A Sales
"Os Mundos gritam, eu escrevo, e no som das palavras, minha alma se encontra"
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato
Textos

A Coragem de Ester

O Banquete do Destino

 

  O palácio de Susã resplandecia como um reflexo terrestre do céu noturno. Lustres dourados iluminavam o salão do rei Assuero, onde cortinas de linho branco e azul, presas por cordões de púrpura, balançavam levemente com o vento que entrava pelas janelas abertas. As mesas estavam repletas de taças de ouro, nenhuma era igual à outra, e de jarras de vinho do melhor vinhedo da Pérsia. Era uma época de abundância e ostentação, o rei celebrava cento e oitenta dias de banquete, exibindo sua riqueza e o poder de seu vasto império, que ia da Índia até a Etiópia.

 

  Os nobres bebiam e riam, enquanto dançarinos e músicos entretinham os convidados. A cada instante, mais pratos de carnes temperadas com especiarias raras eram trazidos, cordeiros assados com mel, tâmaras recheadas, peixes cobertos de azeite e ervas finas. O luxo do ambiente parecia infinito, mas, por trás da pompa, pairava também a vaidade humana, o desejo de impressionar, de ser lembrado, de mostrar força.

 

  Em um outro espaço do palácio, a rainha Vasti oferecia um banquete às mulheres. Ao contrário dos homens, que se exaltavam entre o vinho e as discussões, o ambiente das mulheres era mais contido, embora igualmente requintado. Vasti, bela e de porte majestoso, carregava a graça de quem sabia se impor. Sua voz firme contrastava com o cochichado das servas.

 

  Naquele sétimo dia de festa, quando o coração do rei já estava “alegre do vinho” (Ester 1:10), Assuero mandou chamar Vasti, desejando exibir sua beleza diante dos príncipes e nobres. Era um ato de orgulho, uma demonstração de posse. Para ele, Vasti não era apenas esposa, mas símbolo de glória.

Mas Vasti recusou.

 

  A recusa soou como um trovão em meio à música e às risadas. Como ousava a rainha desobedecer ao rei? Os nobres se entreolharam em choque, e rapidamente o falatório cresceu como fogo em palha seca. Para Assuero, não era apenas uma afronta pessoal, era um risco político. Se a desobediência da rainha fosse tolerada, outras mulheres poderiam imitar seu exemplo, trazendo instabilidade às famílias da nobreza persa.

 

  A ira tomou o coração do rei. Influenciado por conselheiros que viam perigo na atitude da rainha, Assuero decretou a destituição de Vasti. Ela perdeu a coroa, tornando-se exemplo de que ninguém, nem mesmo a rainha, podia contrariar a ordem real.

 

  E assim, um trono ficou vazio.

 

  A preparação de um destino

 

  Entre as ruas de Susã, longe do luxo do palácio, vivia uma comunidade de exilados judeus.

 Entre eles estava Mardoqueu, um homem justo, que havia sido levado de Jerusalém durante a deportação. Criava sua prima, Hadassa, jovem órfã de pai e mãe, cujo nome persa era Ester.

 

  Ester era discreta, bela de semblante e de coração. Sua beleza não era apenas externa, havia nela uma mansidão e uma sabedoria que pareciam florescer da dor que vivera. Órfã, cresceu sob a proteção de Mardoqueu, que a ensinara a confiar no Deus de Israel, mesmo em terra estrangeira.

 

  Quando o decreto do rei determinou que moças de todo o império fossem trazidas ao palácio para que uma delas fosse escolhida como rainha, Ester foi levada entre elas. O caminho até o palácio não foi simples, guardas as conduziam em longas caravanas, enquanto as famílias choravam por deixar suas filhas. Cada moça representava um sonho de glória, mas também uma vida arrancada de suas raízes.

 

  No harém, Ester destacou-se não por ostentação, mas por humildade. Hegai, o eunuco responsável pelas mulheres, rapidamente notou sua graça e deu-lhe cuidados especiais, providenciando os melhores alimentos e sete servas escolhidas.

 

   Porém, Ester obedecia a Mardoqueu, que lhe havia orientado a não revelar sua origem judaica. Em silêncio, guardava seu segredo. Era uma jovem em meio a costumes estranhos, mas trazia consigo a fé em um Deus invisível.

 

   O dia da escolha

 

  As moças passavam por doze meses de preparação, seis com óleo de mirra, seis com perfumes e cosméticos. Era um processo quase ritualístico, destinado a realçar a beleza física. Mas, quando chegava a vez de se apresentar ao rei, cada uma podia levar consigo o que desejasse do harém. Ester, porém, nada pediu além do que Hegai aconselhou.

 

  E foi assim que, no tempo determinado, Ester entrou à presença do rei.

 

  Assuero, cercado de esplendor, viu-a aproximar-se. Seus olhos não encontraram apenas beleza exterior, mas algo além, uma leveza, uma pureza de espírito. Enquanto outras buscavam atrair atenção com adornos e artifícios, Ester deixava transparecer uma confiança serena, como se sua vida estivesse nas mãos de Alguém maior que o rei.

 

   Ester achou graça aos olhos de Assuero, e o rei a coroou como rainha em lugar de Vasti (Ester 2:17).

 

Reflexão

  O vazio que prepara o propósito 

 

A história de Ester começa não com sua ascensão, mas com a queda de Vasti. Muitas vezes, quando portas se fecham, quando situações parecem ruir, é o terreno sendo preparado para algo maior. O trono vazio no palácio não era apenas um espaço de poder, mas a oportunidade para que Deus escrevesse uma nova página na história de Seu povo.

 

  Assim também acontece conosco hoje. Há momentos em que perdemos algo, em que somos destituídos de planos, posições ou relacionamentos que julgávamos indispensáveis. Mas talvez esse vazio seja justamente o espaço que Deus deseja preencher com um propósito maior.

 

   Ester nos ensina que a verdadeira beleza não está na aparência, mas na obediência e na mansidão. Em um mundo que valoriza a exibição e a aparência, sua atitude discreta revela que a graça de Deus se manifesta na simplicidade.

 

  E aqui está a lição, quando confiamos em Deus, mesmo em silêncio, Ele nos prepara para um destino que nem imaginamos. Assim como Ester não sabia que um dia seria instrumento para salvar sua nação, também nós não conhecemos a totalidade dos planos divinos. Mas cada perda, cada recusa, cada vazio pode ser um convite para um propósito maior.

 

 

Capítulo Anterior

Introdução

 

Próximo Capítulo

Entre Segredos e Conspirações

 

 

A Sales
Enviado por A Sales em 01/10/2025
Alterado em 02/10/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários

  Um livro poético escrito em sonetos que te leva desde a amizade, passando pela paixão até o amor. Uma viagem nestes sentimentos com uma escrita leve, senssivel e compreenssivel.

Versos Soltos é uma coletânea que criei para explorar a liberdade tanto na forma quanto no conteúdo dos poemas. Aqui, cada verso é uma experiência singular, fluindo de maneira natural e espontânea. Busquei proporcionar ao leitor uma imersão em emoções e pensamentos que emergem sem restrições, permitindo que cada poema seja uma jornada independente, com sua própria essência e significado.

  

Há palavras que nunca foram ditas,
e, mesmo assim, soam dentro de nós.
Este livro é um mergulho no espaço entre as vozes,
nas pausas, nos gestos interrompidos,
e nas emoções que o silêncio guarda.