A Sales
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A imagem do hospital em nem um momento é o local onde meu pai estava internado. É só a ficção ilustrando a realidade

Imagem baixada do site: Pinterest

 

Estado Paliativo

Um Erro no Silêncio da Noite

Quando a Humanidade se Perde no Cuidado

 

No corredor estreito do hospital, o ambiente era pesado, carregado pelo zumbido constante dos aparelhos e pela luz fria das lâmpadas fluorescentes. O relógio da parede marcava 22h quando a técnica de enfermagem, visivelmente insegura, entrou no quarto 522.

 

O leito 1 abrigava um paciente em estado paliativo. Ele era um homem idoso, a pele fina como papel, marcada pelas lutas de uma vida que agora escapava entre os dedos. Seus olhos estavam semicerrados, o peito subindo e descendo com dificuldade, cada respiração um lembrete da fragilidade de seu estado. O monitor ao lado exibia um ritmo cardíaco lento, intercalado por picos irregulares. Em cima da mesa de cabeceira, repousava um copo d’água intacto e uma foto de família amarelada pelo tempo.

 

O estado paliativo é um limite entre a vida e a morte, onde o foco é aliviar dores, reduzir sofrimentos e proporcionar dignidade. Esse paciente, em particular, lutava contra uma combinação cruel de falência múltipla de órgãos e uma condição terminal. Ele não tinha mais fome, apenas sede em breves momentos, e dormia por longos períodos, interrompidos por dores que os analgésicos, muitas vezes, mal conseguiam aplacar.

 

A última medição dos sinais vitais havia sido feita momentos antes da troca de turno. A glicemia estava em 127 mg/dL, um nível aceitável, mas requerendo monitoramento devido à história de diabetes do paciente. A pressão arterial marcava 11/7, também dentro de um intervalo tolerável para sua condição. No entanto, no contexto de cuidados paliativos, uma decisão equivocada poderia desencadear consequências irreparáveis.

 

A insulina regular é, muitas vezes, um recurso necessário em casos como este, especialmente quando a glicemia ultrapassa limites seguros. Entretanto, seu uso deve ser cauteloso. Uma dose inadequada pode causar hipoglicemia, levando a um quadro de confusão, tremores ou até mesmo à morte em um paciente já debilitado.

 

A técnica, nova no turno noturno, não possuía experiência suficiente para compreender as nuances desse tipo de cuidado. Seus movimentos eram hesitantes enquanto ajustava a medicação. Sem consultar a equipe ou revisar o prontuário, decidiu alterar a dose prescrita, acreditando estar agindo em benefício do paciente. A decisão não foi baseada em protocolos ou orientação médica, mas em uma interpretação superficial e equivocada da situação.

 

No silêncio da noite, a administração errônea passou despercebida por algum tempo. Os minutos se arrastavam, enquanto o paciente permanecia alheio à decisão que poderia alterar drasticamente seu destino. A humanidade parecia ausente naquele ato, substituída por uma combinação perigosa de inexperiência e pressão.

 

No entanto, o corpo do paciente, frágil e delicado, não tardou a reagir. Os sinais de desconforto tornaram-se evidentes, uma respiração mais acelerada, um leve tremor nas mãos que antes estavam em repouso, a palidez aumentando em contraste com a luz fria do ambiente. Era como se o próprio organismo clamasse por socorro, um apelo silencioso que poderia ter sido evitado.

 

Enquanto a noite seguia, as consequências da decisão equivocada lentamente se desenrolavam. O que deveria ser um turno de cuidado e atenção tornou-se uma tragédia silenciosa, um lembrete cruel da importância da experiência e do respeito pela fragilidade da vida.

 

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Este episódio não é fictício, aconteceu com meu pai quando estive ao lado dele por quase seis meses lutando por sua vida. Não escrevi todo o que aconteceu em respeito ao paciente (meu pai). 

 

 

 

 

A Sales
Enviado por A Sales em 27/09/2025
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