A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
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Textos

 

Primeira Edição

 

  De Fortaleza, Ceará, ela vem desta terra onde o sol parece assinar presença o ano inteiro e o vento têm a mania boa de cochichar histórias nas redes armadas à sombra dos coqueiros. Lá, o mar é azul-turquesa, as paredes rochosas se vestem de vermelho vivo e até as ondas parecem rimar. É desse cenário quase poético que chega nossa convidada especial.

 

  No Recanto das Letras, ela já é uma conhecida dos leitores e não é exagero dizer que pode até ter um fã-clube! São 146 textos com 72.571 leituras e 11 áudios que somam 3.110 audições. E, se você frequenta o Recanto, certamente já leu algum de seus contos ou poesias, alguns dos amigos aqui do recanto a chamam de “A Mestra dos Contos” título merecido, diga-se de passagem.

 

  Hoje, ela vem bater um papo leve e inspirador, abrindo o coração para falar da mulher por trás da escritora, da rotina que se mistura à criação e da paixão que transforma cada texto em sentimento vivo. Na sua prateleira literária cabem de tudo um pouco, contos, crônicas, duelos poéticos, pensamentos, poetrix, homenagens, sonetos, e, claro, uma boa dose de humor e sensibilidade.

Com imensa alegria darei início à primeira edição do PodReader com a encantadora e talentosa Iolandinha Pinheiro, uma mulher que transforma palavras em abraço e poesia em lar.

 

 Seu perfil, de certa forma, já é uma carta de apresentação, nele estão não apenas seus textos, mas também pedaços da sua essência, se exagerei em meu pensamento. E para iniciar, trago um poema que abri o seu perfil. Com apenas 14 versos em estilo livre, um estilo que me é querido, porque ele permite a liberdade de não seguir uma métrica fixa e de soltar a alma sem amarras:

 

Falo deste poema

 

Na pressa do caminho,

caíram-me preciosidades:

a boneca preferida,

o vestido com laço nas costas,

um sapato de lantejoulas,

a minha última paixão.

Meu fardo assim mais leve

permitiu-me que voasse

para novas descobertas.

Ligeira, lhes vou esquecendo

em novos caminhos já rolam

das minhas mãos distraídas.

E tudo começa outra vez.

 

E é sobre este poema que lhe faço a primeira pergunta.

 

 De onde surgiu a inspiração para este poema? (o poema no início do seu perfil) Foi escrito num momento de despedida, de transição ou de recomeço pessoal?

 Escrevi há muito tempo. Não lembro o motivo. Mas eu sou uma pessoa muito guiada pelo sentimento. Deve ter acontecido algo que me fez ter vontade de largar tudo e me recriar.

 Interessante como, mesmo sem lembrar exatamente o motivo, você reconhece o impulso emocional que deu origem ao poema. Isso mostra o quanto sua escrita nasce de um lugar genuíno, quase instintivo, onde o sentimento é quem guia a palavra. E talvez seja justamente essa sinceridade que faz seus textos tocarem tanto quem lê, porque vêm da alma, não da intenção.

 Qual a mensagem central que gostaria que o leitor levasse deste poema: (o mesmo poema) a aceitação das perdas, a leveza dos recomeços ou a ideia de que a vida é feita de ciclos eternos?"

 Acho que seria a aceitação da transitoriedade das coisas, das pessoas, dos fatos, nada nos pertence, nem as lembranças. Então ganha mais quem consegue se reinventar, se adaptar, largar o que já não nos representa.

 

 Há uma serenidade muito bonita na forma como você fala sobre a transitoriedade. Essa aceitação do impermanente é quase uma arte, e poucos conseguem transformar algo tão doloroso, como o desapego, em poesia. Sua resposta revela maturidade emocional e uma sabedoria que só vem de quem aprendeu a se refazer sem perder a doçura. Talvez seja isso o mais encantador na sua escrita, ela nos ensina que deixar ir também é uma forma de amar.

 Poetisa Iolandinha, no seu perfil você comenta, com certo bom humor, que gosta de retribuir os comentários recebidos, mas que a vontade desaparece quando percebe que a pessoa nem leu o texto e escreveu qualquer coisa só para constar.

