Corvo do Silêncio
"Onde o mundo grita, o Corvo do Silêncio escreve, e no som das palavras, a alma desperta."
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Textos

Dia – 30 – Cheiro de Terra Molhada

O Peso da Lama e a Força da Vida

Quando o campo ensina que até a queda pode salvar

 

Amigos, hoje é 30 de julho de 2025. Estou na cidade, longe da fazenda. Eu havia prometido contar, durante trinta e um dias, as vivências e histórias do campo. Mas um dos mistérios do campo me fez parar. Mais adiante vocês vão entender.

 

Hoje é 02 de agosto, sábado, 15h00 da tarde. Estou aqui no hospital, numa sala de espera de frente para a avenida. As portas de vidro deixam passar a luz clara do dia e o movimento da rua contrasta com o silêncio pesado aqui dentro. Há cadeiras azuis de encosto enfileiradas, algumas ocupadas por pessoas que, como eu, aguardam a hora da visita. Uns olham fixamente para o chão, outros mexem no celular tentando distrair a ansiedade. Eu apenas observo, e espero. Não é um ambiente estranho para mim.

 

Tudo começou no dia 21 de julho. Vó ganhou um presente que pensava nunca mais receber, o reencontro com seu irmão gêmeo. O sorriso dela naquela manhã do dia seguinte parecia daqueles que duram para sempre.

 

Mas no dia 22, a rotina mudou. Tião saiu cedo, sem avisar ninguém. Havia chovido muito durante a noite. Durante a festa da vó, entre conversas com fazendeiros e vaqueiros, Tião ficou sabendo que a onça, sim, talvez a mesma que atacou o bezerro e, dias depois, tirou a vida de Capitão, o cachorro fiel, havia sido vista novamente nos arredores da fazenda. Ele não pensou duas vezes. Tião havia prometido matar o animal, e promessa para homem de palavra é compromisso de vida.

 

Foi nesse pedaço de chão íngreme, no final da fazenda, que tudo aconteceu. A chuva havia deixado o terreno traiçoeiro, liso até mesmo para Pé de Cedro, cavalo bem treinado e parceiro fiel de Tião. O animal escorregou, a descida arrastando tudo com força. A pata traseira quebrou-se num buraco escondido pela água, e o cavalo despencou em cima de Tião. O peso de quatrocentos quilos esmagou lhe o braço e prendeu sua cabeça na lama.

 

Quem conta essa história é Dorival. Ele vinha logo atrás, e foi quem viu a cena. A voz dele ainda embargada repete como se tentasse acreditar no que fez:

 

— Não sei de onde tirei a força pra puxar Tião. A lama não ajudava, o terreno piorava cada movimento. Eu só via o cavalo se debatendo e Tião sem respirar, afundado, a boca e o nariz cheios de lama.

 

Dorival diz que talvez tenha sido a própria lama que salvou Tião. O barro amoleceu a queda e ao mesmo tempo permitiu que ele, com as mãos tremendo, conseguisse puxá-lo para fora. Assim que viu que Tião não respirava, Dorival não hesitou. Lembrou-se das lições de sua mãe, dona Antônia, enfermeira que desde cedo lhe ensinara o processo de reanimação.

 

E ali, no meio da lama, Dorival colocou as mãos sobre o peito de Tião e iniciou as compressões torácicas. Apertava firme, contava os segundos, abria a boca de Tião e retirava o barro, assoprando o sopro da vida de volta. Foram minutos que pareceram horas. Até que, enfim, Tião engasgou, tossiu forte, e voltou a respirar. Dorival caiu em lágrimas, com a lama cobrindo o corpo e a alma leve de alívio.

 

Hoje, 02 de agosto, estou prestes a entrar na enfermaria. Tudo o que sei é que Tião está bem e pode falar. Aquele homem que carrega consigo a força do campo e a poesia da viola sobreviveu a mais uma batalha.

 

E talvez os meus trinta e um dias de relatos sobre o campo tenham terminado no dia 24 de julho. Porque dali em diante, não era mais sobre contar o campo, mas sobre entender que o campo também escreve a sua própria história em nós.

 

Antes de entrar, guardo comigo uma frase de Tião, que repete sempre quando fala do lugar que escolheu para viver:

 

“No campo a gente não vive só uma vida, a gente vive eternamente, porque cada árvore, cada bicho, cada amanhecer guarda um pedaço da gente pra sempre.”

Tião, amigo.

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As narrativas do dia 25 a 31, viram nos próximos dias e com a melhora e volta de Tião para fazenda.

 

Corvo do Silêncio
Enviado por Corvo do Silêncio em 29/08/2025
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