessas, apenas momentos verdadeiros.

 

E eles foram.

 

O problema é que o tempo, cúmplice de todos os amantes, um dia cobra o preço.

Na última vez que se viram, o sol ainda se demorava sobre o rio.

 

Ele a abraçou demoradamente, sem dizer nada.

 

Shara percebeu, no modo como ele respirava, que aquele era o último gesto.

O amor não acaba com gritos, acaba em silêncios.

 

Depois disso, o mundo seguiu.

Mas dentro dela, o tempo parou no instante em que ele partiu.

 

Nos dias que se seguiram, ela descobriu que o amor pode continuar mesmo depois do adeus. Ele passa a morar nas entrelinhas, no travesseiro que ainda guarda o cheiro, na música que toca no rádio e faz o peito arder, no livro que ela nunca terminou de ler porque as páginas ainda cheiravam a ele.

 

Às vezes, acordava à noite e pensava ter ouvido a voz dele chamando seu nome.

Era o vento. Ou talvez o coração tentando lembrar o som da felicidade.

 

Com o passar dos meses, aprendeu a cuidar de si. Reaprendeu a andar sozinha, a rir, a cozinhar para um prato só. Mas a solidão, quando atravessada com amor, deixa de ser desespero e vira companhia.

 

Shara passou a entender que amar não era possuir, era permitir que o outro existisse inteiro, mesmo longe.

 

Certa tarde, voltando do trabalho, o acaso quis que ela o visse de novo.

Estava do outro lado da rua, acompanhado.

 

Um instante apenas, o suficiente para o coração reagir antes da razão.

Ele também a viu. E naquele olhar breve, cabia tudo o que viveram: a ternura, o arrependimento, o respeito.

 

Nenhum dos dois sorriu, mas ambos entenderam, o amor ainda estava ali, só havia mudado de forma.

 

Naquela noite, Shara escreveu em seu diário:

 

“O amor não termina. Ele apenas aprende a morar dentro da gente, como uma luz acesa num cômodo que já não visitamos, mas que nunca escurece.”

 

Os dias seguintes foram mais brandos.

 

Começou a reparar nas pequenas belezas outra vez, o barulho dos pássaros pela manhã, o cheiro de pão saindo vindo da padaria, o toque leve do vento na pele.

 

Cada detalhe lembrava o que ela tinha aprendido com ele, a estar presente, a sentir o instante.

 

Anos depois, Shara ainda guardava um bilhete dele.

 

Amarelado, com a letra apressada, “Se um dia eu não puder estar, promete não deixar de amar.”

E ela prometera.

 

Um amor verdadeiro não pede permanência, pede verdade.

E foi assim que ela aprendeu que o amor não é o que vai embora, é o que fica.

Hoje, Shara não espera mais ninguém no café.

 

Mas às vezes ainda vai até lá, pede o mesmo café, senta-se na mesma mesa e olha pela janela.

Não por saudade, mas por gratidão.

Porque o amor, mesmo quando se despede, deixa o mundo mais bonito, e o coração, mais inteiro.

 

E se alguém a visse ali, pensaria que era apenas uma mulher sozinha.

Mas quem olhasse de perto veria outra coisa:

uma mulher que amou profundamente, e que, de alguma forma misteriosa, ainda ama.

 

Não por ele, mas pelo milagre de ter sentido.

Pelo dom de ter existido de verdade por um tempo.

E porque, no fim, “o amor que fica é o que nos devolve a nós mesmos.”

 

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Não perca também a entrevista com ela:

Aqui no Recanto das Letras

 

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Enviado por A Sales em 16/10/2025
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  Um livro poético escrito em sonetos que te leva desde a amizade, passando pela paixão até o amor. Uma viagem nestes sentimentos com uma escrita leve, senssivel e compreenssivel.

Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

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