 Diga-nos: já pensou em escrever um conto ou uma crônica inspirada nesses 'comentários relâmpago' que parecem mais automáticos do que literários?

 Não adiantaria muita coisa. Talvez outras vítimas deste comportamento se apresentassem e contassem suas histórias nos comentários, mas não atingiria quem usa deste expediente. Uma pessoa que sai comentando várias pessoas com comentários genéricos e vazios não se importa realmente com os outros, não se constrange e nem acha que isso está errado. É alguém egoísta, vaidoso e nada mais.

 Sua resposta tem aquele toque de lucidez com uma pitada de ironia que só quem observa o comportamento humano com olhar de cronista consegue ter. É quase uma análise social em poucas linhas, e, claro, com o tempero da sinceridade. Você diz o que muitos pensam, (inclusive eu) mas poucos têm coragem de colocar em palavras. (eu as coloco nas poesias) No fundo, é também um lembrete de que a literatura e a empatia caminham juntas, e que o verdadeiro leitor é aquele que se entrega de fato à leitura, e não apenas ao ato de aparecer. “Tem gente que comenta tanto sem dizer nada, que devia cobrar por minuto de silêncio digitado.” (risos)

 Também consta no seu perfil um “Versinho de Hoje” Você pode escrever um versinho para hoje?

 O versinho daquele dia foi o começo do fim de um amor. Para escrever um versinho, assim como para tudo o mais, é necessário o momento surgir, e agora, enquanto respondo às suas perguntas, não me ocorre está inspiração.

 Também a este bilhetinho em versos poéticos que diz:  Recebi de um admirador. Só entende quem sabe.

 Você gostaria de nos contar um pouco sobre esse admirador ou prefere deixar esse detalhe em off? (risos)"

 Ah, foi um querido com quem me relacionei por um tempo. Ainda somos muito próximos e nos falamos sempre. Eu sou uma esfinge quando o assunto é relacionamento. Não público, não revelo, nunca divulgo meus amores. É uma forma de ter paz

 Você traz no seu perfil, eu diria uma mensagem aberta a todos sobre o apoio à mulher.

 

Sobre a causa das mulheres

 

 Poetisa, em seus versos, você mostra a mulher como força, beleza e vida. Na sua visão, por que ainda vivemos em uma sociedade que insiste em violentar essa essência?

 As pessoas, em geral, precisam de evolução (social, espiritual, amorosa) os homens mais do que as mulheres. Acho que o mundo mudou muito rápido e foram eles que mais saíram perdendo. Eram os machos alpha das famílias. Eram obedecidos por todos. Era poderosos e provedores. Era deles a tarefa de defender e cuidar. Com o tempo as mulheres foram adquirindo protagonismo de suas próprias vidas e isso perturbou profundamente esta ordem tão enraizada. Para os homens e algumas mulheres, infelizmente, mais equilibrados e inteligentes, a transição foi menos caótica, porem parte da população ainda está tentando lutar contra esta mudança que é inevitável e não existe retorno.

 Sua resposta, poetisa, mostra uma transparência lúcida e necessária. A forma como descreve essa transição revela um sentir e consciência histórica, e talvez por isso seus versos toquem tão fundo, porque nascem do olhar de quem entende que a força feminina não é uma ameaça, mas um chamado à evolução. Enquanto alguns ainda resistem, sua poesia, seus contos já caminham à frente, iluminando o caminho que todos, mais cedo ou mais tarde, terão de trilhar.

 A poesia pode realmente transformar mentalidades e ajudar no combate à violência contra a mulher?

 Algumas, sim. Tem poesia que me emociona. Acho que a emoção abre a alma da gente e nos faz despertar para coisas que não enxergávamos em sua plenitude. Embora fuja ao tema de sua pergunta, cito como exemplo uma do Mauro Iasi, chamada Metamorfose de Mãe. Acho que me toca muito porque eu me identifiquei demais com as palavras, sendo eu mesma mãe de um comunista. Claro que hoje em dia isto não é mais perigoso. Mas eu acho realmente que as poesias nos lapidam, emocionam, e isso é maravilhoso.

