Na manhã seguinte ao jejum, Ester vestiu-se com suas vestes reais. Cada detalhe de sua indumentária resplandecia majestosamente, mas sua força não estava no ouro nem nos tecidos finos, e sim na confiança em Deus. Seus passos eram firmes, mesmo que seu coração ainda batesse acelerado. Ela se dirigiu ao átrio interior, em frente ao trono real, onde o rei Assuero estava assentado.
O silêncio no salão era pesado. Guardas e servos seguravam a respiração. Ester ergueu o olhar e fitou o rei. Ele, por um instante, a observou. Então, num gesto que definiu o destino de uma nação, estendeu-lhe o cetro de ouro.
— Que tens, rainha Ester? Qual é a tua petição? Até metade do reino se te dará. (Ester 5:3)
As palavras do rei foram como uma brisa suave depois da tempestade. Ester se aproximou e tocou a ponta do cetro, em sinal de reverência. Mas não se precipitou. Inspirada por sabedoria divina, ela pediu apenas:
— Se bem parecer ao rei, venha hoje o rei e Hamã ao banquete que preparei para o rei.
Hamã, lisonjeado, não podia conter o orgulho. Ser o único convidado, além do rei, ao banquete da rainha era a confirmação de sua importância. Porém, em seu coração crescia também o ódio contra Mardoqueu, que continuava sem se curvar diante dele. A arrogância de Hamã era tão grande que, naquela mesma noite, mandou preparar uma forca de mais de vinte metros de altura para enforcar Mardoqueu (Ester 5:14).
Enquanto Hamã tramava a morte, o próprio rei não conseguia dormir. Ordenou, então, que lhe lessem o livro das crônicas do reino. E ali descobriu que Mardoqueu havia denunciado uma conspiração contra sua vida, mas jamais fora recompensado por isso. A providência divina começava a se mover de maneira silenciosa e precisa.
No dia seguinte, o rei e Hamã compareceram ao banquete. O vinho foi servido, as mesas fartas estavam diante deles, mas o verdadeiro banquete seria de revelações.
— Qual é a tua petição, rainha Ester? Até metade do reino se te dará. Repetiu o rei.
Ester respirou fundo, esperou o momento certo, e então falou com coragem:
— Se achei graça aos olhos do rei, e se bem parecer ao rei, conceda-me a vida pelo meu desejo, e a vida do meu povo pela minha petição. Porque fomos vendidos, eu e o meu povo, para sermos destruídos, mortos e aniquilados. (Ester 7:3-4)
Assuero ficou atônito. Seu semblante mudou, e sua voz ressoou furiosa pelo salão:
— “Quem é este? E onde está esse cujo coração o instigou a fazer assim?”
Ester, com firmeza, apontou para Hamã:
— “O homem adversário e inimigo é este mau Hamã.” (Ester 7:6)
O sangue fugiu do rosto de Hamã. Desesperado, tentou implorar misericórdia, mas era tarde demais. O rei saiu enfurecido para o jardim, e quando retornou viu Hamã caído sobre o leito onde estava Ester. A cena foi interpretada como um ultraje ainda maior.
Imediatamente, Hamã foi levado e enforcado na mesma forca que havia preparado para Mardoqueu (Ester 7:10). O instrumento de sua maldade tornou-se o palco de sua própria queda.
O decreto contra os judeus não podia ser anulado, pois nenhuma lei persa podia ser revogada. Mas o rei deu ordem para que fosse escrito um novo decreto, permitindo que os judeus se defendessem no dia marcado. Assim, em todas as províncias, o povo de Deus se fortaleceu. A tristeza transformou-se em alegria, e o luto em festa.
Nascia, a partir desse livramento, a celebração do Purim, uma festa de gratidão a Deus pela libertação. A história de Ester se tornou não apenas um relato de coragem, mas uma marca de que o Senhor cuida do Seu povo, mesmo quando Seu nome não é mencionado diretamente.
Reflexão
O Deus das reviravoltas
A história de Ester nos mostra que Deus nunca perde o controle. Enquanto Hamã preparava forcas, o Senhor já estava preparando livramento. Enquanto reis perdiam o sono, o propósito divino permanecia firme. O que parecia ser o fim para os judeus transformou-se em um novo começo. Assim também acontece conosco. Quantas vezes nos vemos diante de decretos, diagnósticos, situações ou palavras que parecem definitivas? Mas há um Deus que transforma sentenças em vitórias, e luto em festa.
Ester nos ensina que coragem não é ausência de medo, mas decisão de avançar mesmo com medo, confiando em Deus. Sua sabedoria ao esperar o momento certo e sua firmeza em revelar a verdade mostram que fé e prudência caminham juntas.
Hoje, o convite é para que sejamos como Ester: conscientes de que podemos ser usados por Deus para trazer transformação em tempos difíceis. E que possamos confiar que, mesmo quando tudo parece perdido, o Senhor é especialista em reviravoltas.
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