A Força das Raízes
A manhã parecia começar como qualquer outra. O sol ainda estava baixo, pintando o horizonte com tons rosados, enquanto Tião carregava um balde de água para os animais no curral. As galinhas ciscavam animadas, os bois ruminavam calmamente e o som familiar da roça preenchia o ar. Mas algo logo quebrou aquela rotina tranquila. Um mugido fraco e arrastado chamou a atenção de Tião, fazendo-o largar o balde no chão.
Pedro, tem algo errado com o Chico! Gritou Tião, referindo-se ao bode mais velho e de estimação da fazenda.
Pedro veio apressado, os passos largos levantando poeira do chão seco. Ao chegar na mangueira onde o bicho danado gostava de ficar pra caçar encrenca com o Capitão (no dia que este conto foi escrito capitão ainda era vivo) o bode Chico estava deitado de lado, respirando com dificuldade, os olhos meio fechados. Ele parecia cansado, como se carregar o próprio peso fosse uma tarefa impossível para o velho marrento.
— Não é bom sinal, Tião. Vamos precisar de ajuda, disse Pedro com a voz grave, já avaliando a situação. Ele colocou a mão no pescoço do animal, sentindo o calor anormal que emanava. Tá com febre, pode ser carrapato ou outra coisa.
Vó Zulmira, que tinha ouvido a agitação, surgiu na porta da casa, enxugando as mãos no avental. — O que houve? Perguntou, a preocupação estampada no rosto.
Afinal, era o bode chico.
— O Chico tá mal, respondeu Pedro. Vou chamar o Seu Alfredo pra dar uma olhada. Ele entende dessas coisas. Seu Alfredo era um velho amigo de longa data, só perdia em simpatia para o paciente em questão.
Tião olhou para o bode, sentindo um aperto no peito. Chico sempre fora o mais forte do rebanho, aquele que puxava o arado nas terras mais duras e que parecia inabalável, até agora. Ver o animal naquele estado fazia algo dentro dele mudar, como se a fragilidade de Chico fosse um reflexo das próprias dificuldades que enfrentavam no campo. Capitão parecia entender que seu concorrente a melhor vaga na sombra da mangueira não estava bem, ele latia como quem diz: Levanta encrenqueiro (...).
Enquanto Pedro partia apressado para buscar ajuda, Tião e a Vó se revezaram cuidando do animal. Vó trouxe um pano molhado, que Tião usou para tentar refrescar a cabeça do bode. A gente precisa manter ele hidratado, explicou a vó, com a voz calma, mas firme, décadas de vivência no campo. Era aquele tom que ela sempre usava nas emergências, e isso ajudava Tião a manter o foco.
O calor do dia começou a apertar, e cada minuto parecia uma eternidade. O mugido de Chico se tornou mais fraco, e Tião se pegou falando com o bode, como se suas palavras pudessem dar força ao animal. Você vai ficar bem, Chico. Já passou por coisas piores, não passou? Lembra do dia que a gente teve que correr debaixo daquela chuva pra te proteger? Você é forte!
Quando o Pedro voltou com Seu Alfredo, um homem de mãos calejadas e semblante sereno, mais que não escondia o brincalhão que era, Tião sentiu um alívio imediato. O velho tirou o chapéu, enxugou o suor da testa e se aproximou do bode com passos cuidadosos. Ele analisou Chico com atenção, passando as mãos experientes pelo corpo do animal.
— É febre do carrapato, disse Alfredo após alguns minutos. — Mas tá no começo. Se dermos o remédio agora, tem chance. Ele olhou para o Pedro, que já assentia com determinação.
Com a ajuda de Tião e de Pedro, o Senhor Alfredo preparou a medicação e administrou no velho bode. A agulha entrou com cuidado, e o silêncio foi quebrado apenas pelo som suave de Alfredo falando com o animal, como se também quisesse transmitir tranquilidade. Depois de terminar, ele ficou observando Chico por alguns minutos.
— Agora é esperar. Vocês fizeram bem em chamar rápido. Se Deus quiser, ele vai melhorar, disse Alfredo, antes de se despedir. E antes de deixar sua marcar registrada, dessa vez com o capitão que não latiu para ele como era natural entre os dois. Só o campo tem dessas coisas.
O resto do dia foi dedicado a cuidar do bode e acompanhar sua recuperação. Tião praticamente não saiu do lado de Chico, e capitão, também ali, Tião alternava entre molhar o pano e conversar com o animal. — Você sabe que todo mundo depende de você, não sabe? Então não pode desistir agora, murmurava ele, com uma mistura de esperança e desespero.
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de laranja e roxo, Chico deu um mugido mais forte, como se quisesse responder ao esforço de todos. Tião olhou para Pedro, que tinha acabado de voltar do poço com mais água. — Ele vai ficar bem, Pedro? Disse Tião enquanto coçava o cabeça do birrento, coisa que ele não permitia, mais aquele momento ele precisava.
Capitão respondeu ao sinal de chico e disparou latidos e corria em volta da mangueira, nesse alvoroço Danada também veio se juntar a mais uma virada do velho chico.
— Ele tá reagindo, Tião. E isso é bom sinal, respondeu o Pedro, colocando a mão no ombro de Tião. No campo, tudo tem sua luta, mas também sua recompensa. A gente cuida do que é nosso, e a terra e os animais retribuem.
Naquela noite, enquanto o céu estrelado se estendia sobre o campo, Tião sentiu algo diferente dentro de si. Não era apenas o alívio por ver Chico melhorar. Era uma compreensão mais profunda do que significava viver ali. O trabalho no campo não era apenas uma obrigação, mas uma ligação entre tudo e todos, a terra, os animais e as pessoas. Era essa conexão que dava força às raízes, mesmo nos tempos mais difíceis.
Tião olhou para o bode adormecido e depois para o Pedro, que descansava sob a luz fraca de uma lamparina. Sentiu-se grato, não apenas pela recuperação de Chico, mas pela oportunidade de aprender o valor daquilo que realmente importa, cuidar, persistir e respeitar. Afinal, no sertão, tudo que tem raízes é feito para resistir.
Este conto foi escrito sobre as histórias contadas por Tião. Hoje, ele já está na fazenda e fazendo tudo que mais ama, claro, depois de Dona Lordes.
Não está entendendo, então leia O Cheiro de Terra Molhada, que aparte do dia 15 de outubro terá seu final incluindo o que Tião passou.
Agradeço a todos que leem meus textos e peço desculpas não poder está respondendo a todos, mais breve estarei fazendo isso e com a dedicação de que todos merece.
Corvo do Silêncio