 Que bela reflexão, poetisa. Suas palavras traduzem exatamente o poder que a poesia tem de atravessar o racional e tocar o que há de mais humano em nós. A emoção, como você disse, é o portal da transformação, e quando um poema consegue abrir esse portal, ele cumpre sua missão mais nobre. “Metamorfose de Mãe”, assim como seus próprios versos, nos lembra que sentir é também uma forma de consciência, e que só quem se permite sentir profundamente é capaz de mudar, a si mesmo e o mundo ao redor.

 Qual o papel dos homens nessa luta pela dignidade e respeito às mulheres?

 Os homens precisam compreender o que está acontecendo, aceitar que a vida muda e engrossar as fileiras de quem luta pela igualdade entre os sexos. Nós mulheres não pedimos para ter mais direitos, apenas os mesmos direitos que os homens já tem e os que foram dados por conta de nossas condições de sermos as únicas responsáveis biologicamente pela gravidez, amamentação e cuidado dos primeiros meses da prole do casal.

 Sua fala traduz com clareza e sensatez o que tantas vezes é distorcido. A luta das mulheres nunca foi por superioridade, mas por igualdade, por caminhar lado a lado, não atrás. Quando os homens compreenderem isso, tornam-se aliados poderosos, capazes de ajudar a construir uma sociedade mais justa, empática e madura.

 O que você acredita ser mais urgente: leis mais severas ou conscientização cultural?

 As leis normalmente são criadas para fazer ajustes a comportamentos já existentes. Mas, às vezes, é necessário criar costumes, explicar para a sociedade que ela não pode continuar se comportando de uma determinada maneira, e evoluir para um novo modelo, melhor para todos.

 Excelente colocação, poetisa. A transformação verdadeira nasce primeiro na consciência, e só depois se consolida nas leis. De nada adianta punir sem educar, ou endurecer normas sem oferecer caminhos para a mudança interior e social. Quando a cultura entende o valor do respeito e da igualdade, a própria necessidade de punição se reduz, porque o comportamento evolui. A lei é o freio, mas a conscientização é o farol que ilumina o caminho para uma convivência mais justa e humana. Eu penso assim. E penso que todos, a sociedade de modo geral deveria pensar.

 Se pudesse deixar uma mensagem a uma mulher que sofre violência, qual seria?

 Saia. Mude esta situação. Fuja. Pegue seus filhos e vá embora. Ele não vai mudar. Quando estiver segura, denuncie. Existem mecanismos de apoio: use.

 Sua resposta é um grito de urgência e coragem, poetisa. Direta, firme e necessária. Às vezes, o que uma mulher precisa ouvir não é poesia, mas um chamado à ação, um lembrete de que a vida vale mais do que qualquer promessa de mudança que nunca vem. Suas palavras ecoam como um abraço e um empurrão ao mesmo tempo, acolhem, mas também despertam. É a voz de quem compreende a dor, mas se recusa a deixá-la vencer.

 

Sobre projetos em prol da causa.

 

 Você tem algum projeto presente ou para o futuro voltado especificamente para o enfrentamento da violência contra a mulher através da poesia ou da literatura?

 Pertenço desde 2017 de um coletivo feminino de escrita e sempre há textos que trazem este tema à baila. Mas acho que a sociedade civil não é a única que precisa agir. O que mais me preocupa é a estrutura que temos hoje. Precisa melhorar muito. Delegados misóginos, parentes que minimizam o sofrimento das mulheres da família, amigos que apoiam o abusador, o poder público precisa melhorar muito a rede de apoio para que se torne realmente eficiente.

 Uma resposta que vai além da literatura e toca o cerne da realidade. É bonito perceber como você une a arte ao engajamento, mas sem perder o senso crítico. Sua fala revela maturidade e consciência social, a noção de que a palavra é poderosa, sim, mas que sozinha não basta. É preciso que o sistema inteiro funcione, que as estruturas deixem de ser cúmplices do abuso. Sua visão traduz exatamente o que falta: sensibilidade com ação, poesia com propósito.

