Eu deveria começar agradecendo por sua curiosidade. Mas não.
Se você chegou até aqui, quero apenas adverti-lo. Não leia O Contágio.
O que está prestes a ser revelado não é um romance comum que trago aqui em aproximadamente em vinte capítulos. É um manuscrito que resistiu aos séculos, escrito por Élise Vigneron, em Lyon, no final do século XVIII. Um nome apagado pela história oficial, mas preservado em conversas, rumores e na memória daqueles que ousaram folhear suas páginas.
Quando começamos a traduzir e preparar a obra para publicação, não imaginávamos o que aconteceria. A tradutora, uma mulher experiente, acostumada a lidar com textos antigos, religiosos e até eróticos, foi a primeira a mudar. Ela própria pediu que não fosse identificada, pois o que sentiu a fez acreditar estar perdendo a razão. Depois de dias com os manuscritos, confessou-nos, quase em lágrimas, que não conseguia mais dormir sem sentir o corpo arder, que os versos de Élise pareciam tocar sua pele como mãos invisíveis. Ela descreveu calor entre as pernas, arrepios pela nuca, um latejar íntimo impossível de conter. Disse que as palavras a "possuíam", e que já não sabia se lia ou era lida.
E ela não foi a única. Outros membros da equipe, em silêncio, admitiram efeitos semelhantes. Uns tentaram negar, outros riram nervosamente, mas todos nós sabíamos, havia algo no texto de Élise que nos contaminava.
Os relatos coincidem com os da própria época. Em Lyon, 1783, homens e mulheres de diferentes classes sociais foram citados em rumores. Nobres diziam perder noites inteiras em devaneios febris. Soldados desertavam, alegando “sonhos impuros”. Padres relatavam tentações inexplicáveis, freiras do convento de Sainte-Croix foram acusadas de comportamento indecoroso após ter contato com poemas escondidos, poemas que hoje sabemos terem origem na pena de Élise. Até reis ouviram falar da jovem cujo olhar e palavras eram capazes de abalar a fé e incendiar a carne.
Eis o perigo, este livro não descreve apenas o desejo. Ele o desperta.
Ao ler, talvez você sinta o coração acelerar sem motivo. Talvez perceba uma onda de calor subir pelo seu corpo, até queimar em regiões que a moral insiste em calar. Talvez seus lábios se entreabram sozinhos, como se esperando um beijo que nunca vem. Talvez, em meio à leitura, você descubra que seu corpo reage por conta própria, músculos tensos, respiração curta, pele arrepiada. E tudo isso apenas com palavras. Talvez você se veja em alguma cena, ou, pior, queira realizar alguma cena.
Élise escrevia como quem profetiza. Cada estrofe, cada linha, é um convite a atravessar os limites da fé, da pureza, do controle, da moral e da descoberta. É por isso que chamamos o livro em andamento de: O Contágio. Não é uma metáfora vazia. É um aviso.
Você pode rir. Pode achar exagero. Mas foi assim que começou também para nós. Ríamos, até percebermos que estávamos sonhando com ela. Até que o corpo já não respondia à razão, mas ao que se lia no papel.
Se ainda insiste em continuar nas próximas páginas, faça-o com plena consciência:
Você pode descobrir desejos que nunca ousou admitir.
Pode experimentar sensações que transformarão sua relação com o prazer.
Pode perder noites em febre, preso (a) à lembrança de uma frase, de uma imagem, de uma promessa velada.
Alguns dizem que ler Élise é perigoso. Eu digo mais: é irreversível.
Por isso, este é o meu último alerta: não leia o Contágio.
Mas, se ler, esteja preparado para não se reconhecer mais.
Pois talvez descubra que o verdadeiro contágio não está nas palavras, mas no que elas revelam dentro de você.

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Capítulos
Nota da Equipe - O Último Aviso - Capítulo 1
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