O relógio antigo da sala marcava pouco mais de quatro e quarenta e cinco da tarde. O sol, já a caminho do anoitecer, entrava pelas frestas das janelas altas e riscava o chão de pedra com listras de luz alaranjada. A casa de madre Béatrice, erguida com paredes grossas de cal e madeira escura, respirava um ar de temperança, como se conservasse o peso de muitas histórias não proferidas.
Élise caminhava ao lado da madre Geneviève, ambas envolvidas no leve murmúrio das orações repetidas antes da visita. O silêncio só se desfez quando, já no salão principal, madre Béatrice surgiu. Uma mulher de idade avançada, seus cabelos cinzentos cuidadosamente presos em um penteado firme, e um olhar que mesclava acolhimento e aspereza.
— Madre Geneviève, que alegria em a receber. Disse Béatrice, estendendo as mãos com calorosa formalidade. — É raro ter sua presença em minha casa.
Geneviève inclinou a cabeça num gesto respeitoso, sorrindo com a calma que lhe era peculiar.
— Minha querida Béatrice, sempre encontro paz quando partilhamos do mesmo teto. É como se nossas orações ganhassem corpo quando unimos nossas vozes.
As duas se sentaram em cadeiras de encosto alto, de madeira talhada, diante de uma mesa coberta por um bordado de linho. Élise, em silêncio, manteve-se de pé um pouco atrás, observando a troca. O ambiente era envolto por cheiro de cera e ervas secas, guardadas em potes de barro nas prateleiras.
— Tenho refletido muito sobre a necessidade de fortalecer o jardim do convento, comentou Geneviève, com voz calma. — As noviças precisam aprender não apenas a disciplina da oração, mas também o cuidado com aquilo que nasce e floresce.
Béatrice assentiu, pousando as mãos no colo.
— O jardim é um espelho da alma, Geneviève. Cada flor que cresce exige paciência, como cada jovem que nos é confiada.
Elas se olharam como se compartilhassem mistérios remotos. Foi nesse instante que Élise recebeu a permissão.
— Minha filha. Disse Geneviève, voltando-se para ela com um gesto de leve ternura. — Vá até o jardim de Béatrice. Colha algumas flores para que possamos levá-las ao convento. Elas servirão de sementes e inspiração para as demais.
Élise curvou-se em sinal de respeito e deixou o salão. O som dos passos ressoava pelas pedras do corredor até se misturar com o leve segredar do vento que entrava pelas aberturas. Ao atravessar a porta que dava para o jardim, ela foi tomada por uma sensação quase de encantamento.
O espaço se abria vasto, com caminhos sinuosos entre canteiros repletos de flores de todas as cores, margaridas, dálias, rosas em tons que iam do branco puro ao vermelho mais profundo. O perfume era denso, como um véu invisível que enchia os pulmões.
Élise demorou alguns instantes apenas para contemplar. Desde sua chegada à casa, algo lhe chamava atenção, a impressão de que havia presenciado um movimento no jardim, como se alguém a observasse. Agora, no entanto, não via ninguém. Caminhou devagar, os olhos atentos às flores, mas também ao entorno.
O jardim era tão amplo que parecia um labirinto natural. As colunas antigas, cobertas por heras, delimitavam passagens e criavam sombras suaves. Enquanto colhia algumas flores, margaridas brancas e dálias rosadas, como a madre havia pedido, Élise pressentia que o silêncio escondia presenças.
Foi então que ergueu os olhos.
No andar superior da casa, uma janela aberta deixava cair um leve pano translúcido movido pelo vento. Ali, inclinada de maneira graciosa, estava uma jovem mulher. A visão a fez deter-se.
Sua beleza era arrebatadora, de traços tão marcados que pareciam esculpidos com paciência. A pele clara refletia o último brilho do sol, os cabelos negros, longos e ondulados, caíam como seda escura sobre os ombros. Um vestido púrpura, ajustado ao corpo, revelava o decote e sua postura altiva e elegante. A tiara que repousava em sua cabeça não deixava dúvidas, havia nela a realeza, o peso de quem nascera para ser notada. Parecia ter mais de vinte e cinco anos, a juventude ainda incólume, mas já acompanhada de uma maturidade silenciosa.
Rubi, da janela, deixava escapar gestos sutis. Movia os dedos sobre o parapeito, inclinava-se um pouco mais do que o necessário, como se oferecesse sua presença ao espaço abaixo. Não sorria abertamente, mas o brilho nos olhos denunciava a intenção, havia alguém que ela queria ser vista por ele.
Intrigada, Élise desviou o olhar para baixo.
Entre colunas cobertas de flores, parcialmente oculto pelo trabalho, estava ele, João. Um homem de corpo robusto, mãos firmes envoltas em luvas brancas, cuidava de podar uma flor com precisão. A pele trazia marcas do sol, e seu semblante carregava os sinais dos trinta a quarenta anos. Ainda assim, havia nele uma força tranquila, quase sólida, como se fosse parte do próprio jardim que cultivava.
Enquanto podava, João levantava os olhos de maneira discreta. Não havia palavras, apenas o silêncio cúmplice de um olhar que reconhecia a beleza acima dele. E Rubi, da janela, respondia com suas pequenas insinuações, como quem brinca com o invisível fio que une duas presenças.
Élise permaneceu imóvel, testemunha silenciosa daquele jogo de olhares e gestos. Não se aproximou, não interrompeu. Guardou a cena dentro de si, como quem coleciona arcanos do destino. Colheu as últimas flores pedidas e, em silêncio, voltou pelo mesmo caminho.
O jardim, por trás dela, permaneceu suspenso entre o real e o encanto, como se flores, janelas e colunas houvessem conspirado para criar um instante que não pertencia a ninguém, exceto ao silêncio que os envolvia.
Capítulo 14 - 15 - Capítulo 15.1