 

Ainda sobre o tema em apoio a causa das mulheres

 

 O poema cita o feminicídio de forma implícita. (no seu perfil) Como lidar poeticamente com a dor de tantas mulheres que se tornam estatística?

 A poesia traz consciência, mas agora precisamos de mais ação. E isso é urgente.

 Uma resposta breve, mas de um peso enorme. A poetisa resume com precisão o sentimento de impotência diante da dor coletiva, quando as palavras já gritam, mas ainda assim parecem não bastar.

 Você acredita que campanhas literárias, como saraus e publicações, podem dar mais visibilidade ao tema? Tem em mente outro (os) meios para alcançar de forma objetiva essa visibilidade?

 Talvez para quem participa. Mas poucos participam de saraus literários. Acho que é preciso dar mais visibilidade ao tema.

 A resposta revela uma visão prática e lúcida, a poetisa reconhece o valor simbólico dos saraus e campanhas literárias, mas entende que é preciso ir além dos círculos já engajados. Sua fala sugere um desejo de ampliar o alcance, levar o tema para as ruas, escolas, redes sociais, espaços de convivência, onde o diálogo ainda não chegou.  

 Na sua trajetória, já recebeu relatos de leitoras que se sentiram acolhidas ou fortalecidas por seus textos? (Você pode citar o nome?)

 Sim, algumas pessoas se identificam com o que escrevo, mas a minha literatura é pouco panfletária. Sou uma contadora de histórias que algumas vezes se aventura pela poesia. Acho que meu conto mais engajado foi Cova de Lama. Ele trata sobre violência, incesto e segredos de família.

 Sua resposta revela não só uma autora que entende a força de suas palavras sem precisar transformá-las em bandeira. Mias indica uma sinceridade tocante na forma como você reconhece o impacto emocional de sua escrita, ainda que não a considere militante. Ou seja, considera se uma escritora.

 O que a você diria a quem ainda se cala diante da violência contra as mulheres? O que você diria à própria mulher que se cala?

 Tentaria abrir os olhos desta pessoa ou pessoas para a realidade. Tentaria fazer com que ela tomasse atitudes que mudassem a própria realidade ou a de pessoas ao seu redor. Ações de acolhimento e conscientização são necessárias e prementes.

 Sua resposta toca profundamente. A sinceridade e a urgência nas suas palavras, e é impossível não se sensibilizar com a forma como você coloca a responsabilidade de agir diante da violência.

 O que você faria se ganhasse um prêmio da mega sena?

 

 Olha, daria bastante dinheiro para pessoas da minha família como retribuição pelo tudo o que fizeram por mim. Patrocinaria o trabalho do meu filho que é um cineasta em começo de carreira. Viajaria pelo mundo e me dedicaria à causa animal, acolhendo animais em situação de abandono e fornecendo cuidados veterinários e outros relacionados. Minha paixão são os animais. Atualmente tenho dois gatos.

 Profundamente admirável sua resposta, porque revela não apenas generosidade, mas também um senso de gratidão e propósito. É inspirador ver alguém sonhar grande sem esquecer das raízes, da família e, sobretudo, dos animais que tanto amor merecem.

 Poetisa. Você afirma não ser escritora, (parte final do seu perfil) mas uma contadora de histórias que espalha versos para aliviar dores. Acredita que justamente essa simplicidade e sinceridade é o que torna sua escrita tão próxima e verdadeira para os leitores?"

 Acho que tenho muito a melhorar para me considerar uma escritora. Mas as histórias, os pontos de vistas que moram em mim (na cabeça e no coração) imploram para ganhar asas, para serem lidos, viajar por aí, e é por isso que eu escrevo e público.

 Essa sinceridade, esse impulso de dar asas aos sentimentos, é exatamente o que torna sua escrita tão próxima, tão viva e tão capaz de tocar quem lê. Às vezes, não é o título que faz o texto ser verdadeiro, mas a força de quem o escreve, e, nesse sentido, suas histórias já são completas e poderosas.

