Imagem Pinterest
Era fim de tarde em Boa Vista, e a Praça da Bandeira respirava uma calma melancólica, dessas que só o outono, raro, mas sentido no coração, sabe trazer. O vento soprava de leve, espalhando folhas secas sobre o calçamento, fazendo-as dançar como se tivessem ensaiado aquele balé para o fim do dia.
Eu estava ali, sentado próximo a lanche, observando a vida passar em ritmo lento. O ar tinha um frescor afetuoso, com o cheiro de terra úmida e café recém passado vindo de uma cafeteria do outro lado da rua. A cidade parecia suspensa entre o ruído e o silêncio, entre o movimento dos carros e o balançar das árvores. E foi então que eu o vi.
Ele caminhava sem pressa pela calçada da praça, as mãos nos bolsos, o olhar distante. Parecia um homem que não estava propriamente ali, como se seu corpo andasse em Boa Vista, mas a mente vagasse por algum lugar entre o ontem e o amanhã. O vento brincava com a barra de seu casaco leve, e por um instante, tive a impressão de que ele escutava o zumbido do tempo.
E então, ela apareceu.
Do outro lado da rua, encostada na parede bege da cafeteria, estava uma mulher. O pôr do sol a envolvia em tons quentes, fazendo seus cabelos escuros brilharem como fios de cobre. Ela observava algo que eu não conseguia ver, talvez nada, mas havia em seu olhar uma profundidade calma, um abismo doce. Quando seus olhos se cruzaram com os dele, o ar ao redor pareceu parar.
A praça inteira silenciou.
Nem os passarinhos pousados nas mangueiras se atreveram a cantar. O som dos motores, das conversas, das xícaras batendo no balcão da cafeteria, tudo se dissolveu. Era como se o mundo tivesse feito uma pausa breve, só para permitir aquele instante.
Pude ver, mesmo de longe, a mudança no semblante dele. Os olhos, antes vagos, ganharam vida, o corpo, antes relaxado, ficou tenso de expectativa. E nela, um leve espanto, aquele tipo de reação que não se ensaia. Foi como se uma corrente invisível os ligasse, um fio de reconhecimento entre dois estranhos que pareciam já se conhecer há muito tempo.
O vento passou de novo, levantando algumas folhas ao redor. A luz refletiu no vidro da cafeteria e iluminou o rosto dela, e naquele instante, vi o que ele viu, beleza sem esforço, ternura sem intenção. Ele deu um passo. Ela também. E por um momento, tive a certeza de que não havia rua, carros ou semáforos entre os dois, apenas o espaço exato onde o destino escolheu se manifestar.
A cada passo, ele parecia lutar contra a própria respiração. O coração batia forte, eu podia quase ouvir. Quando finalmente parou diante dela, o tempo se curvou em silêncio mais uma vez. Não trocaram palavras, não havia necessidade. Havia um entendimento implícito, como se ambos tivessem esperado por aquele instante sem saber que o esperavam.
Naquela arte simples, a Praça da Bandeira se transformou. O concreto, as árvores, os postes, tudo parecia mais vivo, mais próximo do que é essencial. O amor, ali, não nasceu de promessas ou beijos, mas de um olhar compartilhado sob a luz dourada do entardecer.
E eu, mero observador, fiquei com a sensação de ter presenciado algo raro, um desses momentos em que o tempo se dobra e revela sua doçura. Um instante em que o mundo todo parece se resumir a dois olhares que se reconhecem.
Talvez o amor comece assim mesmo, no cruzamento entre a distração e o destino, entre o som do vento e o silêncio da alma.
E, naquela tarde fria de Boa Vista, eu vi o amor nascer, não como um trovão, mas como o zunido leve de uma folha que cai.
--------------------------------------------------------------
Uma vez me perguntaram por que eu escrevia tanto sobre. Esta crônica daquela tarde mandei para a pessoa que fez a pergunta. A resposta. Agora entendo.
---------------------------------