 

Reconhecimento e prêmios

 

 Poetisa Iolandinha, você já recebeu indicações e prêmios por sua escrita. Como se sente ao ver seu trabalho reconhecido?

 Os prêmios que ganhei foram de pequenos concursos feitos entre amigos, e outros escritores iniciantes como eu. Nada que seja relevante para o mundo, mas muito importantes para mim.

 Há humildade nessa resposta, ela mostra o quanto o reconhecimento verdadeiro não precisa vir do tamanho do prêmio, mas do significado que ele tem. Cada conquista, por menor que pareça, é um passo de coragem e amor pela escrita.

 Há algum prêmio ou reconhecimento que tenha marcado sua trajetória de forma especial?

 A primeira vez que ganhei um concurso literário chamado DTRL, que era promovido dentro do Recanto das Letras. Eu nunca havia ficado em primeiro lugar em nada. Foi uma enorme emoção. O conto se chama Os Quatro Terríveis.  Está na minha escrivaninha, caso tenha interesse.

 Dá pra sentir o brilho desse momento nas suas palavras. Ganhar o primeiro concurso literário deve ter sido como ver o próprio talento sendo finalmente reconhecido, e de forma merecida. Os Quatro Terríveis, (minha próxima leitura) certamente carrega não só a força da sua escrita, mas também o marco simbólico de uma conquista que confirmou o que seus leitores já sabiam. Que você nasceu para contar histórias que ficam na memória.

 

Vida profissional além da escrita

 

 Além da literatura, você exerce alguma outra profissão ou atividade?

 Sou formada em Direito e sou especialista em Direto Público com ênfase em Direito Penal.

 Admiro essa combinação de mundos, o da justiça e o da arte. É interessante ver como o olhar jurídico e o poético podem coexistir, um buscando a razão, o outro, o sentimento, ambos, no fundo, servindo à verdade humana.

 Como você concilia sua rotina diária com a escrita e outras responsabilidades?

 Faço um pouco de tudo. Trabalho, estudo línguas, cuido da casa, do filho, dos gatos. Mulher é sempre múltipla.

 É admirável essa naturalidade com que você fala sobre a multiplicidade feminina. Você traduz em sua resposta o que tantas mulheres vivem, o dom de equilibrar o mundo nas mãos sem perder a delicadeza do sorriso ou de escrever sobre ele.

 Quando você começou a escrever e o que motivou esse primeiro impulso?

 Eu publicava poesias de autores conhecidos no Facebook e as introduzia com pequenas observações líricas. Uma amiga viu e disse que eu tinha talento, que deveria publicar no Recanto das Letras. Isso foi em junho de 2015. Além disso sou filha, neta, bisneta de escritores.

 A escrita nasceu pra você de forma tão natural, quase como herança de sangue e de alma. Posso imaginar essa cena, uma simples postagem que se transformou em destino literário.

 Existe algum momento do dia que você prefere para escrever?

 Sim, sempre que tenho tempo e inspiração.

 Escrever quando há tempo e inspiração é deixar que a arte flua sem pressão, como um rio que corre no seu próprio ritmo, natural, sincero e cheio de verdade.

Propósito e inspiração

 

 O que você procura transmitir ou despertar no leitor?

 Nada. Mas ficarei feliz se eles gostarem, se minhas palavras forem um bom momento para quem me lê. Escrevo porque preciso. As histórias são como um filme na minha cabeça pedindo para voar. Escrevo porque preciso, me faz bem.

 Ao ouvir essa resposta, não tem como não admirar sua sinceridade. Gosto dessa forma livre com que você encara a escrita, sem pretensão de ensinar ou impressionar, apenas o desejo genuíno de libertar o que pulsa dentro de se mesma.

 De onde vem a inspiração para seus contos, crônicas e poesias e seus outros estilos literários?

 As ideias surgem pela observação da vida, de alguma coisa que eu assista leia, ou simplesmente nascem na minha imaginação.

 Admiro essa naturalidade com que você descreve o processo criativo. A inspiração, para você, não é algo que se busca, é algo que acontece. Brota da vida, do cotidiano, do simples ato de existir com sensibilidade.

 

Publicações e projetos literários

 

 Você já publicou algum livro ou planeja lançar obras em breve?

 Sim, publiquei obras em conjunto com outros escritores, principalmente nos coletivos literários Entre contos e As Contistas. Ainda penso em publicar um livro só com textos meus.

 É inspirador ver como você trilha o caminho literário com tanta autenticidade.

 Como é o processo de organizar suas histórias para uma publicação ou para o Recanto das Letras?

 Eu costumo dizer que tenho uma entidade que vem quando quer e me concede a história. Um tipo de inspiração especial que os antigos costumavam chamar de musa. Os pensamentos simplesmente fluem e eu vou escrevendo. Já perdi várias histórias ótimas porque demorei a encontrar onde escrever e as esqueci.

 Gosto dessa visão quase mística da sua criação literária, essa “entidade” que você menciona, chega sem avisar e sopra histórias no seu ouvido. É um processo que revela o quanto a inspiração, para você, é viva e indomável, uma força que exige presença imediata e entrega total.

 Qual seu primeiro escrito indicado ao prêmio? E o mesmo ganhou a indicação?

 Foi Os Quatro Terríveis. Como falei lá atrás. O prêmio era a felicidade de ser vencedora.

Vida pessoal e cotidiano

 

 Como é a Iolandinha no dia a dia, fora do mundo da literatura?

 Uma pessoa ocupada. Não gosto nem de baladas, só vou aos shows de uma banda local da qual eu gosto muito. Eu sempre estou fazendo alguma coisa. Ou trabalho, ou coisas domésticas, ou cuidando de alguém (meu filho, meus gatos, ou quem pede a minha ajuda). No tempo livre assisto e leio filmes e livros. Também amo cinema e ir a cafés.

 Percebo que, fora das letras, você é movida por uma rotina simples, mas repleta de afeto e propósito. Você parece encontrar poesia até nas pequenas tarefas, entre o cuidado com quem ama, um momento para o café e o silêncio para ver um bom filme.

  A família ou o convívio diário influência de alguma forma sua escrita?

 Completamente. Minha mãe é professora de português. Por muito tempo ela ensinou em escolas públicas e recebia muitos livros das editoras. Eu e minha irmã mais velha líamos tudo. Nos apaixonamos por literatura. Meu pai tem uma biblioteca em casa e compra muitos livros. Está sempre lendo alguma coisa. Dá preferência à literatura história e livros sobre Física e Astronomia. Li quase todos os livros da coleção OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSA.  Por isso tenho uma preferência pelas obras do período vitoriano, mas leio de tudo.

  Agora ficou mais fácil de entender de onde vem tanta sensibilidade e cultura literária. Crescer cercada por livros, histórias e exemplos de amor pela leitura moldou seu caminho literário e não apenas a escritora, mas para a mulher observadora, que transforma vivências familiares em narrativas cheias de alma e verdade.

 

Sobre o conto Elvis Não Morreu

 

 

 De onde surgiu a inspiração para unir realidade e fantasia nessa narrativa tão intensa?

 Tive dois cachorros adotados, primeiro o Petit, que morreu em 2017 e depois o Ralph, que chegou em minha casa poucos dias após a partida do Petit. A história foi uma homenagem a eles. De certa forma, a presença do Ralph aliviou a dor da ausência do Petit. Por coincidência, eles eram idênticos, mesma raça, mesmo tamanho, mesma cor, e ambos eram amarelos. Saudades dos dois, Ralph morreu ano passado.

 Você revela uma ternura profunda em sua inspiração. Poetisa, você transforma a dor da perda em arte, unindo lembrança e imaginação para eternizar o amor por seus fiéis companheiros.

 Como você transformou essas memórias pessoais em uma história literária tão envolvente? Estou correto em afirmar pessoais?

 Sim. A dor é uma grande fonte de inspiração. Acho que a emoção brota mais facilmente quando a gente escreve sobre coisas que doem, como a perda do meu querido Petit. Chorei muito escrevendo o conto do Elvis. Amo os bichos e não suporto o sofrimento deles.  Escrevi como um legado aos meus cães.

  Sua sinceridade na resposta comove. Você transforma a dor em poesia viva, fazendo das lembranças um legado de amor. Sua escrita é cura, memória e homenagem aos laços que jamais se rompem.

 A figura de Elvis é central e carrega características quase humanas, mágicas e protetoras. Ele surgiu de alguma experiência concreta com animais, de uma lembrança da infância ou foi fruto exclusivamente da imaginação?

 Não. O comportamento do Elvis foi pensado assim por que ele era um extraterrestre infiltrado em nosso planeta. Para se disfarçar ele emulou características humanas, mas usou a imagem de um cão. Uma ótima escolha, porque humanos e cães têm uma relação de carinho bem antiga.

 Poetisa você surpreende ao unir ternura e ficção científica. Sua criação, o conto Elvis Não Morreu refletem sensibilidade e originalidade, transformando o amor pelos animais em uma metáfora cósmica sobre empatia e coexistência entre mundos.

 Qual foi o maior desafio para equilibrar essas emoções e manter a história coerente e tocante?

 O desafio foi tornar a história coerente e interessante. Mas deu certo. Muita gente ama este conto, acho que isso se deve ao fato de eu estar passando por um momento muito triste da minha vida, e as pessoas leram está dor na minha história. Para mim o termômetro do sucesso de uma obra é ver como ela toca as pessoas que a leem.

 Você revela conhecimento emocional ao reconhecer a dor como força criativa. Sua sensibilidade transforma sofrimento em arte, e o público sente isso, (eu senti ao ler o conto) a verdade da alma por trás de cada palavra.

 Como você estruturou a narrativa para que o leitor sentisse essa continuidade de crescimento, perda e reencontro ao longo do conto?

 Sinceramente, não sou do tipo que planeja, estrutura, concebe... Vou escrevendo o que vem de dentro e depois faço algumas revisões. Talvez por isso o resultado emocione. A dor é genuína.

 

 Encerrar esta entrevista com a poetisa Iolandinha Pinheiro é, de certo modo, um desafio. Foi como encerrar algo que parece continuar soando dentro da gente? Suas respostas não são apenas falas, são certezas de uma mulher que observa o mundo com olhos de poeta e o traduz com o coração de quem sente cada palavra antes de escrevê-la.

 

Durante a conversa, a poetisa Iolandinha mostrou que não se define apenas por títulos. Ela mesma diz não se considerar uma escritora, e sim uma contadora de histórias que espalha versos para aliviar dores. E talvez seja exatamente essa sinceridade, essa ausência de pretensão, que a torna tão genuína, tão próxima de quem a lê. Sua escrita não é sobre moldes literários, mas sobre humanidade, e humanidade, convenhamos, é a matéria-prima mais rara e preciosa da boa literatura.

 

Ao longo da entrevista, falou-se sobre poesia e sobre o papel das palavras na luta pela dignidade feminina. A poetisa Iolandinha acredita que a poesia pode, sim, emocionar e despertar consciências, mesmo que nem todas tenham o poder de mudar o mundo. “A emoção abre a alma da gente”, ela disse, e talvez seja justamente aí que mora a verdadeira transformação, nas pequenas aberturas que as palavras provocam dentro de quem lê.

 

Para ela, a luta das mulheres ainda é um caminho árduo. “Os homens precisam compreender o que está acontecendo, aceitar que a vida muda e engrossar as fileiras de quem luta pela igualdade entre os sexos”, afirmou. Sua visão é realista e sensata, não se trata de pedir mais direitos, mas de exigir os mesmos, com o reconhecimento das especificidades biológicas e sociais que a mulher carrega.

 

Entre as reflexões mais marcantes da entrevista, a poetisa Iolandinha também destacou algo que merece som, a urgência da ação. Disse que a poesia traz consciência, mas que agora “precisamos de mais ação”. Fala de um mundo que, embora tenha leis, ainda carece de consciência cultural, de uma sociedade que precisa ser educada emocionalmente para entender que respeito, empatia e igualdade não são concessões, são deveres humanos.

 

Quando perguntada sobre o que diria a uma mulher que sofre violência, sua resposta foi direta, sem floreios nem hesitações: “Saia. Mude esta situação. Fuja. Pegue seus filhos e vá embora. Ele não vai mudar. Quando estiver segura, denuncie. Existem mecanismos de apoio: use.”

 

Há força e dor nessa fala. E há também um profundo senso de realidade, o mesmo que permeia seu conto Cova de Lama, um dos mais intensos de sua trajetória, no qual aborda a violência, o incesto e os segredos familiares. Esse equilíbrio entre sensibilidade e coragem talvez seja uma das marcas mais autênticas de sua obra, ela escreve com o coração, mas nunca fecha os olhos para o que dói.

 

A convivência familiar, segundo ela, foi o berço de sua paixão pela literatura. A mãe, professora de português, enchia a casa de livros, o pai, amante da Física e da História, mantinha uma biblioteca que abria janelas para outros mundos. “Li quase todos os livros da coleção Os Imortais da Literatura Universal”, contou. Não é difícil entender de onde vem sua afinidade com o estilo vitoriano e sua profundidade narrativa.

 

Mas, apesar de toda essa bagagem literária, a poetisa Iolandinha conserva o frescor da simplicidade, e é isso que encanta. Quando fala de sua trajetória, menciona com lembrança do momento do primeiro prêmio que ganhou, o concurso DTRL, dentro do Recanto das Letras, com o conto Os Quatro Terríveis. “Eu nunca havia ficado em primeiro lugar em nada. Foi uma enorme emoção”, confessou. E nesse reconhecimento, percebe-se o brilho de quem escreve não por vaidade, mas por amor.

 

No campo humano, a escritora é também uma mulher que observa o mundo com senso crítico e empatia. Ela fala com calma sobre temas que muitos evitam. Acredita que o silêncio é perigoso, tanto o de quem sofre quanto o de quem assiste e nada faz. “Tentaria abrir os olhos destas pessoas para a realidade. Ações de acolhimento e conscientização são necessárias e prementes”, disse com a firmeza de quem sabe que palavras podem salvar.

 

A poetisa Iolandinha Pinheiro é, antes de tudo, uma voz de lucidez. Sua escrita é o reflexo de alguém que aprendeu que a dor pode ser matéria de arte, que o amor é aprendizado constante e que o mundo precisa de quem escreva com verdade. Seus versos falam de mulheres, de coragem, de recomeços, mas também de humanidade, e é por isso que alcançam leitores de todas as idades e realidades.

 

Encerrar este diálogo é como fechar um livro e permanecer com ele aberto dentro de si. Agradeço imensamente à poetisa por sua disponibilidade, pela ternura e pela honestidade com que respondeu a cada pergunta.

Aos leitores, deixo um convite, se ainda não conhecem a escrita da poetisa Iolandinha Pinheiro, preparem-se para encontrar uma autora que não escreve apenas para ser lida, mas para ser sentida.

 

Suas histórias são viagens interiores, suas poesias, espelhos da alma, e suas palavras, pontes entre a dor e a esperança.

 

E, no fim das contas, é isso que torna a literatura de Iolandinha tão necessária, ela nos lembra que a vida, assim como a arte, é feita de reinvenções.

 

Fim da Entrevista com a poetisa Iolandinha Pinheiro

 

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Nossa próxima convidada aqui PodReader em sua 2° edição é:

 

Aguardando confirmação da poetisa

 

 

 

 

 

 

 

A Sales e a Poetisa Iolandinha Pinheiro
Enviado por A Sales em 10/10/2025
Alterado em 06/03/2026
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Comentários

  Um livro poético escrito em sonetos que te leva desde a amizade, passando pela paixão até o amor. Uma viagem nestes sentimentos com uma escrita leve, senssivel e compreenssivel.

Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

Há palavras que nunca foram ditas,
e, mesmo assim, soam dentro de nós.
Este livro é um mergulho no espaço entre as vozes,
nas pausas, nos gestos interrompidos,
e nas emoções que o silêncio guarda.